Pesquisadores da Universidade Liverpool John Moores reconstruíram o rosto de um homem que morava em Dublin há cerca de 500 anos. Reconstruções incrivelmente precisas como essa estão fornecendo aos arqueólogos uma nova maneira de estudar o passado, ao mesmo tempo em que permitem visualizar algumas das figuras mais esquecidas da história.

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Conhecido apenas como SK2, os restos deste homem foram encontrados em 2014 por arqueólogos da Rubicon Heritage and Transport Infrastructure Ireland. Ele foi um dos cinco esqueletos tirados de uma construção perto da entrada do Trinity College, em Dublin, na Irlanda. A princípio, os arqueólogos achavam que os restos eram de vikings ou nórdicos, mas uma análise mais aprofundada sugere que os esqueletos datam da época da reconquista da Irlanda pelos Tudor, período que decorreu de 1485 a 1603.

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Restos encontrados em College Green, em Dublin, na Irlanda (Imagem: Rubicon Heritage Services Ltd.)

A caveira de SK2 estava em ótimas condições, instigando uma reconstrução facial em três dimensões. O trabalho foi feito por Caroline Wilkinson e sua equipe do Face Lab, na Universidade Liverpool John Moores. Esse é o mesmo time que fez as reconstruções faciais de Ricardo III, Roberto I da Escócia e diversas outras figuras históricas. Mas diferentemente desses figurões históricos, SK2 era um ninguém, um indivíduo que veio da base do espectro socioeconômico.

Realmente, essa última reconstrução facial, como a feita de um homem comum que viveu na Inglaterra 700 anos atrás, está fornecendo aos arqueólogos um novo jeito de estudar uma parte da população que raramente é mencionada em documentos históricos ou na arte, os muito pobres. Geralmente, só os ricos e famosos são lembrados.

Para construir o rosto do SK2, a equipe de Wilkinson primeiro fez um escaneamento 3D do crânio, que deu a base para a reconstrução. Usando pontos de marcação bem estabelecidos pela ciência forense e um software especializado, os pesquisadores conseguiram estabelecer os principais componentes faciais, os músculos faciais, os tecidos moles e a pele. O resto foi chute, mas um chute embasado.

Análises esqueléticas sugerem que o homem tinha entre 25 e 35 anos de idade quando morreu. Ele media 1,67 m, sofria de desnutrição infantil e desempenhou trabalho manual pesado durante a sua vida. Análises isotópicas de seus dentes indicam que ele veio de Dublin, onde foi enterrado. Seus restos, junto com o de quatro adolescentes, foram localizados em um lugar que costumava ser chamado de Hoggen Green, uma área aberta que era controlada pelo governo de Dublin. Suas covas eram rasas, e nenhum dos corpos foi colocado em um caixão.

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Imagem: FaceLab/Liverpool John Moores University/Lusacrosscity

Baseado nessas descobertas e em ilustrações do povo irlandês do século XVI, o time de Wilkinson ajustou o rosto de SK2. Eles colocaram longos cabelos e barba nele, feições tipicamente irlandesas como pele clara, olhos azuis e cabelo castanho. Deram-no roupas simples para combinar com seu status social.

Essa pode não ser uma representação perfeita de SK2, mas a perfeição não é o objetivo. Ao juntar todas as provas científicas e históricas, e ao usar tecnologia de ponta, os pesquisadores fizeram algo que, até recentemente, nunca tínhamos visto antes: criar uma impressão quase fotográfica de uma pessoa comum que viveu séculos atrás.

[Rubicon Heritage]

Imagem do topo: FaceLab/Liverpool John Moores University/Lusacrosscity