Por mais de um ano e meio, diplomatas norte-americanos sofreram de doenças parecidas, que incluíam danos cerebrais leves e perda de audição, depois de terem alegado ouvir sons incomuns. Os incidentes começaram em Cuba, mas os relatos agora se espalharam para outros países. À medida que as autoridades ampliaram os esforços para tratar os casos potenciais, quase 200 pessoas teriam se apresentado para serem examinadas.

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O Departamento de Estado dos Estados Unidos teve pouco a dizer sobre os incidentes que começaram em Havana, no fim de 2016, e o vácuo de informações abriu as portas para teorias da conspiração e outras alegações não checadas. Por ora, ninguém pode dizer com certeza o que está acontecendo nesses casos, mas parece que diplomatas norte-americanos estão sendo alvos de algum tipo de ataque que tem deixado os especialistas perplexos. No começo, os oficiais acreditavam que algum “dispositivo sônico” desconhecido estivesse sendo usado contra as vítimas, mas outras teorias surgiram enquanto isso.

Alguns diplomatas americanos relataram ter ouvido sons estranhos, cuja gravação de áudio foi posteriormente divulgada ao público. Os sintomas variavam entre as vítimas, mas a lista incluía “perda de audição, tontura, zumbidos, problemas de equilíbrio, dificuldades visuais, dores de cabeça, fatiga, problemas cognitivos e dificuldades de sono”. Desde então, vimos relatos de diplomatas adoecendo na China.

Nesta terça-feira (26), a Associated Press noticiou que 26 americanos haviam sido “medicamente confirmados” como tendo se machucado em uma onda de incidentes, e diplomatas que serviram em pelo menos sete cidades, em quatro países, buscaram ser examinados. Quase 200 funcionários da missão diplomática dos EUA e seus familiares optaram por participar de um novo programa de triagem que, segundo funcionários do governo disseram à AP, em condição de anonimato, é parte de uma postura de “muita cautela”. Desse americanos, menos de uma dúzia disseram ter sido levados para a Universidade da Pensilvânia na Filadélfia para uma revisão posterior por profissionais médicos.

AP descreveu um incidente anteriormente não relatado que preocupou os funcionários em relação à visita recente do presidente Donald Trump para se encontrar com Kim Jong-Un:

Conforme o presidente Donald Trump se encaminhava até Cingapura para um encontro histórico com o líder da Coreia do Norte, um agente de segurança diplomática do Departamento de Estado que fazia parte da equipe disse ter ouvido um som incomum que ele acreditou ser parecido com o que foi ouvido por diplomatas norte-americanos em Cuba e na China, que depois adoeceram.

O agente imediatamente passou por uma triagem médica — parte do novo protocolo do governo dos EUA, estabelecido em resposta a tais potenciais incidentes de saúde em qualquer parte do mundo. E, embora o presidente estivesse voando para a cidade-estado do Sudeste Asiático, a delegação norte-americana que se preparava para sua chegada estava trocando mensagens urgentes com a sede do Departamento de Estado em Washington, incluindo a Segurança Diplomática da agência e o Serviço Secreto dos EUA.

Quatro autoridades dos Estados Unidos disseram à AP que se tratava de um alarme falso, mas há uma maior conscientização entre as autoridades de segurança, enquanto a Casa Branca se prepara para se encontrar com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, no próximo mês.

As suspeitas de envolvimento russo nos ataques foram levantadas em setembro de 2017, quando um oficial da USAID e sua esposa foram levados para fora de Tashkent, no Uzbequistão, para avaliação depois que relataram eventos que batiam com o que aconteceu em Havana. Mais tarde, o Departamento de Estado disse que “não vai discutir cada caso individualmente”, mas que podia “confirmar que não houve incidente no Uzbequistão”.

A essa altura, os únicos casos clinicamente confirmados ocorreram com diplomatas em Cuba e um deles na China. Os EUA emitiram um alerta recomendando os americanos que viajam para a China a procurar atendimento médico se sentirem “fenômenos auditivos ou sensoriais” semelhantes ao que foi relatado em Havana, e o Departamento de Estado recomendou que qualquer pessoa que viajasse a Cuba “reconsiderasse” seus planos.

Desde que repórteres pegaram de surpresa a porta-voz Heather Nauert, com perguntas sobre os incidentes em agosto do ano passado, o Departamento de Estado tem sido relutante em dar detalhes maiores sobre sua investigação. Ele ainda se refere a esses casos como “ataques específicos”, sem dizer o que está acontecendo especificamente. Vimos diversas teorias sobre o que poderia ter causado esses tipos de sintomas relatados ao longo do último ano, incluindo micro-ondas ou ondas de rádio armadas e equipamentos de vigilância defeituosos. O fato de que eles não sabem como os ataques aconteceram tende a ofuscar o fato de que não sabemos também por que eles estão acontecendo.

O que parece estar claro é que as autoridades estão tão preocupadas que estão se apressando para lidar com qualquer incidente potencial que surja. E quanto mais dura o mistério, mais suscetíveis estão os diplomatas em serem vítimas desse ataque no exterior.

[Bloomberg/AP]

Imagem do topo: Getty, Sound Waves Wikia