A 42 acaba de inaugurar, em parceria com a Fundação Telefônica Vivo, o seu primeiro campus em São Paulo e o segundo no Brasil – o primeiro foi no Rio de Janeiro. O nome “42” é uma referência à obra clássica do universo geek Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams, que considera o número 42 como a resposta para tudo.

Ela não se considera uma escola (apesar de ser uma plataforma de ensino) e se posiciona mais como uma rede de fomento ao aprendizado na área de tecnologia. Isso significa que o objetivo é que os “tripulantes” (como são chamados os participantes) aprendam linguagens de programação por conta própria, buscando ajuda de outras pessoas e materiais na internet.

Dessa forma, não há professores e nem sala de aula. O que a 42 oferece é um local físico com computadores e infraestrutura necessária para os participantes se aprofundarem no mundo da programação.

O espaço fica aberto 24 horas, 7 dias por semana, sendo que cada um determina qual horário vai frequentar o local e quanto tempo vai passar lá. Ao chegar, é possível escolher qualquer computador para começar a trabalhar. O aprendizado é guiado por meio da plataforma da 42, que funciona como um jogo. São apresentados desafios e você vai ganhando pontos à medida que vai resolvendo cada um deles para ir passando de nível.

Pelo fato de ser baseada em um modelo de aprendizado colaborativo, porém independente na medida em que o próprio aluno precisa ir atrás do conhecimento (seja em vídeos no YouTube ou pedir ajuda para os colegas), a metodologia requer um grande nível de comprometimento e disciplina, visto que é o aluno que determina sua carga horária.

Educação por desafios

Um aspecto interessante da 42 é que a rede preza pela diversidade dos “tripulantes”. Primeiramente, não há custo nenhum para os participantes e nem exigência de diploma. O único requisito é que a pessoa seja maior de 18 anos. Cientes de que existem outras limitações além do custo de uma mensalidade, a 42 São Paulo vai oferecer bolsas de auxílio de transporte, alimentação e hospedagem para quem não tiver condições financeiras de frequentar o espaço.

Laboratório da 42 São Paulo

Para garantir que a oportunidade chegasse às regiões mais periféricas, a 42 realizou uma parceria com organizações como Gerando Falcões e Laboratória para divulgar a abertura das inscrições. A diversidade dos participantes não se limitou apenas ao caráter econômico, no entanto. O número de mulheres inscritas foi de 30%, uma taxa relativamente alta se comparada aos campi na França (com 14% de tripulantes mulheres) e EUA (15%), por exemplo. No processo seletivo também foram aprovados um candidato com deficiência visual e dois com deficiência auditiva, indicando que a plataforma é acessível a todos, segunda a rede.

Para se tornar um tripulante, os interessados devem passar por um processo seletivo de três etapas. A primeira delas, chamada “Game”, teve início em julho e os participantes deveriam participar de um jogo. No total, 2 mil foram aprovados dentre os 12 mil inscritos. Já a segunda fase, chamada “Check-in”, aconteceu em agosto e os candidatos foram convidados a conhecer pessoalmente como funciona a 42 São Paulo. A última delas, chamada “Piscina”, terá início em outubro e os participantes passarão por uma experiência de imersão de 28 dias com exercícios práticos, projetos e exames.

Finalmente, os aprovados na Piscina se tornam tripulantes oficiais e começam sua jornada que é dividida em Fundação, Experiência, Mastery e Final da Jornada. Esse ciclo pode ser concluindo entre 3 a 5 anos, dependendo do ritmo de cada um.

Durante o evento de lançamento, Guilherme Decourt, diretor da 42 São Paulo, mostrou uma prévia de como essa jornada de aprendizado é estruturada. Há uma galáxia de temas, em que o aluno pode determinar qual caminho seguir, desbloqueando os desafios conforme passa de nível. Alguns exemplos de desafios são recriar uma plataforma similar ao YouTube do zero, construir o cérebro de um sistema operacional, recriar um jogo, entre outros.

Os alunos são avaliados em 17 habilidades diferentes e essa avaliação é feita pelos próprios colegas. Ao acessar o seu mapa de habilidades, é possível ver quais áreas precisam ser aprimoradas e buscar ajuda de outras pessoas que apresentam performance melhor naquele determinado ponto.

Durante o período de “Experiência”, os participantes também podem realizar intercâmbio em outros campi da 42 espalhados ao redor do mundo. Assim, é possível o aluno se conectar com alguma unidade em outro continente para trabalhar em algum projeto específico ou simplesmente trocar experiências.

Por enquanto, a 42 São Paulo ainda não tem nenhum projeto definido para oferecer auxílio financeiro para essa experiência, dependendo da situação de cada um. Como a 42 não é considerada uma escola formal, por exemplo, ela não é capaz de fornecer visto de estudo, sendo necessário que o aluno aproveito o período de visto de turista para realizar esse intercâmbio ou já tenha algum tipo de autorização para permanecer no país a ser visitado.

Nessa fase inaugural do projeto, Karen Kanaan, diretora da 42 São Paulo, conta que a divulgação do processo seletivo foi feita de forma totalmente orgânica nas redes sociais, resultando em uma grande quantidade de inscritos em pouco tempo. Para a surpresa deles, a média de idade dos aprovados na primeira fase foi de 36 anos. Além disso, 25% é de baixa renda, sendo que 24% solicitou a bolsa auxílio. Kanaan afirma ter ficado satisfeita com a diversidade dos candidatos, sendo eles de regiões como Capão Redondo, Jardim Ângela e Cidade Dutra, até outros estados como Tocantins, Amapá e Pernambuco.

Considerando que a 42 não é uma escola, a experiência não é exatamente um curso profissionalizante com diploma. Segundo os diretores, quem vai validar a qualificação dos alunos é o próprio mercado.

A 42 foi criada em 2013, na França, pelo empreendedor Xavier Niel. Atualmente, a rede conta com 22 campi espalhados pelo mundo, em países como França, Bélgica, Marrocos, Finlândia, Holanda, Rússia, Indonésia, Armênia, Japão, Colômbia, Espanha, Canadá, Estados Unidos e Brasil.

Ainda não há previsão para quando uma nova rodada de inscrições será aberta, mas, a partir dessa primeira experiência, Decourt afirma que será estruturada uma agenda recorrente. Durante os próximos três anos, a 42 São Paulo contará com o apoio da Fundação Telefônica Vivo e a ideia é que o projeto seja mantido por meio de parcerias com empresas, sem qualquer custo para os participantes.

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