Há alguns dias, a Folha de S.Paulo publicou os salários dos professores e funcionários da USP. A divulgação dos dados de uma das maiores e mais importantes universidades brasileiras é amparada pela legislação, já que esses dados são abertos.

Foi o primeiro passo de um debate importante, mas incompleto. A USP passa por uma crise financeira. Ao longo dos últimos anos, os reitores escolhidos pelo governo do Estado de São Paulo foram incapazes de resolver o problema de despesas crescendo muito além das receitas.

Embora a universidade tenha autonomia para gerir seus recursos, que vêm de uma parcela dos impostos pagos pelos contribuintes paulistanos, sua gestão tem obviamente interferência do governo estadual. Afinal, os reitores são eleitos em lista tríplice pela comunidade acadêmica, mas a escolha final é do governador — que pode optar por uma pessoa que não foi a mais votada. Foi o que fez José Serra (PSDB), por exemplo. Em 2009, ele nomeou João Grandino Rodas, o segundo mais votado, para o comando da universidade.

Ao longo destes anos, ficou claro que não há um plano para a USP e para as outras universidades paulistas. Isso também vale para as universidades federais, como mostram as inaugurações às pressas de várias instituições mantidas pela União.

Vendo o ranking da Folha, fica claro que há uma geração de professores aposentados que recebem recursos generosos da universidade. Ok, a gente pode não gostar, mas é direito adquirido (imagine se cortassem a SUA aposentadoria). Eles foram contratados em outras épocas, com outras regras de aposentadoria. Enfim. Mas, quando você olha para o salário dos professores mais novos, percebe que há um problema: o salário não é tão alto assim.

Comparado com a responsabilidade que eles têm no desenvolvimento do conhecimento no país, da ciência e da tecnologia, é menor do que os salários pagos em cargos semelhantes na iniciativa privada. Além disso, muitos deles assumem funções administrativas e têm de gastar muito tempo fora da biblioteca e do laboratório. Viram mais administradores universitários do que professores. Isso é um nó – muitos pesquisadores talentosos só aceitam essas funções porque é uma forma de aumentar o salário no fim do mês.

Atacar só os salários parece ser uma solução simplista, que não foca no mais importante: como atrair e reter pessoas talentosas na universidade e permitir que elas produzam conhecimento fundamental para o desenvolvimento social, econômico e cultural do Brasil? Esse é o nó. Sem contar, claro, que discutir salário é importante — mas tijolo também.

Ao longos dos últimos anos, USP e Unicamp, por exemplo, investiram muito em obras — mas ainda faltam dados de quanto foi investido. É preciso examinar esses orçamentos com lupa para saber quanto foi gasto, como foi gasto e se esses gastos eram necessários.

Universidades são fundamentais para qualquer país desenvolvido. Alguns países têm entre as universidades públicas seus melhores centros de ensino, como Brasil e França. Outros têm nas universidades ligadas a organizações e fundações seus pontos de excelência, como EUA e Inglaterra. O ponto é que a discussão não é apenas gasto – mas o modelo de universidade que queremos para o país que desejamos construir.

Como o Gizmodo levanta a bandeira de um Brasil mais inovador, tínhamos de entrar nessa. Por isso, convidamos duas pessoas para nos explicar direitinho quais são os grandes dilemas da universidade neste momento. Eles serão publicados hoje e amanhã.

Participe do debate aí na área dos comentários. Os melhores comentários, os mais pertinentes, serão destacados. O importante é a gente avançar nesse debate para além da histeria. Leia o primeiro texto no link abaixo.

>>> OPINIÃO: O professor da USP não ganha muito

[Imagem de destaque via Todd Petrie]