Conforme smartphones e outros dispositivos portáteis foram se tornando mais onipresentes, alguns pesquisadores e muitos pais começaram a se preocupar com os riscos à saúde mental causados pelo tempo excessivo passado por crianças e adolescentes em frente a telas. Uma nova pesquisa apresentada nesta semana não desmistifica uma ligação entre a tecnologia e a depressão, mas pode refinar as razões por trás da existência dessa conexão. Em vez do isolamento social ou de quaisquer efeitos diretos no cérebro, as descobertas do estudo sugerem que é a falta de sono causada pelo tempo passado na internet ou jogando videogames que é a culpada.

• Pelo amor de Deus, fique longe de piscinas se você está com indícios de diarreia
• Novo remédio para enxaqueca recebe aprovação e deve aliviar a vida de muita gente

Pesquisadores da Universidade Stony Brook, nos EUA, e de outros lugares estudaram dados de uma pesquisa com aproximadamente três mil adolescentes entre 2014 e 2017. O levantamento perguntou aos jovens quanto tempo eles passavam em quatro tipos diferentes de atividades envolvendo telas: assistindo à TV, jogando videogame, enviando mensagens aos amigos em redes sociais e usando a internet. A pesquisa também os questionou sobre seus hábitos de sono e se eles haviam tido algum sintoma de depressão.

Assim como em outras pesquisas, os autores descobriram que passar mais tempo em frente a uma tela, seja ela de onde for, esteve associado com um risco maior de relatar sintomas depressivos. Porém, nessa análise, a relação entre tempo em frente a telas e depressão foi explicada pela insônia ou pelo sono relativamente menor relatado pelos adolescentes. Em outras palavras, quanto mais tempo com telas alguém relatava, menos tempo elas relatavam ter dormido, o que foi então associado com maiores sentimentos de depressão.

“Taxas mais altas de sintomas depressivos entre adolescentes podem ser parcialmente explicadas por meio do engajamento ubíquo em atividades com telas, o que pode interferir no sono restaurador de qualidade”, disse Xian Stella Li, pesquisadora de pós-doutorado na Universidade Stony Brook, em um comunicado.

Os resultados da equipe foram apresentados na SLEEP 2018, edição deste ano da conferência da Associated Professional Sleep Societies.

Entretanto, vale apontar que houve diferenças entre os tipos de tempo passado em frente a telas. A troca de mensagens com amigos esteve menos ligada a sentimentos de depressão do que os jogos, por exemplo. E o sono, por si só, representou apenas 35% da conexão entre os jogos e os sintomas depressivos (é bom apontar que ter sintomas depressivos não é a mesma coisa que vivenciar uma depressão completa).

Não é surpresa alguma que dormir insuficientemente pode ser ruim para a saúde mental e física. Porém, a conexão entre tempo de tela e depressão em crianças tem sido mais difícil de analisar. Alguns pesquisadores sugeriram que o excesso de tempo na tela nos mantém isolados dos outros e solitários, enquanto outros teorizaram que telas brilhantes afetam nossos cérebros do mesmo modo que drogas viciantes como a cocaína. Há também alguns cientistas que argumentam que essas linhas de pesquisa entenderam errado: as crianças não ficam deprimidas porque assistem demais à TV ou ficam obcecadas com os videogames — elas ficam presas às telas porque já estão deprimidas.

Essa pesquisa, que ainda não foi publicada em um periódico revisto por pares, não encerra o debate. Mas é definitivamente verdade que as pessoas, especialmente os adolescentes, não estão dormindo o bastante. Pesquisas já descobriram que apenas cerca de 10% dos adolescentes têm as oito a dez horas de sono por noite recomendadas.

[SLEEP 2018]

Imagem do topo: Wikimedia