Muito depois da extinção dos humanos, estas criaturas instigantes ainda estarão vivas. Capazes de sobreviver no espaço e talvez uma das chaves para aprofundar a exploração espacial, os tardígrados frequentemente ganham as manchetes, ainda que não tenham entrado de vez no imaginário coletivo. Sua resistência em condições extremas intriga muita gente, e pesquisadores têm se debruçado sobre o microanimal em busca de respostas para várias questões, sejam elas evolutivas ou de como aperfeiçoar a empreitada humana no espaço.

Os tardígrados são animais minúsculos encontrados em ambientes marinhos ou de água doce. A maioria deles não chega a sequer 1 milímetro de comprimento, e eles têm um filo próprio por causa de suas características: o corpo é dividido em cabeça e mais quatro segmentos, dos quais partem quatro pares de patas. Essas patas, por sua vez, podem terminar em garras ou dedos.

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Também conhecidos como ursos-d’água, podem viver por até 60 anos, sobrevivendo metade desse tempo sem água ou comida, resistindo à exposição do vácuo do espaço e suportando temperaturas de até 150 ºC. Essas condições lhes renderam afirmações como a que abre este texto, e daí já dá para se depreender a importância de se estudar essas criaturas.

Frequentemente, nos deparamos com notícias de pesquisas relacionadas aos tardígrados, raramente vindas do Brasil. Mas existe, sim, trabalho científico sendo feito aqui no País em torno da minúscula criatura, e prova disso é que, recentemente, quatro espécies novas do urso-d’água foram descritas por aqui.

Em conversa com o Gizmodo Brasil, a bióloga Erika Cavalcante, membro do Laboratório de Meiofauna da UFRPE e especialista no estudo de tardígrados, explica que os tardígrados marinhos são organismos relativamente pouco estudados e com poucos especialistas, algo que está associado, geralmente, à dificuldade de se trabalhar com eles.

“Há apenas pouco mais de 200 espécies descritas para todos os oceanos (as outras quase mil espécies do grupo estão associadas à água doce)”, conta, apontando que isso, junto com a degradação dos ambientes costeiros, prejudica a descoberta de mais espécies, levando-se em conta a destruição de ambientes antes que se descubra que espécimes existiam ali.

Pesquisa no Brasil

Apesar do pouco destaque que recebem por aqui, existem espécies de tardígrado que apresentam registro apenas no Brasil. As espécies recém-descobertas, a título de exemplo, só puderam ser distinguidas das já conhecidas por apresentarem características morfológicas particulares.

“Em um dos casos, por exemplo, foi necessário modificar a diagnose (conjunto de características que define uma determinada espécie) no nível acima (gênero) para incluir características que não tinham sido observadas antes para este grupo”, explica Erika.

As quatro espécies recentemente descritas no Brasil foram: Batillipes brasiliensis, Batillipes dandarae, Batillipes potiguarensis e Ligiarctus alatus. Em sua maioria, elas foram coletadas na costa do nordeste brasileiro e em áreas de plataforma continental, mais especificamente nas praias Pedra do Sal (PI), do Amor (RN), do Sossego e do Forte Orange, na Ilha de Itamaracá (PE), do Patacho, do Francês e do Gunga (AL).

Praia Pedra do Sol, no Piauí, é um dos locais onde foram encontrados tardígrados no Brasil. Foto: Otávio Nogueira/Flickr/CC

“As três espécies de Batillipes, por fazerem parte do mesmo gênero, possuem características em comum, como seis dedos em cada pata, terminados em estruturas adesivas. Basicamente, o que as diferencia das outras espécies já conhecidas e entre si é o formato de algumas estruturas, como cauda e algumas projeções na lateral do corpo, além do formato e tamanho de órgãos sensoriais na cabeça e nas patas”, explica Erika.

Com as novas descobertas, o Brasil agora tem 28 espécies de indivíduos marinhos e 62 associadas à água doce. O país só foi retomar as pesquisas sobre os tardígrados mais recentemente, há “pouco mais de dez anos”, conta Erika. Porém, na década de 1930 e até o início dos anos 1950, havia estudos, com registros de ocorrência de espécies já conhecidas de outros lugares e que, na visão da bióloga, ainda merecem uma investigação mais aprofundada, além de atualizações. Algo que Erika acredita que vá acontecer.

“A área investigada ainda é muito restrita, por questão logística e disponibilidade de material”, avalia. Mas a especialista considera que a tendência seja de que isso aumente: “Com essa retomada, temos atualmente pesquisadores com este tema na UFRPE, Unicamp e UNB”.

Ciência de base e aplicações futuras

Estudos de ciência de base têm importância subjetiva, às vezes até superior à de aplicações tecnológicas imediatas. Ela não tem geralmente aplicabilidade direta em nossas vidas, mas o conjunto de informações que produz é importante para embasar outras pesquisas. No caso do estudo de tardígrados, pode-se até visualizar o que possíveis descobertas em torno da espécie poderiam significar a longo prazo no desenvolvimento e aprimoramento de pesquisas e tecnologias.

Erika destaca que a aplicabilidade médica e tecnológica das descobertas em torno dos tardígrados passa, por exemplo, por estudos bioquímicos em relação ao uso de algumas proteínas produzidas por eles e que protegem seu DNA. “Imagina algo como protegermos as células saudáveis de um humano para que um tratamento de quimioterapia ou de radioterapia só atinja as células anormais?”, vislumbra a bióloga, que também cita o uso de tardígrados como modelo para nanorrobôs, um conceito que Erika encontrou em um dos congressos internacionais a que compareceu. “As possibilidades dependem de criatividade do pesquisador, informação de base e investimento para isso.”

Em outras aplicações, o caminho para um dia sobrevivermos a ambientes com condições extremas, por exemplo, passa por estudar criaturas que já conseguem sobreviver a eles, e nenhuma espécie é objeto de estudo melhor nesse sentido do que os tardígrados. Essas criaturas são resistentes a ambientes de extremo calor, frio, estresse, pressão, fome, radiação e vácuo. Ambiente que, como você já deve ter pensado, aparecem aos montes no espaço.

No caso da radiação, por exemplo, cientistas da Universidade de Tóquio já descobriram que, em uma das espécies de tardígrado, a Ramazzottius variornatus, isso ocorre porque ela desenvolveu um conjunto de maneiras de lidar com situações de estresse. Um dos métodos inclui uma proteína que protege o DNA de danos por radiação. Além disso, num exemplo direto da busca pela reprodução dessas características nos humanos, os pesquisadores tiveram sucesso em transplantar essa proteína em células humanas cultivadas e descobriram que as propriedades protetoras permaneciam, descoberta que os levou a levantar a hipótese de que isso teria possíveis aplicações em métodos de preservação de células, terapias gênicas e até na ciência da transgenia (processo de alteração do material genético em uma espécie).

Exploração espacial

Para aprofundar a exploração espacial, os humanos vão precisar também aprimorar significativamente sua capacidade de oferecer assistência aos astronautas em viagens de longa duração. Estudar a resistência dos tardígrados é importante porque, por exemplo, algumas de suas características podem ser resultado da construção molecular e celular de sua pele externa.

Assim como na descoberta feita pelos japoneses, outras de suas características podem ser reduzidas a um ponto específico de seu organismo que poderia, posteriormente, ser replicado ou transplantado nos humanos, obtendo o resultado desejado. Isso, é claro, é uma perspectiva bastante otimista e, ainda assim, distante. Mas o que já foi descoberto é suficiente para que a importância de se estudar os tardígrados persista.

Entender completamente as estruturas por trás da resistência dos tardígrados não implica somente em transgenia e incorporação dessas características pelos humanos, é claro. Em uma perspectiva mais realista, já pode fazer uma grande diferença para a exploração espacial em termos de desenvolvimento dos equipamentos que enviamos ao espaço.

O trabalho atual de estudo dos tardígrados consiste em algumas etapas: levantamento de espécies, biogeografia, ecologia e filogenia. Daí, parte-se para a investigação molecular e experimentos fisiológicos, como testar a sobrevivência a condições extremas, do mesmo modo como já foi feita com algumas espécies, como a citada acima. Trabalhos voltados para a bioquímica, por sua vez, buscam entender que substâncias possibilitam essa sobrevivência em situações adversas extremas.

Erika Cavalcante avalia que ainda há muito trabalho para fazer e muito no que se inspirar, conforme vamos conhecendo mais sobre esses animais. “Boa parte desses experimentos foi feito com poucas espécies, principalmente das que habitam em água doce. Então, é possível repetir experimentos com outras espécies (inclusive marinhas), propor outros métodos, simular outras situações extremas que possam ainda não ter sido testadas”, encerra a bióloga.