Se você fosse listar todos os elementos que compõem “Sweet Tooth”, da Netflix, você poderia pensar que aquilo é apenas um monte de ideias aleatórias juntas. Vamos testar essa teoria? Menino cervo. Robert Downey Jr. Pós-apocalipse. Exército de animais. DC Comics. Estrela do futebol. “Senhor dos Anéis”. Jogos de realidade virtual. Estranho, certo? Na verdade, não. Analisando mais atentamente vemos que a produção não é nada aleatória. Essas ideias formam um trabalho coeso criado pelos showrunners Jim Mickle e Beth Schwartz, que falaram ao Gizmodo US na semana passada.

“A coisa para mim era a questão [de] se você poderia fazer uma história apocalíptica que o levasse ao lugar certo, ou realmente lhe desse um pouco de esperança e otimismo”, Mickle disse ao Gizmodo. “O que parecia uma rara e real oportunidade com um personagem como Gus.” “Sweet Tooth” — adaptado da história em quadrinhos de Jeff Lemire — está agora na Netflix e conta a história de Gus (Christian Convery), um garoto cervo que tenta sobreviver em um mundo pós-apocalíptico onde seres como ele não são bem vindos. Ele foi criado isolado pelo pai (Will Forte) antes de sair para explorar um mundo hostil.

Imagem: Reprodução/Netflix

Schwartz acha que ter Gus no centro da história também foi uma grande ajuda. “O tom que acho que mantivemos ao longo de toda a temporada é o coração e a esperança de Gus”, disse ela. “Ele é a âncora do show. E eu acho que tudo meio que cresceu a partir disso em termos de, você sabe, obviamente o tom visual de tudo ser simplesmente deslumbrante e lindo, mas o coração de nossos personagens, e eles parecerem reais, e as cenas de tentar encontrar uma família. E acho que isso se tornou mais importante do que o pano de fundo do pós-apocalipse.” Mickle acrescentou: “Acho que o mundo se abriu para misturar gêneros e tons, e isso tem sido muito divertido e confortável de tocar. Sou um grande fã do cinema coreano e de como eles aceitam todos esses ingredientes e os misturam em algo novo.”

A proposta

Mickle era um fã da HQ de Lemire, mas ele nem sabia que estava sobre a mesa uma adaptação da história, até que teve uma reunião com Susan e Robert Downey Jr. “Eu estive conversando com eles sobre alguns outros projetos e… eles disseram ‘estamos pensando nisso para a televisão. O que parece?’” ele disse. “Então, tudo começou a partir daí e eles deram um apoio incrível desde o início.” Schwartz acrescentou: “Depois que entrei, eles foram incrivelmente colaborativos e envolvidos em praticamente todas as fases da série. Eles tinham Amanda [Burrell] e Evan [Moore], dois de seus executivos, na Nova Zelândia ajudando na produção. E no elenco. Honestamente, eles são nossos parceiros em tudo”.

Imagem: Reprodução/Netflix

Entre essas decisões estava fazer algumas mudanças bastante significativas em relação ao quadrinho original. “Introduzimos muitos dos personagens que aparecem muito mais tarde nas histórias em quadrinhos [antes]”, disse Mickle. “O gibi conta, principalmente no começo, muito do ponto de vista do Gus, o que fizemos no primeiro episódio, obviamente. E então, à medida que a história continua, acho que começamos a trazer personagens que você não conhece até chegar na 12ª edição dos quadrinhos. Isso nos deu uma oportunidade real de definir quem eram essas pessoas e não exatamente [fazer] histórias de origem, mas apenas ter uma noção de quem eles são antes de Gus conhecê-los. Então foi muito divertido. Mas também significava que tínhamos muito o que criar, e isso também foi divertido.”

Adaptações

Uma dessas adições foi o novo personagem Bear, interpretado de maneira verdadeiramente memorável por Stefania LaVie Owen. Bear lidera o Animal Army, que está nos quadrinhos originais, um grupo de crianças que jurou proteger híbridos como Gus. Mas para a série, a equipe queria usar a ideia e levá-la para o próximo nível. “Queríamos uma protagonista adolescente do sexo feminino, em primeiro lugar”, disse Schwartz. “Isso foi muito importante quando eu entrei no programa e todos estavam realmente procurando por esse tipo de personagem para adicionar ao nosso pequeno grupo desorganizado de Jep (Nonso Anozie) e Gus… e então começamos a explorar quais mundos seriam bons para Gus conhecer e podermos falar sobre uma cidade feita e administrada por adolescentes. Tipo, quão divertido é para uma criança que não explorou o mundo ver crianças comendo doces e jogando videogame e todo [esse] tipo de realização de desejo?”

Imagem: Reprodução/Netflix

Essas e outras mudanças certamente vão contra os quadrinhos originais, mas tanto Mickle quanto Schwartz disseram que Lemire estava totalmente de acordo. “Ele tem sido ótimo em tudo isso”, disse Mickle. “Ele apoia tudo, mas também dá bons direcionamentos”. Mickle explicou que Lemire adaptou seu próprio trabalho para a tela antes, então ele entende que as mudanças são necessárias. “Ele teve uma ótima fala em algum ponto em que disse: ‘Um gibi às vezes tem de cinco a oito cenas e de repente você faz um programa de TV e precisa de muito mais’. Então ele entendeu por que tivemos que fazer algumas mudanças, e eu acho que ele gostou muito delas.”

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Schwartz e Mickle não disseram se têm planos ou se já começaram a trabalhar em uma segunda temporada da série, mas acreditam que esta primeira temporada depende apenas de si própria. “Estruturamos toda a temporada em torno do final”, disse Schwartz. “E, de fato, quando estávamos na pós[-produção], assistindo ao final, uma das últimas falas é algo que já tínhamos nas propostas enviadas para Warner Brothers e Netflix, e permaneceu exatamente igual. E eu estava apontando isso porque não é extremamente comum quando algo que você escolhe antes de fazer toda a temporada permanece exatamente igual. Então, sempre soubemos o final.”

Esse tipo de sinergia parece útil para fazer uma série com tantos elementos aleatórios ao mesmo tempo. Mas valeu a pena. “Sweet Tooth” está agora no Netflix.