A ironia quase poética de Sweet Tooth ter suas gravações interrompidas pelo início da pandemia não diminui o peso de sua estreia, na última sexta-feira (4). A série da Netflix, inspirada nos quadrinhos do canadense Jeff Lemire, retrata uma pandemia pós-apocalíptica que coincide com o nascimento de híbridos imunes ao vírus.

Uma década após a chegada dos bebês (meio humanos, meio animais) que polarizaram a sociedade, resta a dúvida: seriam eles os culpados pela doença exterminadora ou seriam eles a última esperança?

Ao longo dos 8 episódios, com duração média de 45 minutos, Sweet Tooth nos guia pela jornada de Gus, um menino-cervo em busca de respostas sobre si, seus semelhantes e sobre a humanidade. Ele tem a companhia de Jepperd, um brutamonte (adulto) que tem um passado obscuro e serve como contraste direto à inocência do garoto.

Com visual mais sóbrio e agradável em comparação à HQ, Sweet Tooth não nega que foi feita para o público jovem. A série evita que o espectador tome muito tempo com o peso das cenas, sejam elas exigentes de sentimentos positivos ou negativos. Por isso, o equilíbrio carregado ao longo dos episódios se difere da obra original, substituído por uma atmosfera colorida e a trilha sonora folk – deleite para quem gosta de Of Monsters and Men e semelhantes.

Em uma travessia entre os estados americanos de Wyoming e Colorado, o espectador é levado nesta expedição que detalha o saldo do Grande Colapso – sinônimo ao dia do surto virulento do Flagelo. Um obstáculo para a dupla de protagonistas é a milícia dos Últimos Homens, grupo caçador de híbridos, comandado pelo General Abbott. Felizmente, o núcleo narrativo do vilão foi deixado para o futuro da série, mesmo que a segunda temporada ainda não esteja confirmada pela Netflix.

Antes do vírus, a Terra estava morrendo. Humanos (adultos) a tinham destruído com suas necessidades egoístas, deixando a gente sem nada.

Sem entregar muito da narrativa, é necessário exaltar as mensagens de esperança propagadas em Sweet Tooth. Como sempre estamos sob a ótica de uma criança descobrindo o “mundo fora de casa”, vemos que a sociedade deve aprender com erros do passado e adaptar-se para abraçar a (nova) raça humana, responsável pelo futuro. Em tempos pandêmicos ou não, temos o dever de exercitar o uso consciente de recursos naturais e, acima de tudo, prezar por relações pessoais.

Fato é que, quando a nova geração nasceu, a Terra se curou, pois as crianças “meio animais” não viviam à base da destruição de recursos.

Por fim, é inevitável termos a dúvida clássica quando falamos sobre HQs adaptadas em série: dá para assistir e entender tudo sem conhecer o material original? Com Sweet Tooth a resposa é sim, pois temos uma simplicidade à mitologia dos quadrinhos que a difere de Locke & Key ou The Umbrella Academy, por exemplo. Ler a obra e compará-la pode, inclusive, resultar em algo decepcionante, visto que o live-action não arrisca esbarrar em temas violentos e delicados que rodeiam a fonte de inspiração.

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Como 90% das séries do serviço, Sweet Tooth peca por ter uma “temporada piloto” com ganchos que suplicam por sua renovação. É evidente que a introdução a este vasto universo serve como aposta da Netflix, em busca de um sucesso que leve à segunda temporada.

A série Sweet Tooth está disponível na Netflix.