É fácil dar de ombros para alguns arranhões leves no seu carro, mas e na touchscreen do seu celular que você olha todos os dias? Para alguns, um arranhão no smartphone é como ser ferido pessoalmente, e isso gerou uma sub-indústria inteira vendendo capinhas e protetores para proteger seu equipamento. Mas e se da próxima vez que seu smartphone fosse riscado, tudo o que ele precisasse fosse de um pouco de calor para ficar novinho em folha?

Pesquisadores do Instituto Leibniz de Novos Materiais, em Saarbrücken, na Alemanha, e da Universidade do Sarre, passaram a prestar atenção no amido de milho para ajudar a desenvolver um novo revestimento de verniz capaz de se recuperar de danos pequenos.

O amido de milho foi usado para criar ciclodextrinas, que são importantes devido à estrutura em anel fechado da molécula. Essa característica permite que elas sejam amarradas em moléculas de polímero de cadeia longa, como colocar pipoca em uma corda para que sua árvore de Natal pareça ter sido decorada no século 19.

Isso resulta na criação de um polirotaxano, uma molécula complexa feita de correntes e anéis que deslizam para cima e para baixa sobre sua extensão, mas nunca caem, graças a moléculas-tampas fixadas em cada ponta. Outra reação química é usada para conectar várias dessas correntes, resultando em uma rede de moléculas capazes de se esticarem e flexionar como um tecido elástico. Ela pode ser aplicada como uma tinta ou um verniz para acrescentar uma outra camada de proteção a superfícies irregulares. Porém, o material vai além: quando é aplicado calor, esses anéis de ciclodextrina se mexem e migram ao longo de suas correntes de polímero, preenchendo quaisquer lacunas criadas por um arranhão.

As primeiras amostras do revestimento conseguiram se autorreparar depois de serem tratadas com calor por algumas horas, porém, à medida que os pesquisadores começaram a acrescentar outros ingredientes para fazer o verniz resistir ao intemperismo e a outros desgastes, eles enfim conseguiram acelerar radicalmente o tempo necessário para a reparação. Em sua forma atual, arranhões desaparecem depois de serem expostos a temperaturas de 100ºC em apenas um minuto.

Então, por que é que você não pode esguichar este material notável em seu iPhone e nunca ter que se preocupar em não colocá-lo no mesmo bolso que sua chave? Os pesquisadores ainda estão trabalhando em maneiras de aumentar a produção, já que atualmente apenas pequenas quantidades foram criadas no laboratório. Aplicá-lo em carros será simples — o revestimento poderia ser incorporado diretamente na própria tinta na fábrica —, e, presumivelmente, o mesmo vale para os polímeros de plástico usados para fazer protetores de tela, supondo que a camada extra não reduza a visibilidade de uma tela ou dificulte a capacidade de um smartphone de detectar dedos.

Mas a aplicação é apenas metade do problema. Os 100 ºC necessários para acionar os efeitos de autorreparação são cerca de duas vezes mais quentes do que os disparos de ar do secador de cabelo normal, e atirar seu telefone em um forno tão quente, mesmo que por apenas um minuto, seria catastrófico para todos os componentes internos. Você poderia levar uma pistola de calor para um carro, mas outra solução precisaria ser desenvolvida para eletrônicos mais sensíveis.

[Instituto Leibniz de Novos Materiais via New Atlas]