Enquanto o 4K vai aos poucos (bem aos poucos) tomando o lugar de TVs com resolução mais básica, o 8K se mantém em uma realidade distante para a grande maioria dos consumidores — não só no Brasil, mas em vários outros mercados. É produto de luxo mesmo, acessível apenas para quem planeja gastar horrores de dinheiro. Por aqui, já temos os primeiros televisores nessa capacidade, e a TCL trouxe ao País a X915.

Com 75 polegadas, o modelo é um dos dispositivos topo de linha da marca, incluindo as tecnologias QLED e Dolby Vision, uma câmera embutida usada para videochamadas diretamente pela TV e uma soundbar poderosa da Onkyo com Dolby Atmos, para um som digno de cinema. O aparelho ainda roda o Android TV, e claro, tem compatibilidade com Google Assistente, para controlar a televisão via comandos de voz.

A X915 é grande no tamanho, nas especificações e no preço: R$ 22.999. É grana a beça. Por isso, neste review eu conto como foi minha experiência usando o televisor na sala de estar e se vale pagar isso tudo para ter um quase cinema dentro de casa.

TCL 8K QLED 75 X915

O que é
Um televisor enorme com tecnologia QLED, som de cinema, Google Assistente e quase tudo o que você tem direito em um aparelho de mais de R$ 23 mil

Preço
Sugerido: R$ 23.214,54. No varejo: em média, R$ 17.999

Gostei
Som fantástico, digno de cinema mesmo; ótimo upscaling para 8K; bom ângulo de visão, mesmo em ambientes mais amplos; oferta de apps é satisfatória

Não gostei
Sem atualização para Google TV; podia ter um painel de 120 Hz; câmera pop-up totalmente dispensável; R$ 23 mil: quem tem essa grana toda?

Design, conexões e controle remoto

Mesmo sendo um televisor bem grande, a TCL conseguiu manter na X915 proporções compatíveis com seu tamanho, sem deixar um calombo de componentes na parte traseira. Portanto, as duas únicas preocupações que você deve ter em mente é com a altura/largura e o móvel em que a TV ficará posicionada, já que, em conjunto com a soundbar, ela pesa quase 50 kg. Os pés são em um metal reforçado que não deixa o aparelho cambalear, deixando a TV bem estável. A moldura em volta da tela é fina, e as bordas nas laterais têm um efeito metálico escovado que dão um toque bonito de sofisticação.

Com exceção do cabo de energia, todas as conexões ficam concentradas do lado direito, e incluem duas portas HDMI 2.1 com suporte para resolução 8K, uma HDMI 2.0 do tipo eARC/ARC, uma entrada USB 2.0, uma USB 3.0, entrada Ethernet, saída de áudio óptica, entrada para antena de TV e saída P2 para fone de ouvido. Há também Wi-Fi nas frequências 2,4 GHz e 5 GHz, Bluetooth 5.0 e Chromecast integrados. Eu gostaria que houvesse mais entradas HDMI, de preferência 2.1. Nesse quesito, a LG segue sendo a fabricante mais inclusiva, já que até nos modelos de entrada é possível encontrar o formato mais recente em grande quantidade.

O controle remoto é exatamente o mesmo das outras TVs da TCL. Ele é pequeno, leve e reúne apenas o básico: os botões para controlar a interface do Android TV e opções de acesso rápido aos aplicativos da Netflix e da Globoplay, além de um botão dedicado ao Google Assistente — embora você tenha a opção de ativar o software sem precisar apertá-lo, bastando apenas dizer o comando “Ok Google” e o nome do programa, desde que o app em que ele esteja hospedado ofereça suporte para controles via voz.

Tela e qualidade de imagem

Para uma TV 8K que promete som e imagem com qualidade de cinema, a X915 ficou dentro daquilo que eu esperava. Mas com algumas ressalvas.

No quesito definição, não tem muito o que falar. Até porque, os 33 milhões de pixels do 8K (7.680 x 4.320 de resolução) superam todas as expectativas, ainda mais quando combinados com HDR 10+, Dolby Vision. É também uma das primeiras TVs com a certificação IMAX Enhanced, que traz, de fato, uma experiência cinematográfica com altíssimo detalhamento e calibração aprimorada de cores, brilho e contraste. Mesmo em conteúdos 4K, eu percebi uma melhora significativa em comparação com minha TV de uso pessoal com 4K nativo, em partes graças ao sistema AI 8K Upscaling que vem equipado no aparelho.

A X915 conta com ângulo de visão de 178°. Na prática, isso garante que você visualize o conteúdo com bastante clareza mesmo não estando totalmente ao centro da imagem. O aparamento aqui não é dos maiores, mas passei alguns minutos em pé, próximo à TV, e bem ao lado dela, na extremidade. O ângulo continuou ótimo em ambos os cenários, sem distorcer as imagens ou prejudicar a visão. Com isso, o televisor pode ser uma alternativa viável para quem tem salas de estar mais amplas.

Em conjunto com o ângulo de visão, os níveis de brilho e contraste da X915 também me impressionaram. Na maior parte do tempo, eu preferi deixar no modo Smart HDR de imagem, pois para mim foi o que mais conseguiu trazer equilíbrio para todos os tipos de conteúdo que eu assisti e joguei na TV. Séries, filmes e vídeos com ambientes muito escuros não saíram prejudicados, destacando um preto realmente intenso. O dispositivo possui Local Diming, uma tecnologia que intensifica ainda mais os tons de preto.

Agora vêm as ressalvas. A primeira não é novidade se você conhece um pouco da tecnologia QLED de pontos quânticos: ela ainda não alcança os mesmos níveis de preto do OLED. Veja bem, a X915 tem um excelente volume de cores, especialmente no preto. No entanto, ao compará-la com uma LG OLED CX, a diferença de intensidade é perceptível — e olha que a minha TV da LG não é nem 8K. Por conta do LCD ser inferior ao OLED, eu também notei um brilho excessivo escapando em conteúdos com pontos mais claros. O problema é que nem sempre a QL75X915 conseguiu calibrar esse brilho intenso com o restante da imagem, o que pode ser um tanto incômodo ao assistir TV quando tudo está escuro.

Em segundo lugar, eu não considero a X915 uma TV ideal para games. E isso devido à taxa de atualização da tela, que é de apenas 60 Hz. Não é que seja ruim: eu joguei alguns títulos no PlayStation 5 e, como um jogador casual, não tive do que reclamar. Mas para um televisor 8K caríssimo desse jeito, embora ele destaque sua imagem cinematográfica e nem tanto jogos, o mínimo que eu poderia esperar eram algumas firulas que melhorassem a experiência jogando. Faltou suporte para taxa de 120 Hz e a tecnologias como AMD FreeSync e Nvidia G-Sync.

Por último, e isso não tem nada a ver com a TCL ou demais fabricantes, é a escassez de conteúdo em 8K. A não ser que você use a TV para vídeos do YouTube nessa resolução ou assine um dos planos mais caros da Netflix (que também tem um número limitado de produções no formato), é melhor pensar duas vezes antes de investir em um televisor com essa capacidade, já que deve levar mais alguns anos até que o 8K nativo seja o padrão da indústria.

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Qualidade de som

Para dar ainda mais razão à experiência cinematográfica, a X915 possui uma soundbar Onkyo com dois alto-falantes de 15 Watts, para os médio-graves, e outros dois tweeters de 10 Watts para longo alcance (totalizando 50 W de potência), além de compatibilidade com áudio em DTS e Dolby Atmos. A marca japonesa é especialista em equipamentos de áudio e fabrica acessórios justamente com o objetivo de colocar um cinema dentro de casa. E no final das contas é isso mesmo, porque, de longe, o som foi o que eu mais gostei nos testes com o televisor da TCL.

Com uma forcinha da soundbar integrada da Onkyo, a X915 tem um som encorpado e com graves que podem ser sentidos mesmo a metros de distância da TV. Apesar de ter um destaque considerável nos médios e graves, os diálogos não saem distorcidos, e eu notei pouquíssimo ruído ao elevar o volume do televisor. Músicas também foram reproduzidas com clareza, com alto detalhamento nos instrumentos e vozes — em especial trilhas sonoras de filmes. Pela sala de estar aqui de casa não ser muito ampla, a sensação de imersão foi ainda maior. Obviamente, não é a mesma coisa de uma sala de cinema, em que o som te envolve por todos os lados. Mas, com certeza, a TCL chegou bem próximo disso com os recursos disponíveis para a X915.

Software, recursos e performance

A X915 roda o Android TV na versão 9.0 e, no geral, é um bom sistema operacional para televisores. A tela inicial concentra as seções de aplicativos, TV aberta/a cabo, Novidades Play e o chamado “TCL Channels”, que funciona como uma extensão dos apps que você mais usa no aparelho. Ao abrir uma dessas seções, cada app passa a exibir conteúdos em destaque. Confesso que leva um tempo para se acostumar à interface, principalmente porque o webOS da LG e o Tizen da Samsung são muito mais fáceis de usar. Mas é questão de tempo, mesmo.

A oferta de apps é um dos pontos fortes da plataforma. Temos a grande maioria dos serviços de streaming, incluindo Netflix, YouTube e Amazon Prime Video, que já vêm pré-instalados no televisor. Ainda é possível baixar pela Google Play os apps da Pluto TV, DirecTV Go, Globoplay, Telecine, Disney+ e HBO Go — este último substituído HBO Max, que chegou ao Brasil no final de junho. Até a publicação deste review, o Apple TV+ não estava disponível para download.

Para facilitar a reprodução de filmes e séries, a X915 possui Chromecast integrado, que por sua vez é compatível com Android e iPhone. O Google Assistente cumpre bem o seu papel, mas nem sempre ele entendia o que eu pedia. É aquela coisa: não é perfeito, porém dá para o gasto, e você não precisa apertar o botão do Assistente no controle remoto, já que a TV oferece a possibilidade de ativar o recurso apenas falando por meio do hands-free. Além disso, você pode vincular dispositivos IoT, como lâmpadas e ar-condicionado, para serem controlados pela TV. A exigência é que eles sejam compatíveis com o Google Assistente.

Um dos diferenciais da X915 é uma câmera pop-up retrátil para a realização de videochamadas diretamente pelo televisor. No entanto, além de não ser nada prático, o sensor tem uma resolução baixíssima e só funciona entre TVs da própria TCL e que sejam compatíveis com a função. Logo, é bem provável que você só consiga utilizá-la caso tenha algum outro amigo milionário que adquira uma das TVs premium da fabricante.

Também é decepcionante saber que a X915 não será atualizada para o Google TV, que vai substituir o Android TV e traz não apenas uma interface melhor, mas uma personalização maior do que você for assistir, contendo sugestões de conteúdos que possam ser do seu interesse. Segundo a TCL, apenas as smart TVs lançadas a partir de 2021 rodarão a nova plataforma. A X915 fica de fora, pois chegou ao mercado em 2020.

O desempenho do Android TV é um pouco lento frente aos sistemas de TV da LG e da Samsung, e não foi estranho me deparar com demora na abertura de aplicativos ou na troca de telas durante a navegação. Na minha unidade de testes, também passei por um erro que travava a imagem algumas vezes, seja ao trocar de canal ou alternar para outro app. A princípio, eu pensei que fosse algo relacionado à minha internet. Porém, mesmo sem estar conectado à web usando apenas na TV aberta, o problema persistiu e só se resolvia ao desligar e ligar de novo o aparelho. Isso não aconteceu com frequência, mas certamente é algo para ficar de olho.

Vale a pena?

No que diz respeito a uma experiência de cinema, eu não tenho do que reclamar da X915. Uma tela de 75 polegadas propicia essa característica, com excelente equilíbrio de brilho, contraste e saturação. Mas com certeza é som encorpado e envolvente que faz toda a diferença. Se a sua sala de estar for mais compacta, a imersão será ainda maior. Eu também gostei bastante do design da TV que, mesmo sendo grandalhona desse jeito, entrega um visual moderno, com bordas finas e elegante para qualquer ambiente.

O 8K da X915 é verdadeiramente 8K, e faz um ótimo trabalho de upscaling do 4K. Só que nem aqueles com R$ 23 mil sobrando vão conseguir aproveitar o que essa resolução altíssima tem a oferecer. Para mim, é o tipo de produto para quem planeja se antecipar para o futuro, quando o 8K for o padrão da indústria, ao mesmo tempo em que não quer se preocupar em gastar com uma TV nova por pelo menos uns 10 ou 12 anos. Tem também o fato de que a X915 por si só já é uma TV defasada, uma vez que ela ficará restrita ao Android TV e não será atualizada para o Google TV. Portanto, colocando esses fatores na balança, eu acho mais vantajoso investir em uma TV 4K, pois, sinceramente, o custo-benefício é melhor.