Desde a abertura em setembro de 2018, o enorme centro de atendimento da Amazon em Staten Island, em Nova York, ganhou uma reputação de ser exaustivo e inseguro, mesmo entre uma rede de logística amplamente já criticada por esses mesmos motivos. Agora, documentos vazados da empresa revelam que as taxas de lesões no armazém, conhecido como JFK8, são mais de três vezes a média da indústria. O que não está claro é se esses números são anômalos em comparação com outras instalações da Amazon.

“Quando você analisa esses números básicos da própria Amazon, é impressionante”, disse Frank Gearl, advogado da organização Make the Road, sem fins lucrativos, ao Gizmodo. “Eles têm taxas mais altas de lesões, e elas são incrivelmente graves, em comparação com a média nacional, em comparação com a média nacional de armazéns e em comparação com indústrias conhecidas por serem muito perigosas, como coleta de resíduos sólidos e policiamento. […] a Amazon sabe que está ocorrendo uma crise de lesões nas instalações do JFK8.”



A fonte desses dados são os formulários 300 e 300a da Administração de Saúde e Segurança Ocupacional (OSHA, na sigla em inglês). O primeiro é preenchido e enviado pela gerência sempre que ocorrem lesões de uma certa gravidade, enquanto o segundo agrega todos os incidentes e é relatado no final de cada ano.

Além de oferecer à OSHA uma visão panorâmica das tendências nacionais e do setor, “também é uma maneira de as empresas monitorarem seus próprios dados para ver quais problemas eles têm em suas instalações, para que possam cumprir seu dever sob a lei de proteger sua força de trabalho de ferimentos”, disse Kearl.

Conectando as informações contidas nos formulários à própria calculadora de taxas de incidentes da OSHA, o JFK8 obteve 15,19 em 2018. Em contraste, em 2018, as serrarias obtiveram 6,1, enquanto a indústria de fundições de aço teve 10.2.

Esses números, produzidos internamente e mandatados pelo governo, também reforçam as descobertas de pesquisas produzidas no mês passado pelo Comitê de Segurança e Saúde Ocupacional de Nova York, uma organização sem fins lucrativos que atua como fiscalizadora do setor.

“A taxa de lesões e doenças nas instalações da Amazon SI é […] impressionantemente três vezes mais alta que a média de todos os outros armazéns em todo o país”, afirma o relatório, que expandiu suas descobertas com pesquisas e entrevistas com 145 trabalhadores.

A Amazon descartou as conclusões como “tendenciosas e não confiáveis”, chamando o relatório de “um exemplo de dados seletivos distorcidos para apoiar afirmações falsas de uma organização que tem como único objetivo comercial desinformar o público sobre os registros de segurança da Amazon.”

Embora os dados da OSHA 300 e 300a não estejam disponíveis para o público neste momento, qualquer funcionário atual ou ex-funcionário da Amazon pode enviar uma solicitação para acessar os registros por escrito ou enviando um e-mail para as instalações ou para o gerente de RH do prédio, de acordo com Zachary Lerner, diretor sênior de organização do trabalho do New York Communities for Change.

Lerner e Kearl também afirmam que, uma vez solicitadas, as informações se tornam efetivamente públicas, exceto pelos nomes das vítimas de ferimentos. Consequentemente, esses nomes são censurados no documento abaixo. Outros dados dos 300 e 300a derivados de outras instalações da empresa — que eles são legalmente obrigados a fornecer se solicitados — dariam uma indicação mais precisa do seu registro de segurança no local de trabalho como um todo.

Amazon JFK8 OSHA log [2018] by Gawker.com on Scribd

O que chama a atenção é que o JFK8 foi aberto em setembro de 2018. Portanto, os dados desses documentos abrangem apenas uma parte do ano, justamente a mais movimentada — a chamada “alta temporada”, que começa no Dia de Ação de Graças e termina no Ano Novo.

Nesse período, os trabalhadores relatam trabalhar turnos mais longos, ter restrições ao uso de dias de férias, além de horas extras obrigatórias. A Amazon pode argumentar que esse momento inconveniente é responsável pela alta taxa de lesões do JFK8. No entanto, a intensidade da carga de trabalho se reflete no número de feridos.

A taxa de gravidade, um termo técnico da OSHA, é calculada de forma simples: número de dias úteis perdidos dividido por incidentes relatáveis. Para o JFK8 no ano passado, analisar esses números resulta em uma taxa de severidade de 64, ou mais de dois meses de trabalho perdido por lesão relatada, em média. A Amazon não respondeu às perguntas do Gizmodo sobre o relatório da OSHA e, sem dados adicionais, é impossível saber se essas taxas são um ponto fora da curva na rede de logística da empresa.

O grande número de ferimentos detalhados no 300a são entorses e contusões, embora os trabalhadores do armazém afirmem que incidentes piores ocorreram na instalação. “Havia uma moça que eu conheço. Chorei quando ela me disse que teve um aborto espontâneo. Ela estava grávida de cinco meses”, disse ao Gizmodo uma funcionária do JFK8, que pediu para permanecer no anonimato por medo de represálias. “Os gerentes simplesmente se recusaram a colocá-la em uma seção diferente, onde ela poderia se movimentar menos”.

Não pudemos entrar em contato com a mulher em questão, mas essa história foi corroborada por um segundo trabalhador recém-demitido do mesmo armazém de Staten Island.

Esses números contam apenas parte da história, no entanto. Para que um incidente chegue ao nível de ser redigido e relatado à OSHA, ele deve atender a critérios específicos — morte, perda de dias úteis, perda de consciência, ossos quebrados e outros ferimentos que não podem ser estabilizados no local. “Se alguém corta a mão com um cortador de caixas, ou algo que possa receber atendimento e depois voltar ao trabalho, essa lesão não é registrada”, disse Kearl.

“Eles nos diziam para trabalhar extremamente rápido, então eu tropeçava na escada. Eu sofria contusões nas pernas”, disse o ex-funcionário do JFK8. Ela reclamou de caixas caindo e de desidratação. “Os ventiladores — muitos deles não funcionam, o que faz com que muitas pessoas fiquem realmente com tontura”. Os funcionários desta instalação têm falado publicamente sobre os problemas de controle de temperatura no JFK8 desde pelo menos dezembro do ano passado.

Kearl suspeita que os critérios de relatório também resultem em lesões por movimento repetitivo — comuns entre os trabalhadores de armazéns — que podem estar sendo amplamente omitidas nos registros da OSHA. “Os trabalhadores estão se machucando durante o longo período de trabalho físico, e estão lidando com esses problemas por conta própria”, disse ele.

Dos 107 incidentes relatados, apenas quatro parecem pertencer a essa categoria: dois casos de síndrome do túnel do carpo, uma lesão nervosa não especificada e tendinite. Todos foram registrados como afetando a mão esquerda e direita, punho esquerdo e direito, ou ambos.

Por trás desses números prejudiciais, está a mesma demanda difundida de concluir tarefas com a maior rapidez e eficiência possível que os trabalhadores vêm denunciando há anos, com poucas melhorias em suas condições. “Você come e imediatamente acabou. Você precisa se levantar e continuar ”, disse uma funcionária atualmente empregada no JFK8.

Os intervalos limitados seguidos de trabalho fisicamente intensivo fizeram com que ela vomitasse no trabalho. “Lembro de contar ao meu gerente. Ele nem perguntou se eu estava bem, ele perguntou se o balde de lixo onde eu vomitei, se ainda estava lá, porque ia cheirar mal mais tarde.”

Não deveria ser uma surpresa o fato de que nesta segunda-feira (25), do lado de fora do JFK8, trabalhadores e ativistas planejem protestar às 19h, no horário de Brasília.

Como a passeata inovadora em um centro de atendimento de Minnesota no ano passado, ela está prevista para ocorrer em uma mudança de turno.

As demandas são modestas: aumentar as pausas de 15 para 30 minutos e garantir um trânsito mais confiável do Staten Island Ferry (que liga a cidade ao resto de Nova York) até o local de trabalho bastante remoto do Matrix Global Logistics Park. A mesma funcionária que relatou os episódios contratou uma babá para poder participar do protesto de hoje. Ela conta que corre o risco de retaliação caso a gerência resolva aparecer por lá. “Espero que a Amazon ao menos tente negociar”, disse ela.

Um porta-voz da Amazon se recusou a responder às nossas perguntas específicas e, em vez disso, forneceu um comunicado geral.

“É impreciso dizer que os centros de atendimento da Amazon não são seguros”, diz a declaração, “e os esforços para caracterizar nosso local de trabalho como tal, com base apenas no número de registros de lesões, são enganosos, dado o tamanho de nossa força de trabalho”. O cálculo da OSHA para taxas de incidentes leva em consideração o total de horas trabalhadas em uma instalação especificamente para poder comparar diferentes tamanhos de equipe.

A declaração continua: “Acreditamos tão fortemente no ambiente que oferecemos aos funcionários do centro de atendimento, incluindo nossa cultura de segurança, que oferecemos tours públicos para que qualquer pessoa possa visitar pessoalmente uma de nossas instalações. Garantir a segurança dos colaboradores em nosso prédio é nossa prioridade número um e investimos fortemente em segurança. As reuniões operacionais, a orientação para novas contratações, o treinamento e o desenvolvimento de novos processos começam com a segurança e têm métricas e auditorias de segurança integradas em cada programa. O treinamento de segurança é constante, tanto para garantir que os funcionários saibam como trabalhar melhor com a tecnologia nas instalações quanto para prevenir lesões.”

Embora empresas de setores específicos, como armazenagem, sejam legalmente obrigadas a registrar lesões e doenças que atingem níveis específicos de gravidade, conforme definido pela OSHA, o porta-voz acrescentou que “existe um nível drástico de sub-registro de incidentes de segurança em todo o setor — reconhecemos isso em 2016 e começamos a adotar uma postura agressiva ao registrar lesões, sejam elas grandes ou pequenas”.

Em janeiro deste ano, a Amazon anunciou que começaria a realizar vendas diretas e entregas aqui no Brasil. Para isso, a empresa instalou um centro de distribuição em Cajamar (SP), com 47 mil metros quadrados.