Em 7 de janeiro de 2020, escrevemos sobre uma misteriosa doença viral que estava causando pneumonia em Wuhan, China. Foi o primeiro artigo do Gizmodo sobre a doença que mais tarde ficou conhecida como COVID-19, a segunda pandemia a atingir a humanidade no século 21.

É assustador olhar para aqueles primeiros dias e semanas, quando ainda parecia possível que o vírus não fosse contagioso entre humanos. Desde então, o coronavírus infectou pelo menos 77 milhões de pessoas e matou mais de 1,7 milhão em todo o mundo, e ambos os números parecem estar subestimados. Ao mesmo tempo, ele deixou uma marca profunda em quase todos os aspectos da vida em 2020.

Apesar dos muitos fracassos enormes — de mentiras descaradas e negligência de governos a fraudes de pesquisa e muito mais — houve momentos que mostraram o melhor da humanidade e da ciência.

Mapeando o inimigo

Há muito a criticar sobre a resposta inicial à COVID-19. A China, em particular, silenciou os críticos que tentaram chamar a atenção para os primeiros surtos em Wuhan em dezembro de 2019, e as autoridades de saúde demoraram quase um mês para reconhecer que o vírus estava se espalhando de pessoa para pessoa. Mas, felizmente, uma informação crucial foi amplamente compartilhada por cientistas na China semanas após os primeiros casos relatados: a estrutura genética do coronavírus.

Em 10 de janeiro, cientistas chineses fizeram o upload do genoma do vírus, agora conhecido como SARS-CoV-2, em um banco de dados online facilmente acessível por cientistas de todo o mundo. Isso foi um dia antes de a primeira morte oficial da pandemia ser relatada. Esse compartilhamento de dados permitiu que os cientistas estudassem quase imediatamente o vírus e encontrassem armas potenciais contra ele.

Cientistas da empresa de biotecnologia Moderna disseram ter encontrado o código genético necessário para criar sua vacina candidata horas depois de ver esses dados. Agora, ela é uma das duas autorizadas para uso emergencial pela Food and Drug Administration dos EUA e já está sendo dada ao público no país norte-americano.

A confusa comunicação sobre as máscaras

Havia muitas incógnitas sobre o vírus nos primeiros meses da pandemia. Isso inevitavelmente levou a erros de comunicação: alguns especialistas garantiam que o COVID-19 poderia ser menos perigoso do que a gripe. Mas mesmo quando ficou claro que a nova doença não iria desaparecer, uma recomendação errônea continuou a ser repetida por muito tempo: que as máscaras faciais de tecido eram basicamente inúteis para o público geral.

Mesmo já em março, Jerome Adams, cirurgião geral dos EUA (nome dado à maior autoridade em saúde pública do país) ainda estava minimizando a eficácia das máscaras para retardar a disseminação da COVID-19. Para ser justo, na época, as evidências para o uso de máscaras para prevenir a transmissão de doenças semelhantes, como a SARS original, não eram concretas. Mas mesmo assim, ainda era uma intervenção pública barata e de baixo risco, sem inconvenientes graves.

Não foi a ciência que moldou a política de máscaras dos EUA: foi a escassez. Como autoridades de saúde como Anthony Fauci admitiram posteriormente, os EUA estavam preocupados em ficar sem máscaras para profissionais de saúde, então eles mentiram para o público sobre sua utilidade. Fauci merece muito crédito em outra frente por tentar evitar que o governo Trump desistisse de conter a pandemia, mas esse foi, sem dúvida, um erro de cálculo terrível.

Pesquisas posteriores mostraram que máscaras de tecido caseiras — embora não sejam tão eficazes quanto as cirúrgicas ou as N95 — podem de fato fornecer alguma proteção.

Hoje em dia, apesar de haver quem reclame e proteste contra a máscara em alguns lugares, a maioria endossa seu uso. Talvez houvessem menos casos e mortes nos EUA hoje se tivéssemos adotado as máscaras antes.

As trapalhadas da hidroxicloroquina

Por alguns meses neste ano, parecia que todos os estudos sobre COVID-19 eram sobre hidroxicloroquina e outra droga relacionada, a cloroquina. Esses são dois medicamentos antigos, há muito usados ​​contra a malária e o lúpus, que se mostraram promissores no tratamento de pacientes com COVID-19 hospitalizados no início da pandemia. Logo após esses primeiros relatos, o presidente Trump os anunciou como “revolucionários”, e os medicamentos se tornaram praticamente objetos de culto.

No fim das contas, os estudos iniciais da hidroxicloroquina tinham falhas científicas, assim como o pesquisador no centro deles, Didier Raoult, da França. Mais importante que isso, porém, é que as pesquisas científicas feitas na sequência não confirmaram as descobertas. A maior parte dos estudos feitos até agora, particularmente os ensaios clínicos randomizados e controlados, mostraram que nenhum dos dois tem efeito nas taxas de sobrevivência ou na prevenção de casos quando administrados como profiláticos.

A confusão em torno da hidroxicloroquina não foi unilateral, no entanto. Em junho, um estudo que pretendia mostrar que a substância pode ter aumentado o risco de morte das pessoas foi retirado quando se constatou que os dados hospitalares usados ​​para a análise eram fraudulentos (outro estudo não relacionado, baseado nos mesmos dados, também foi retirado naquela época).

Embora o potencial da hidroxicloroquina para COVID-19 ainda precise ser estudado, o endosso de Trump fez com que a droga fosse considerada uma suposta cura milagrosa. Quanto a Raoult, ele está se defendendo de acusações disciplinares por espalhar desinformações antiéticas sobre a hidroxicloroquina — acusações apresentadas por seus colegas médicos.

O fiasco de Great Barrington

Rauolt não é o único cientista que manchou sua reputação este ano.

Em outubro, um pequeno grupo de cientistas publicou a Declaração do Great Barrington: um apelo a governos de todo o mundo para que a maioria das intervenções para conter a pandemia fosse interrompida. Eles defendem, em vez disso, uma abordagem de “proteção focada” que protegeria os vulneráveis ​​e deixaria todos os outros viver com o vírus o mais normalmente possível.

A declaração foi o resultado de meses de articulação de um trio de cientistas para minimizar a pandemia: Sunetra Gupta, da Universidade de Oxford; Jay Bhattacharya, da Universidade de Stanford; e Martin Kulldorff, da Universidade de Harvard.

A Declaração do Great Barrington foi rapidamente criticada por outros cientistas e organizações de saúde pública por suas afirmações enganosas. Entre outras coisas, simplesmente não há como garantir que uma pandemia violenta não atingirá pessoas vulneráveis, incluindo jovens com doenças crônicas como diabetes.

E o dano potencial para pessoas mais jovens e relativamente saudáveis ​​também não é zero: pesquisas recentes mostram que julho deste ano pode ter sido o mais mortal na história moderna dos EUA para pessoas de 25 a 44 anos, em grande parte graças à pandemia.

Tem havido um debate científico saudável sobre muitas questões relacionadas à pandemia, desde o papel que escolas e crianças desempenham na transmissão até a necessidade de tratar a COVID-19 como uma doença transmitida pelo ar. Também é verdade que restrições agressivas ao movimento e distanciamento têm desvantagens e que qualquer estratégia para limitar a propagação da pandemia deve equilibrar as necessidades e preocupações das pessoas envolvidas nelas, como fornecer recursos para aqueles que perdem o emprego ou têm de fechar temporariamente seus negócios.

Mas a Declaração do Great Barrington não é uma tentativa honesta de abordar esses riscos e benefícios; é uma desculpa para desistir de proteger o público. O governo Trump considerou explicitamente segui-lo. O posicionamento e seus adeptos obtiveram bastante apoio de segmentos que continuam a gravidade da pandemia.

O documento já perdeu sua razão de existir. Não teremos que viver mais com esta pandemia por um prazo indefinido, graças, em grande parte, às vacinas.

A incrível corrida pela vacina

Uma conquista científica impressionante é o desenvolvimento em massa de vacinas este ano. Embora a obtenção do genoma do coronavírus logo no início tenha sido fundamental para esta pesquisa, ainda foram necessários os esforços de milhares de cientistas para dar um bom uso a esses dados, bem como dezenas de milhares de bravos voluntários para testá-los.

Na última contagem, existem 70 vacinas contra COVID-19 que foram ou estão passando por testes clínicos em pessoas. Duas vacinas semelhantes — as candidatas da Pfizer/BioNTech e da Moderna — são as primeiras a chegar ao público americano.

Essas duas candidatas são ainda mais impressionantes porque são as primeiras vacinas  disponíveis ao grande público feitas com base na tecnologia que usa RNA mensageiro como método de entrega. A pesquisa por trás das vacinas de mRNA existe há duas décadas, enquanto os testes em humanos mostraram sua segurança na última década. Mesmo assim, outras vacinas perto da linha de chegada podem ter suas próprias vantagens, como ser mais baratas para produção em massa e mais fáceis de armazenar para distribuição.

Mesmo que a maioria dessas outras vacinas não dê certo, pode haver lições valiosas aprendidas para a próxima geração de vacinas. Essa crise também pode acelerar a pesquisa de vacinas em geral. Antes da pandemia, o menor tempo que levava para uma vacina ser concluída depois que os testes clínicos começaram era de cinco anos, considerando o intervalo para a primeira vacina aprovada contra o Ebola, em 2019. Mas mesmo isso foi uma grande melhoria em relação aos 10 a 15 anos típicos de desenvolvimento de vacinas, estimulados pelo maior surto de Ebola registrado até agora, que começou em 2014.

Se a história estiver certa, não demorará muito para que a próxima pandemia ou grande epidemia apareça. Felizmente, estamos cada vez melhores para encontrar as ferramentas necessárias para interromper essas crises rapidamente.

Por mais que essas e outras conquistas científicas deste ano sejam impressionantes, não devemos esquecer os fracassos. Muitos daqueles que morreram ou ficaram com doenças crônicas como resultado da COVID-19 não precisavam passar por isso, e os problemas decorrentes da pandemia reverberarão nos próximos anos.

Alguns países combateram a pandemia e deram suporte generoso à sua população, como a Nova Zelândia. Mas outros, particularmente os EUA, falharam em proteger as pessoas do vírus e em fornecer pouco mais do que migalhas para milhões, que agora enfrentam queda nos salários, desemprego ou falta de moradia em meio a uma crise econômica.

O coronavírus tira proveito da maquinaria de nossas células para sobreviver e se replicar. A pandemia aproveitou nossa natureza humana imperfeita para continuar se espalhando. As falhas de nossa sociedade fraturada foram expostas e estão ainda mais abertas. Só o tempo dirá se elas se fecharão a tempo da próxima calamidade global.