O espaço tem um jeito curioso de fazer a gente se sentir ao mesmo tempo incrivelmente pequeno e, ainda assim, infinitamente sortudo por fazer parte de uma sororidade cósmica tão vasta. Claro, os humanos mal arranharam a superfície da fronteira final — nunca enviamos pessoas além da Lua. Embora muitas espaçonaves não tripuladas tenham feito um trabalho incrível de revelar para nós a nossa vizinhança solar, sinceramente, nenhuma fez isso melhor do que a Cassini, da NASA. Depois de explorar Saturno por 13 anos, a sonda vai mergulhar na atmosfera do planeta em 15 de setembro, tornando-se uma só junto com o objeto de sua fascinação.

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• A última observação da lua Titã pela Cassini é de tirar o fôlego

A espaçonave Cassini e sua sonda acoplada, a Huygens, deixaram a Terra em 15 de outubro de 1997, a bordo de um foguete Titan IVB/Centaur. A espaçonave percorreu 3,54 bilhões de quilômetros para alcançar Saturno, finalmente entrando nos domínios do gigante de gás em 30 de julho de 2004. Uma vez lá, a Cassini não perdeu tempo: fez seu primeiro sobrevoo nas luas de Saturno Titã e Dione, em dezembro do mesmo ano. No ano seguinte, a Huygens pousou de paraquedas na superfície da Titã, enviando de volta imagens do primeiro e único pouso da humanidade em uma lua do Sistema Solar Externo. Durante seu tempo no sistema saturniano, a Cassini tirou mais de 453 mil fotos, coletou 635 GB de dados científicos e deu nome a seis luas saturnianas. Ela não relaxou por um dia em sua vida gelada, metálica e antropomórfica.

Imagem: NASA

Antes da Cassini, os últimos visitantes feitos por humanos que chegaram ao sistema de Saturno foram as Voyagers 1 e 2, em 1980 e 1981, respectivamente. Embora as sondas Voyager tenham oferecido um aperitivo dos mistérios de Saturno, a Cassini poliu as profundezas do coração nebuloso do planeta. De acordo com a NASA, quase quatro mil artigos científicos foram escritos usando dados coletados pela Cassini.

Ao longo dos últimos 13 anos, a espaçonave fez um planeta a 1,2 bilhão de quilômetros parecer próximo. Ela olhou para o abismo polar rodopiante de Saturno; descobriu mares de metano na Titã e uma espessa atmosfera com moléculas orgânicas que podem formar a base de uma biologia bem estranha. A sonda passou o último período de sua vida realizando 22 mergulhos entre Saturno e seus anéis, registrando imagens de perto, capturando detalhes sem precedentes. Talvez o mais importante, a Cassini descobriu que a lua gelada de Saturno, a Encélado, tem alguns dos ingredientes certos para o surgimento de vida em um oceano de água abaixo de sua superfície, saindo de seus gêiseres polares do sul — que a Cassini também provou. Graças à Cassini, nossa próxima viagem para Saturno será muito provavelmente uma busca dedicada por vida alienígena.

Gêiseres da Encélado (Imagem: NASA)

Para aqueles que escreveram sobre a Cassini, dizer adeus é ao mesmo tempo profundamente triste e um pouco estranho. É como se despedir de um amigo de longa data que na verdade você nunca conheceu. Nesse cenário, é claro, esse amigo é um pedaço grande de metal atravessando o vazio, mas que, ainda assim, parece humano.

“Eu sofro pelos cientistas que podem não viver para ver outra missão para Saturno e que podem não saber se existe ou não vida sob a bainha de gelo da Encélado. Ou ver um submarino pousar nos mares obscuros da Titã”, disse JoAnna Wendel, jornalista científica do Eos, ao Gizmodo. “Sofro pelos cientistas que nunca puderam saber que mundos oceânicos poderiam ser um alvo para a vida. E sofro com o vazio existencial de todas as coisas que não poderei ver quando eu morrer.”

Shannon Stirone, jornalista científica que cobriu a Cassini por anos, ecoou a tristeza de JoAnna, mas diz estar orgulhosa do que a espaçonave deixou de herança para as futuras gerações.

“A Cassini nos deu o maior e mais profundo presente que poderíamos receber”, disse Stirone. “Uma visão de um mundo icônico que tinha, ao longo da história humana, nos escapado. Com sua morte, ficamos de luto pelo encerramento de um esforço humano monumental e celebramos seu legado intocável.”

Os cientistas que dedicaram suas vidas à missão da Cassini vão, sem dúvidas, sentir a perda mais do que qualquer um. Linda Spilker, cientista de projeto da Cassini, disse anteriormente que a equipe envolvida na missão “se tornou meio que uma família Cassini”. O fim da sonda significa que essa comunidade tão próxima vai começar a se despedir — mas as contribuições que trouxeram ao mundo vão viver para sempre com o legado da Cassini.

“Deixamos o mundo informado, mas ainda se questionando”, disse Earl Maize, gerente de programa da Cassini, em entrevista coletiva nesta quarta-feira (13). “Obrigado, Cassini, e adeus.”

De todos nós aqui do Gizmodo, agradecemos à Cassini e aos cientistas que trabalharam incansavelmente nessa missão única. Obrigado por nos lembrar o que torna esse ponto azul pálido — e as pessoas nele — tão irracional e espetacularmente especial.

Ad astra, Cassini.

Imagem do topo: NASA