Ok, não o Plínio especificamente. Mas pode ser ele também. Eu não concordo com uma enorme parte das ideias do candidato à presidência do PSOL, mas ele está lá na minha timeline do Twitter junto de Marina, Dilma e Serra e dividindo espaço com eleitores e defensores de todos os candidatos. E eu espero que mais pessoas façam algo parecido.

Calma, não quero que você encha o seu Twitter de políticos – isso é potencialmente terrível. Mas, faça um favor a si mesmo: gaste algum tempo não só lendo mais ideias, mas especialmente ideias que você não concorda. Porque ignorar as discordâncias é o primeiro passo para criar um idiota. E a internet, com todo o seu potencial para o bem, está dando condições para isso, como apontam vários estudos. Em ano eleitoral, esse é um assunto bem importante. Vem comigo.



O sensacional da internet é que ela democratizou a informação. Você não precisa mais comprar um jornal de papel ou esperar o horário do jornal na TV para saber o que acontece no mundo. Se antes era quase impossível conhecer as ideias de candidatos que não gastam milhões nas campanhas, hoje dá para seguir o dito cujo no Twitter, checar seu programa de governo em seu site ou ver vídeos de comícios no Youtube, só para ficar no campo da política. Há mais acesso à informação, o que é maravilhoso.

Mas há um problema: um negócio chamado confirmation bias (traduzido às vezes como enviesamento de confirmação). Basicamente é a tendência de 1) as pessoas acreditarem mais em uma informação se ela confirmar o que ela acredita, independente de isso ser verdadeiro e 2) duvidar de fatos que contradizem o que elas pensam. É um fenômeno comportamental que é estudado desde os anos 1960 mas que tem sido cada vez mais observado e discutido em tempos de internet, como bem observou Clóvis Rossi em artigo recente para a Folha

É claro que a internet tornou exponencial essa tendência natural. Continua Soledad: "A realidade, dizem os peritos, é que, afogados por um fluxo de informação que não cessa, os cidadãos elegem automaticamente os dados que melhor se acomodam ao que já pensam e rechaçam, sem a menor vergonha, o resto".

Não importa se são dados falsos ou comprovados; importa que reafirmem cada um em na sua própria crença".

Soledad cita estudos do jornalista Joe Keohane, que demonstram que mesmo dados verdadeiros são incapazes de mudar determinadas mentes. "Ao contrário, quando pessoas desinformadas recebem os dados corretos, não só não mudam de opinião ou modificam sua crença, como se aferram ainda mais a ela".

Não precisa ir para a política: nós do mundo da tecnologia conhecemos bem os fanboys, surdos para ideias que falem mal de sua marca. O problema é que, além de fãs incondicionais, a internet possibilita o surgimento de veículos com pedigree de imparcialidade mas que defendem claramente uma posição. Aí, um cara militante de um partido que vê um candidato dar uma entrevista na TV resolve acessar a internet para ver o que pensam jornalistas importantes sobre o ocorrido. Problema: ele já vai para o lugar onde sabe que terá seu radicalismo reverberado, para não se irritar. E ele encontra isso:  

E as pessoas tendem a acreditar mais nessas notícias e análises. Dê uma passada pelos comentários de grandes portais, que tendem a ser mais imparciais. Na internet brasileira em ano eleitoral, notícias contrárias aos seus candidatos viram "armação", e jornalistas que escrevem matérias com denúncias estão "a serviço de interesses escusos". Em excelente matéria da revista Piauí deste mês, outra pesquisa aponta que as pessoas crêem no que lêem online:

enquete conduzida pelo portal UOL no começo de julho perguntou a 2.880 internautas: "Você acha que a campanha na internet pode mudar o seu voto?" Ao todo, 76% deles responderam que não. O resultado corrobora a ideia de que a rede serve principalmente para reforçar convicções já sedimentadas. (…) Não seria outra a razão pela qual 40% das pessoas, em levantamento do Vox Populi, consideram a credibilidade da internet "muito alta", só perdendo para o rádio. Quem repete o que acreditamos tende a contar com a nossa confiança.

No seu recém-lançado livro Going to Extremes: How Like Minds Unite and Divide (Indo para Extremos: Como mentes parecidas agregam e dividem), o professor de Harvard Cass R. Sunstein explica que o confirmation bias e a polarização podem ter consequências muito maiores do que trolls ou fanboys de marcas e partidos. Um sentimento xenófobo ou racista que a pessoa guarda para si com medo da reação da sociedade, por exemplo, pode aflorar e se intensificar ao encontrar pessoas que pensam parecido, cortesia da internet. Diz Sunstein: 

O especialista em terrorismo Marc Sageman explica que em certos nívei, a "interação entre um monte de caras" agiu como uma câmara de eco, que progressivamente os radicalizou até o ponto em que eles estavam prontos para se juntar a uma organização terrorista. Agora o mesmo processo está acontecendo online. O força motriz aqui não são os sites que as pessoas lêem passivamente; consiste em listas de discussão, blogs e fóruns, que são cruciais para o processo de radicalização. O terrorismo islâmico é produto, em grande parte, da polarização de grupo. 

E não vamos achar que isso é coisa de países que sofrem com o terrorismo. De grupos de idiotas anti-nordestinos a gangues de homofóbicos que se organizam no Orkut para espancar, a internet em PT-BR tem grandes exemplos de como pode ser um ponto de encontro de pessoas com pensamento estreito. Elas podem se encontrar no comentários e serem felizes para sempre:

 

É claro, e você pode argumentar com razão, que idiotas sempre existiram, eles só têm mais voz agora. Mas a tendência de "validação" de ideias erradas está perigosamente forte nos últimos tempos. Portanto, amigo leitor, experimente gastar um tempinho deste final de semana lendo coisas fora da sua área de conforto, os favoritos que favorecem a sua visão. É claro que nem todas as ideias valem a pena serem lidas. Mas faça isso. Lembre-se que mudar de opinião pode ser muito bom também.

[Ilustração por Larissa Magioli.]