Esqueça a imagem dos últimos BlackBerries. A RIM quer mudar isso, tanto por fora, quanto por dentro. Num mundo cercado cada vez mais por Androids e iPhones, empresas com sistemas não tão suaves e com pouco jogo de cintura precisam mudar – ou mudar de vez. E nada melhor do que chocar o mundo com um novo smartphone com formato slide e teclado QWERTY para chamar a atenção. Conheça o Torch e o BlackBerry OS 6, a possível chama de renovação da RIM.

A reação ao pegar o Torch na mão, segundo nosso camarada Matt Buchanan, do Giz US, é curiosa: tudo que um BlackBerry recente tem está lá – o trackpad, a tela sensível ao toque, os quatro botões clássicos. O teclado QWERTY remete ao formato do BlackBerry Bold, um bom referencial, com teclas altas e resposta perfeita, além de vida longa, mas há o estranho charme de ele ser praticamente a ressurreição do teclado slide, quase como um ato nostálgico. Se o boom dos anos 80 passou, nada mais natural do que um revival dos anos 90 acontecer, certo?

Apesar do acabamento visivelmente bem feito, marca registrada da maioria dos aparelhos da RIM, a tela de 3,2 polegadas do Torch tem um detalhe desanimador: resolução de 480 por 360 pixels. Do que adianta tamanho e um browser extremamente rápido – já falaremos dele – se há uma limitação natural do hardware? Ok, possivelmente você comprará o Torch pensando no trabalho, e não naqueles vídeos do YouTube, mas mesmo para leitura apenas de texto é recomendável ter mais pixels.

E mesmo que você compre o Torch pensando no trabalho, não é só nisso que a RIM anda pensando. O crescimento do Android e do iPhone tem afetado diretamente o império da empresa nos EUA, e os números divulgados pela Nielsen ontem não mentem: enquanto o BlackBerry OS caiu para 35% de market share nos EUA, o iPhone atingiu 28% e o Android deu um enorme salto, chegando aos 13%. Os dados de novos usuários, então,  são ainda mais preocupantes:

E não preciso nem dizer qual foi o impacto ao descobrir que mais da metade dos usuários de BlackBerry nos EUA pretendem trocar o aparelho por um iPhone ou um Android. Não há como negar, a RIM precisa continuar atingindo os engravatados e compromissados, mas também chamar a atenção de quem só usou gravata na formatura da faculdade. 

É claro que isso não muda apenas com um teclado slide num aparelho: a habilidade mesmo deve ser interna, no novo rei dos smartphones, o sistema operacional. E nesse aspecto, o BlackBerry OS 6 tem seus encantos, mas não é bem uma revolução intrínseca. Ninguém vai colocar a gravata na cabeça e dançar. Mas seu objetivo é outro, e seu slogan explica bem: “novo, mas familiar”. A RIM não quer assustar seu já consolidado mercado com mudanças bruscas, mas quer tentar chamar a atenção de forma mais sutil. Um dos caminhos óbvios, mas necessário, foi tornar a integração com redes sociais mais suave, mais completa, com um social feed que entrega todas as atualizações do Twitter, Facebook, MySpace e qualquer outro RSS em um único aplicativo. As atualizações ficarão dentro da caixa Mensagens, que já inclui SMS, MMS e e-mails. Como em qualquer outro aparelho, é preciso saber dosar os níveis sociais para não tornar a experiência em um filme de terror.

A verdadeira carta na manga do OS 6 é seu novo navegador WebKit. Alguns números já haviam vazado antes do lançamento sobre sua velocidade e de como ele tinha deixado o Android e o iPhone no chinelo num teste rápido. Ele é visivelmente rápido e bonito, e é fácil considerá-lo o melhor browser que a RIM já fez. Mas há alguns detalhes não tão agradáveis, como a dificuldade que o Engadget teve para carregar sua página ou como o pessoal do Giz americano não gostou muito do zoom. A sensação é que a falta de cacoete da RIM com os detalhes mais importantes aos "usuários comuns" pesou nessas pequenas falhas. Mesmo assim, ele parece precisar de poucos reparos numa atualização futura e tem potencial para chamar a atenção. 

É fácil notar, entretanto, que a sensação é de que a RIM mexeu em alguns detalhes específicos, em busca de expansão, mas manteve seu sistema sóbrio e sem mudanças muito radicais. Há novidades menores, como a busca universal, um media player redesenhado, ícones customizáveis… Mas nada realmente chocante. Matt Buchanan resumiu bem meu pensamento em seu post do Gizmodo americano:

O Torch e o BlackBerry OS 6 mostram o que a Blackberry já estava fazendo e avançam nessa direção – eles não estão se reinventando, mudando tudo ou explodindo coisas. Até mesmo o design meio maluco com teclado slide do Torch remete basicamente a um BlackBerry, apenas um pouquiiiinho diferente. O que é bom, em um sentido – os que já usam o BlackBerry que não querem mudar muito provavelmente amarão o aparelho. Mas isso é o bastante? Eis uma questão: as pessoas simplesmente querem um BlackBerry melhor ou elas querem algo diferente, algo completamente novo que seja tão bom quanto um BlackBerry nas coisas que ele faz bem? 

Com essa dúvida na cabeça, possivelmente o Torch chegará ao Brasil com algumas questões já resolvidas, já que o aparelho não tem previsão de chegada – e conhecendo a política de lançamentos da RIM por aqui, ele não deve chegar nos próximos meses, talvez só em 2011. Até lá, poderemos ver qual será a aceitação do mercado americano e se a RIM conseguirá reverter essa curva. É bom saber que a empresa já diagnosticou a necessidade de mudança – autocrítica sempre faz bem – resta saber se ela realmente conseguirá atingir seu objetivo sem mudar de forma brusca seu estilo.