Ouça: “robôs” não estão chegando para roubar o seu trabalho. Espero ser bem claro aqui – neste momento particular, os “robôs” não são agentes sensíveis capazes de procurar e concorrer a vagas de emprego para tomar sua vaga com base nos seus méritos comparativamente superiores.

Atualmente, os “robôs” não escaneiam o LinkedIn com um algoritmo que tem a intenção de tirar o seu lugar usando inteligência artificial. Os “robôs” também não estão reunidos nos fundos de um depósito qualquer conspirando para tomar os empregos das pessoas. Um robô não está “buscando”, ou “roubando” ou “matando” ou “ameaçando” empregos. A gestão das empresas é que está.

E ainda assim, aqui vai uma pequena amostragem de manchetes de grandes veículos de mídia:

  • “Robôs inteligentes podem roubar o seu emprego em breve” – CNN
  • “Robôs de colarinho branco estão chegando para pegar os empregos” – Wall Street Journal
  • “Sim, os robôs estão chegando: empregos na era dos humanos e máquinas” – Wired
  • “Os robôs estão chegando para pegar o seu emprego? Um dia, sim” – New York Times
  • “Os robôs estão chegando, e eles querem o seu emprego” – VICE
  • “Robôs já estão substituindo humanos a uma taxa alarmante” – Gizmodo

A lista poderia continuar por um bom tempo – a maioria dos grandes veículos publicam diversas histórias que abraçam esse recorte. Eu mesmo fiz isso; é um atalho conveniente, ligeiramente alarmante e que gera cliques para se referir ao fenômeno da automação no trabalho.

Fomos ensinados a usar esse recorte, e meu objetivo não é desgastar ninguém por ter repetido essa ideia. Meu objetivo é acabar com ela.

Numa primeira olhada, pode parecer uma reclamação semântica implicante, mas eu asseguro que não é – esse recorte ajuda, e historicamente ajudou, a mascarar a responsabilidade por trás da decisão de automatizar o trabalho.

E essa decisão não é feita pelos robôs, mas pela gestão. Trata-se de uma decisão que na maioria das vezes é tomada com a intenção de economizar dinheiro da empresa ou instituição ao reduzir o custo envolvido com o trabalho humano (mas também foi tomada com a intenção de aumentar a eficiência e melhorar as operações e a segurança).

É uma decisão humana que, no fim das contas, elimina o trabalho.

Dando nome aos bois

Mas se os robôs estão simplesmente “vindo” atrás de trabalho, se eles simplesmente aparecem e substituem diversas pessoas, ninguém poderia ser culpado por esse fenômeno tecno-elementar, certo? Se esse fosse o caso, pouco poderia ser feito sobre isso além de se preparar para os possíveis impactos.

Os responsáveis não seriam os executivos influenciados por empresas de consultoria que insistem que o futuro está nos robôs de atendimento ao cliente com IA, nem os gerentes que vêem uma oportunidade de melhorar as margens de lucro adotando quiosques automatizados que se destacam em relação aos caixas, ou os chefes de conglomerados marítimos que decidem substituir trabalhadores portuários por uma frota de caminhões automatizados.

Esses indivíduos podem sentir que não têm escolha. Eles sofrem pressão de acionistas, conselhos e chefes e há um sistema econômico que incentiva a tomada dessas decisões – além do fato de às vezes a tecnologia executar um trabalho obviamente superior ao humano. Mas não é bem assim – na verdade, são, sim, decisões, tomadas por pessoas, que escolhem utilizar ou desenvolver robôs que ameaçam os empregos.

Fingir que não é uma escolha, que o uso dos robôs em todos os casos é inevitável, é a pior forma do determinismo tecnológico, e leva a uma escassez de pensamento crítico sobre quando e como a automação é melhor implementada.

Até mesmo os amantes mais ardentes dos robôs irão concordar que existem muitos casos da má aplicação da automação; sistemas que tornam nossas vidas piores e mais ineficientes, e que eliminam empregos enquanto entregam resultados piores.

Tal automação má aplicada geralmente acontece sob a lógica que os “robôs estão chegando”, então é melhor embarcar nessa.

Seremos capazes de tomar melhores decisões a respeito da adoção da automação se entendermos que, na prática, “os robôs estão vindo para tomar nossos trabalhos” geralmente significa algo mais como “um CEO quer reduzir seu custo operacional em 15% e acabou de lançar um software empresarial que promete fazer o trabalho de trinta funcionários”.

Eu só percebi isso agora, depois de passar muitos meses mergulhado em dezenas de livros e artigos de think tank, notícias e editoriais de ‘líderes de pensamento’ que se preocupam com o espectro de criação da automação, tantos dos quais repetem a conclusão quase idêntica. Mas percebi.

O momento eureka veio quando li um artigo no Wall Street Journal do “especialista em liderança” Mark Muro, membro sênior do Brookings Institute e autor de uma pesquisa recente sobre como a automação impactará várias regiões e demografias dos EUA. É um bom exemplo de como e por que esta tendência se perpetua como qualquer outra.

Muro começa seu artigo, “Os trabalhadores que mais provavelmente irão perder seus empregos para os robôs“, com a seguinte frase: “Operários e caminhoneiros são a representação dos temores da automação no país até hoje. E com razão: essas ocupações são pilar do trabalho masculino de meia-idade que está genuinamente ameaçado pelos robôs ou inteligência artificial”.

Logo de cara, não há um, mas dois exemplos desses robôs incrivelmente pró-ativos que ameaçam os empregos dos trabalhadores humanos, e em nenhum lugar há qualquer referência a como esses robôs podem chegar lá em primeiro lugar.

É algo conveniente, especialmente quando ficamos sabendo que os tais institutos recebem financiamento de organizações como a Fundação Ford e a Walton Family Foundation, cada uma delas ligada a empresas cujos executivos estão em processo de automatizar sua força de trabalho. Neste caso, dizer que caminhoneiros e operários “estão ameaçados por robôs” sem se dignar a dizer quem são os responsáveis, é algo fácil.

Eu não quero criticar o senhor Muro porque, novamente, isso faz parte de um discurso construído pelas empresas, think tanks que compactuam com elas e agências de desenvolvimento. A propósito: O Fórum Econômico Mundial usa exatamente a mesma linguagem, assim como o Banco Mundial e o FMI.

Estes grupos, que fazem alertas sobre perigos da automação, estão unidos na superficialidade das soluções propostas, que dependem em grande parte de enfatizar a importância de uma melhor educação e apelar por um pequeno apoio governamental para programas de requalificação e assistência aos trabalhadores.

Por sua vez, essa passividade amiga da automação encontrou uma feliz sincronia na propensão da mídia para dramatizar a ficção científica, que aparentemente ganha vida, e voilà: os robôs estão vindo para tomar os seus empregos.

Críticos mais astutos, como o candidato presidencial democrata Andrew Yang, que construiu uma campanha em cima do tema, também podem cair no recorte simplista.

Mas precisamos abrir os olhos para isso. Este não é um fenômeno invisível com o objetivo de melhorar a tecnologia a que estamos todos submetidos. Trata-se, muito frequentemente e muito simplesmente, de proprietários ricos de empresas e de classes executivas que procuram novas formas de se tornarem ainda mais ricos.

Como Kevin Roose, do New York Times, noticiou em Davos, os líderes empresariais do mundo estão bastante ansiosos para implementar a automação – eles vêem esses robôs como o principal meio de se manterem à frente da concorrência, de melhorar as margens de lucro, de cortar custos. Assim, eles decidiram comprar e construir mais robôs que, sim, vão deixar as pessoas sem trabalho.

Poderia ser dito, sem muito exagero, que, os robôs que “estão chegando para tomar seu emprego” são, na verdade, em grande parte, articulados pela elite que vai à Davos.

Deixar uma concepção ambígua de “robôs” arcar com toda a culpa permite que a classe gestora escape do escrutínio de como ela implementa a automação, além de barrar a discussão valiosa sobre contornos reais do fenômeno da automação e nos impede de desafiar essa marcha robótica quando, na verdade, ela deveria ser desafiada.

Então, vamos esclarecer as coisas.

Os robôs não estão a ameaçando nossos empregos. Na verdade, aqueles que vendem negócios para empresas prometendo soluções de automação para executivos são aqueles que estão ameaçando nossos empregos.

Os robôs não estão matando os empregos. Os gestores que vêem um custo-benefício na substituição de uma função humana por uma função algorítmica e que optam por fazer essa troca estão matando os empregos. Os robôs não estão chegando para tomar o seu trabalho. Os CEOs que vêem uma oportunidade de maiores lucros com as máquinas que farão o investimento valer a pena em 3,7 anos com as economias geradas estão tentando tomar o seu trabalho.