Eu nunca havia parado para pensar na forma que eu ouço música até o dia que fui no estande da Creative na CES 2019 e eles me apresentaram o Super X-Fi, um acessório que prometia trazer a sensação de uma câmara de som surround para os meus fones de ouvido.

Como um dos representantes da companhia contou durante a breve apresentação, quando a gente usa fones de ouvido, o som é disparado direto para os nossos ouvidos. No mundo real, isso não é nada natural – é como se alguém ficasse falando na sua orelha o tempo todo. E especificamente falando de música, em shows, concertos e afins, o som vem de diferentes fontes e há uma sensação de espacialidade.

É essa noção do espaço que o Super X-Fi tenta trazer. A caixinha do produto fala em “som holográfico”. Durante a demonstração que participei na CES, fiquei muito impressionado – nos colocaram em um estúdio profissional e tocaram alguns conteúdos – filmes, vídeos, música – em caixas de som em um sistema 7.1.

Em seguida, fizeram um mapeamento de nossas orelhas (é esquisito, eu sei, mas vou chegar lá), pediram para que colocássemos os fones e reproduziram as mesmas coisas. A sensação que eu tive era de que o som continuava saindo do sistema 7.1.

Passados alguns meses, eu continuei usando o acessório, que custa US$ 150 (R$ 580, na cotação atual) e ainda não é vendido oficialmente no Brasil. Nos próximos parágrafos, vou explicar melhor como ele funciona, o que curti e não curti:

Como funciona?

Acessório Creative Super-XFI conectado via cabo USB-C em uma ponta e fone de ouvido na outra

O Super X-Fi lembra um DAC (um conversor de digital para analógico), mas em uma carcaça diferente. Na real, ele tem um chip AK4377 dedicado para isso – o que significa que ele traz por si só melhorias para a qualidade de áudio, principalmente dos smartphones. O aparelho funciona também como um amplificador – embora eu não recomende que você fique ouvindo música alta nos seus fones.

Em termos de design, ele é bem simples: tem o formato de uma barrinha com 6,7 cm de altura, em um ponta tem entrada USB-C e na outra a saída 3,5mm para fones de ouvido. Há botões de aumentar e abaixar o volume e play/pause, além do botão power que comanda o processamento de áudio – quando a luz está verde, a tecnologia de som holográfico está em ação; quando está âmbar, é só o DAC funcionando.

O acessório é um ponto negativo por si só. Não me entenda mal: ele traz um benefício interessante para quem curte música, apesar de não ser conveniente – colocar dongles no seu smartphone ou computador não é das coisas mais cômodas, ainda mais em tempos de itens sem fio. Pelo menos, ele não tem bateria e, portanto, não precisa ser recarregado – pelos meus testes, não é um dispositivo que vai consumir a bateria do seu smartphone ou notebook de forma considerável.

Além disso, a caixinha traz um cabo com duas pontas USB-C, o que o limita para diversos dispositivos. Há ainda um adaptador para microUSB, caso o seu Android seja mais antigo. Na prática, isso quer dizer que, apesar dele funcionar com computadores mais antigos ou com o PS4 (que tem compatibilidade), é preciso comprar um adaptador USB-C para USB-A para que ele funcione. Para o iPhone, é a mesma história: é preciso de um adaptador USB-C para Lightining para aproveitar o som.

O que me leva a outra complicação do Super X-Fi. O site do produto não menciona os smartphones da Apple porque ele não é totalmente compatível. Para usá-lo pela primeira vez, é preciso fazer um escaneamento do seu rosto e orelhas – deste modo, o software de inteligência artificial faz uma espécie de mapa do seu crânio e permite entregar o som 3D. Esse mapeamento é feito por meio de um aplicativo, disponível somente para Android – isso porque a Apple não permite transferência de dados entre o acessório e a porta Lightning, por motivos de segurança.

Se você tem um iPhone, o jeito é recorrer para uma gambiarra: pedir o celular Android de um amigo emprestado e fazer as configurações. Uma vez que os ajustes são realizados, eles são baixados e armazenados na memória local do acessório – você pode conectá-lo a qualquer dispositivo que funcionará perfeitamente.

Compatibilidade de fones

Entrada P2 do Creative Super-XFI

Durante essa configuração, você precisa selecionar quais fones de ouvido irá utilizar com o Super X-Fi. Existe uma configuração padrão de “fones desconhecidos”, que se trata de um ajuste genérico que funciona bem para a maioria deles.

Mas há uma lista com dezenas de marcas e modelos para você otimizar a performance. Os meus testes foram feitos com o headphone Creative Aurvana SE e com o in-ear Aurvana Trio – e, como era de se esperar, os melhores resultados de espacialidade vêm com o headphone, embora o acessório funciona bem com ambos.

E o som?

A maior parte da minha experiência com o Super X-Fi foi no meu notebook, que tem entrada USB-C, ouvindo músicas enquanto trabalho ou vendo alguns vídeos. No geral, eu curti bastante o som, mas não tive exatamente a mesma experiência do estúdio.

Ouvir música no Spotify não é o jeito ideal de aproveitar a proposta do acessório, mas é o que eu faço na maior parte do tempo enquanto estou usando fones de ouvido. A sensação ao ligá-lo é deixar de tocar a música dentro da sua cabeça e ter a sensação de que ela está vindo de uma fonte exterior.

Em algumas ocasiões, preferi manter o processamento de áudio desativado – os vocais ficam um pouco exagerados e às vezes fica uma sensação de eco na música. Ainda assim, vale a pena principalmente pelo DAC – os sons ficam melhores no geral.

O Super X-Fi brilha mesmo quando o conteúdo é pensado para canais 7.1, como filmes com tecnologia Dolby Atmos e jogos. Filmes de ação de saem muito bem, inclusive. No geral, a experiência com conteúdo audiovisual é transformadora – chega a ser difícil de voltar a assistir algumas coisas com fone de ouvido sem o acessório.

Gostaria de ter tido mais experiência com games (consegui jogar casualmente no Mac, coisas como Hearthstone), especialmente com shooters como Call of Duty – porém, havia a barreira dos adaptadores USB.

Entrada USB-C do Creative Super-XFI

Resumindo

O Super X-Fi é um acessório interessante, mas difícil dizer se vale a pena. Depende do quanto você se importa com áudio e da conveniência que você busca. Foi um dos produtos mais interessantes que eu vi na CES, mas fiquei com o desejo que essa tecnologia estivesse embutida em dispositivos e fones – já deu para reparar que não sou grande fã de dongles.

Eis os prós:

  • Não tem bateria, não precisa recarregar;
  • É um bom amplificador/DAC;
  • Dá vida à filmes, séries e outros conteúdos audiovisuais.

E, aqui, os contras:

  • Em algumas músicas, o efeito de eco pode estragar a experiência;
  • O app não tem suporte oficial para iPhone;
  • Necessita de adaptadores para funcionar com PS4 ou outros dispositivos como iPhone.

A boa notícia é que a Creative já trabalha em lançar fones que possuem a tecnologia do Super X-Fi embutida – entre eles o SXFI AIR, que tem uma versão Bluetooth e outra USB-C. É uma tecnologia promissora, que fará muito mais sentido quando mais fones de ouvidos forem compatíveis. Fica a expectativa de a empresa vender seus produtos no Brasil.