Todos sabemos qual é o jogo da Apple agora. Espera às margens, enquanto todas as outras empresas se complicam ao tentar inovar, e, então, quando já parece quase muito tarde, ela lança um produto que faz as mesmas coisas que o produto de alguém, só que melhor. Provavelmente será assim com o alto-falante inteligente com a assistente Siri. A ideia é curiosamente animadora.

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Praticamente todo mundo acredita que, nesta segunda-feira, a Apple vai revelar a até agora chamada de Siri Speaker. O dispositivo controlado por voz deve se parecer bastante com o Amazon Echo e o Google Home, exceto pelo fato de que, você sabe, é um produto da Apple. Isso significa que ele será bonito, funcionará muito bem e custará uma pequena fortuna. De acordo com os rumores, isso também significa que o dispositivo não terá algumas das funcionalidades destaque nos atuais concorrentes do mercado. A Siri Speaker provavelmente não terá uma tela touchscreen, como o novo Amazon Echo Show. Ela provavelmente não terá um roteador Wi-Fi embutido, como a nova versão do Google Home supostamente terá, segundo os rumores.

E ainda assim esse é meio que o objetivo. A Apple é famosa por lançar a primeira geração de produtos que fazem apenas o suficiente, mas fazem muito bem. Pense no iPod original, que está comemorando seus 16 anos. O mercado estava inundado de players MP3 problemáticos quando Steve Jobs anunciou a solução mágica da Apple em outubro de 2001. O próprio Jobs explicou como as pequenas e grandes empresas estavam tentando e falhando na criação de players de música.

“Eles não encontraram a receita”, disse Jobs naquele evento, momentos depois de anunciar o iPod. “Ninguém realmente encontrou a receita para a música digital ainda.”

Agora se prepare para a parte boa.

“E pensamos”, continuou Jobs, “não apenas que podemos encontrar a receita, mas que a marca da Apple será fantástica, porque as pessoas confiam na marca para obter os melhores eletrônicos digitais”.

Você pode imaginar essas mesmas palavras saindo da boca de Tim Cook hoje para descrever a entrada da Apple no mercado de alto-falantes inteligentes. Muitas empresas, pequenas e grandes, tentaram vender dispositivos conectados na internet e controlados por voz para as casas. Nenhum deles é incrível. A Amazon teve bastante sucesso com o Echo, principalmente porque foi a primeira mega empresa de tecnologia que lançou uma opção viável. O Echo ganhou força como uma central para casas inteligentes, também, porque a Amazon permitiu que praticamente qualquer empresa desenvolvesse a capacidade de trabalhar com a Alexa, a assistente de inteligência artificial meio decente da companhia. E apesar da sua relativa dominância no espaço informacional, o speaker inteligente do Google, chamado de “Home”, encontrou dificuldades para abocanhar parte do mercado conquistado pela Amazon.

E aqui vem a Apple. Se a garotada de Cupertino anunciar um novo produto de hardware na conferência da WWDC deste ano, é quase certeza que será algum tipo de alto-falante inteligente. As pessoas estão chamando ele de “Siri Speaker” porque um dispositivo desses usaria o poder computacional da Siri para responder a comandos de voz e perguntas. Também podemos esperar uma atualização da Siri, quem sabe uma nova versão que consiga distinguir diferentes vozes e manter diversos perfis de usuários (o Google Home já faz isso, e a Amazon deve liberar essa função em breve).
Fora isso, a Siri Speaker provavelmente fará as mesmas coisas que o Google Home e Amazon Echo – só que, se tivermos sorte, melhor do que eles.

Afinal, a Apple cada vez mais admite que é uma marca de luxo. Para um alto-falante inteligente, isso significaria que a qualidade do som seria bem melhor do que os tons sem graça de um Echo. Alguns rumores indicam que a Apple quer bater a Sonos também e oferecer um áudio sem fio de alta qualidade em toda a casa com acústicos excepcionais, junto com o poder de processamento equivalente ao de um iPhone 6. Enquanto isso, podemos esperar que a empresa se valha de sua dominância na esfera de privacidade e segurança. À medida que muitas pessoas se assustam um pouco com a ideia de um Echo gravar todas as conversas, o mercado vai criando expectativa para um alto-falante inteligente que pareça seguro. Ele também será – ouça isso na voz de Jony Ive – um objeto extremamente bonito.

Mas tudo isso leva para a questão: quem comprará esse novo produto da Apple? Não é algo imediatamente óbvio que as pessoas precisam de um alto-falante inteligente da mesma forma que elas precisavam de um smartphone quando a Apple lançou o iPhone há dez anos. E aí, de novo, ninguém precisava que de um smartwatch quando o Apple Watch surgiu e agora é o número um da categoria. Será por que o Apple Watch é o melhor wearable? Quem sabe. As pessoas confiam na marca Apple quando se trata de ótimos eletrônicos? Muitas delas, sim. Mais poderoso do que isso, no entanto, é o fato de que muitas pessoas comprarão um novo dispositivo simplesmente porque a Apple fez. Chame-os de fanboys ou fangirls ou o que você quiser, mas os clientes leais à Apple são realmente leais.

Steve Jobs os programou para ser assim. Desde os primeiros dias do Mac, o visionário se superou ao convencer as pessoas que os eletrônicos eram seus amigos. Afinal, lá em 1984, o Macintosh original fez o seu próprio discurso de apresentação, robótico mas revolucionário. “Queria que o Macintosh falasse por si” disse Jobs, e assim o computador o fez. A plateia foi à loucura.

Não sabemos o que acontecerá na WWDC 2017. Se a Apple anunciar um alto-falante inteligente, talvez Tim Cook convide a Siri para se apresentar. Existe uma boa chance do dispositivo não estar disponível até o próximo trimestre, algo que iria refletir a decisão do Google de lançar o Home também no próximo trimestre, conforme eles anunciaram antes. É claro, a Apple talvez nos decepcione e anuncie somente alguns novos iPads ou até mesmo nenhum hardware.

Mas se eles decidirem entrar no circo dos alto-falantes inteligentes, a empresa provavelmente fará o que Steve Jobs gostaria. O dispositivo será simples. Será bonito. E funcionará. Ele meio que não será tão bom nisso, mas é por isso que você tem que esperar pela segunda geração – e pela terceira, pela quarta, até o infinito.

Imagem do topo: Getty/Gizmodo