Como se destacar no segmento de smartphones de topo de linha? Nele, a Apple é referência e escolha praticamente automática de muita gente que tem bastante dinheiro, e a Samsung reina no mundo Android. A LG já tentou se diferenciar das concorrentes de vários jeitos: tela de altíssima resolução, telefone modular com encaixe para acessórios e tela dupla.

No G8, a aposta da marca foi um conjunto de câmeras na parte frontal para permitir recursos avançados, como reconhecimento facial e controle por gestos. O irmão mais barato dele, G8S ThinQ, chegou ao Brasil no segundo semestre do ano passado com os mesmos poderes especiais. E aí, como ele se sai? Testei o aparelho por dois meses e trago respostas.

Design

O LG G8S ThinQ é, antes de tudo, muito bonito. As linhas retas com cantos arredondados deixam o aparelho bastante elegante, e nem mesmo a protuberância traseira para abrigar as três câmeras estraga isso. As câmeras saltadas, aliás, ajudam que você não coloque o dedo nelas.

A parte de trás do aparelho tem ainda um leitor de impressões digitais discreto e bem posicionado. É isso aí, nada de leitor na tela. A LG argumenta que ali é o melhor lugar para colocá-lo e tocá-lo já ao tirar o aparelho do bolso. Até concordo, mas isso tem seus custos, como precisar digitar senha ou pegar o celular quando ele está sobre uma mesa, por exemplo.

Ele tem uma pequena borda em volta da tela. Apesar de mínima, é um pouco mais do que você tem em um Galaxy S10, para comparar com um topo de linha do mesmo ano. Nada, porém, que atrapalhe a usabilidade.

O recorte na parte superior da tela é bem grande, já que ele precisa abrigar também a Z Câmera, que é composta por dois sensores time-of-flight (ToF), usada no reconhecimento facial e de gestos. Como consequência, sobra pouco espaço para ícones de notificação, e às vezes você acaba perdendo uma ou outra mensagem por causa disso.

Usando

O LG G8S roda o Android 9.0 com alterações da LG, e elas são muitas. Visualmente, ela parece bastante as personalizações da Samsung de um ou dois anos atrás.

O sistema conta até mesmo com recursos que foram abandonados pelo Android em versões anteriores, como o modo multitarefas que permite dividir a tela e rodar dois apps ao mesmo tempo.

A LG também adicionou alguns recursos úteis: ao desinstalar um app pela tela inicial, ele fica desativado por 24 horas antes de ser removido em definitivo. Isso pode ser útil caso você precise conferir mais uma vez alguma informação de algum app: dá só para reativá-lo, sem precisar fazer o download de novo.

Outros recursos, porém, parecem ter sumido. Eu não consegui encontrar o Bem-Estar Digital do Android, por exemplo.

Também tem muitas opções de customização. Dá para mudar a ordem dos botões da barra de navegação ou mesmo ocultá-la automaticamente em alguns apps. Também dá para mudar a cor da barra de notificações para deixá-la preta e esconder o notch.

Por outro lado, algumas escolhas estéticas são pouco consistentes. A tela de bloqueio, por exemplo, usa quatro fontes diferentes em suas informações, mensagens e relógio. Parece que você baixou na Google Play Store um daqueles apps de tela de bloqueio de qualidade duvidosa, sabe? Também tem opções de wallpapers animados que são bem dispensáveis e parece ultrapassados.

Por falar em download, eu recomendaria a quem comprar esse aparelho o download de um bom launcher de terceiros, como o Nova ou o Apex. O launcher padrão da LG é pouco intuitivo em diversos momentos. Na gaveta de apps, ele coloca alguns em pastas. Dá para desfazer isso, mas você precisa entrar no modo de organização e tirar os aplicativos um por um. A gaveta também não organiza automaticamente os apps por ordem alfabética, como o Android costuma fazer.

Recursos

A LG fez muito barulho em torno da Z Câmera do LG G8S. Ela permite alguns recursos especiais ao telefone, como desbloqueio por reconhecimento facial, desbloqueio por reconhecimento da palma da mão, reconhecimento de gestos para controlar alguns aplicativos e, como não podia deixar de ser, selfies com modo retrato.

No meu tempo com o aparelho, devo dizer que eu não me entendi direito com praticamente nenhum desses recursos. O desbloqueio por reconhecimento facial é pouco prático — ele pede toda hora para você aproximar ou afastar o aparelho do rosto, e às vezes desiste e pede logo sua senha. O reconhecimento das mãos — o aparelho usa a câmera para reconhecer as veias da sua mão e, assim, autenticar sua identidade para desbloquear o aparelho — é ainda pior e praticamente não deu certo em nenhuma vez.

O reconhecimento de gestos também é decepcionante. Na demonstração do aparelho no evento de lançamento já tinha sido difícil conseguir fazer com que o aparelho identificasse a mão para abrir a interface de controle por gestos, mesmo tendo funcionários da LG para orientar o uso. Sozinho, foi praticamente impossível. Em alguns momentos, o aparelho chegou a achar que meu rosto era uma mão (!) e abrir a interface involuntariamente.

Uma boa notícia é que o LG G8S tem saída de som P2 (também chamada de 3,5 mm). Além disso, conta com um DAC de alta-fidelidade, que pode entregar uma ótima qualidade de som.

Desempenho e bateria

Felizmente, se você só esquecer que esses recursos estão lá, nada disso compromete a experiência com o aparelho. O leitor de impressões digitais, como eu já disse, fica bem posicionado, é rápido e funciona muito bem. E o recurso de gestos é bastante dispensável.

Além disso, o aparelho tem um desempenho excelente, dentro do que você esperaria de um aparelho com Snapdragon 855 e 6 GB de RAM. Tudo flui muito bem, não há engasgos ou travamentos, dá para alternar rapidamente entre apps e jogos rodam bem. O aparelho vem com 128 GB para armazenamento. É menos que o que alguns aparelhos de topo de linha oferecem, mas é bastante espaço para baixar músicas e séries e instalar apps e jogos — mesmo instalando muita coisa para testar ao longo de mais de um mês de uso, não tive problemas com isso.

A bateria se mostrou suficiente para durar um dia, com pouca folga. Em situações com mais exigência — uso de câmera, compartilhamento de internet ou GPS por mais de meia hora, por exemplo — ela acabava antes mesmo da hora de chegar em casa e colocar o aparelho para carregar. O sistema da LG inclui também um modo de economia médio, que corta alguns recursos, e um extremo, que desativa vários apps e deixa a tela em preto e branco, caso você precise de mais autonomia até dar tempo de encontrar uma tomada.

Câmera

Na traseira, o LG G8S tem um conjunto de três câmeras. Elas são uma principal de 12 megapixels, uma ultrawide de 13 megapixels e ângulo de visão de 136°, e uma teleobjetiva com zoom ótico de 2x. A qualidade é ótima, e as imagens têm bom nível de detalhe e cores bastante fieis à realidade. O modo noturno também entrega bons resultados em condições de baixa luminosidade.

Como praticamente todo aparelho com mais de uma câmera, há o problema de cada um dos sensores entregar um resultado diferente em termos de cor, saturação e equilíbrio de branco — as fotos da câmera teleobjetiva, por exemplo, são consideravelmente mais saturadas que as da câmera principal e da ultrawide.

Se o hardware é bom, o software fica devendo. O app de câmera da LG até tem recursos interessantes, como um modo para tirar três fotografias em sequência usando cada uma das tres câmeras, e um modo de inteligência artificial chamado AI Cam, que identifica automaticamente o que está sendo fotografado e ajusta o processamento de imagem.

A interface do app, porém, atrapalha. O modo AI Cam, por exemplo, é separado do modo padrão de fotografia. É um contrassenso: se existe um recurso para ajustar o processamento automaticamente, por que ele já não vem ativado no modo de fotografia padrão? A própria LG faz isso no G8X. Além disso, alguns vídeos ficaram com glitch nos momentos em que eu usava o zoom e o aparelho trocava a câmera.

Conclusão

O segmento de topo de linha do mercado de smartphones pode ser bastante cruel. Apple e Samsung são as grandes referências nessa linha. Para conseguir algum destaque, mas marcas tentam algo diferente. A Huawei inovou com as câmeras em seus últimos aparelho; a Xiaomi apela para o preço baixo; a Motorola tentou resgatar um aparelho de 15 anos atrás para chamar a atenção.

A LG tentou isso com sua Z Camera, mas não deu muito certo. O único recurso dela que funciona realmente bem é o modo retrato. O reconhecimento facial e o controle por gestos deixam a desejar.

O problema é que essa tentativa encareceu o aparelho. Mesmo agora, cerca de oito meses depois do lançamento, o LG G8S geralmente é encontrado na casa dos R$ 3.000. Para fazer uma comparação com um aparelho do ano passado, o Galaxy S10 já é visto por R$ 2.800, e o aparelho da Samsung entrega uma experiência mais consistente em termos de software.

Não é que o LG G8S seja ruim. Pelo contrário, ele é muito bom! Ele tem um design bastante confortável para usar e entrega ótimo desempenho. Mas o custo alto complica sua situação em relação aos rivais. Talvez um aparelho mais simples, aproveitando o bom hardware e design da marca e deixando de lado customizações de software e recursos, pudesse ter um custo-benefício mais interessante.

LG G8S ThinQ – Ficha técnica

  • Processador: Qualcomm Snapdragon 855
  • Sistema: Android 9.0
  • Memória: 128 GB de armazenamento, com 6 GB de RAM
  • Câmeras traseiras: tripla, 12 MP com f/1.7 + 13 MP com f/2.4 + 12 MP com f/2.6
  • Câmera frontal: dupla, 8 MP com f/1.9 + ToF com f/1.4
  • Tela: 6,21” Full HD
  • Bateria: 3.550 mAh
  • Peso: 181 gramas
  • Portas: USB-C e fone de ouvido
  • Sensor biométrico na traseira