Antes de mais nada, vamos esclarecer um negócio: “árbitro de vídeo” é só uma maneira simplificada que a imprensa brasileira encontrou de se referir ao complexo sistema por trás do VAR (Video Assistant Referee). Como o próprio nome sugere, não se trata de algum tipo de robô que assiste aos lances e informa ao árbitro, mas, sim, de um sistema que conta com árbitros de verdade, com o mais alto certificado Fifa e tudo o mais, na análise de imagens a partir de uma cabine no estádio. No fim das contas, teria sido melhor popularizar o termo “assistente de vídeo”.

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Não pretendemos aqui falar sobre o aspecto esportivo do dispositivo, deixando isso para os nossos irmão da Trivela, mas, sim, do lado tecnológico por trás da novidade. Ainda assim, é bom esclarecer que o VAR não é utilizado em todas as situações de jogo, mas apenas em algumas específicas: gols e irregularidades que levam a gols, decisões de pênalti, cartões vermelhos e de confusão de identidade de jogadores (como na aplicação de cartão).

Para observar atentamente à partida e analisar essas situações, a Fifa conta com uma equipe dedicada de árbitros com o maior nível de certificação, todos posicionados em uma cabine de vídeo. São ao todo quatro profissionais: um principal, além de três assistentes.

A cabine conta com diversas telas, uma delas a principal. O líder da equipe de auxiliares de vídeo é identificado pela Fifa como VAR, sendo o responsável de observar a tela principal e checar e rever incidentes em um monitor cuja tela é dividida em quatro partes. Além disso, é claro, ele faz a ligação entre a equipe de arbitragem de vídeo e a principal, posicionada no campo.

O VAR é assistido por três outros árbitros na cabine: o AVAR1 fica de olho na câmera principal, aquela das transmissões na TV, e informa o VAR sobre a checagem de algum incidente. O AVAR3, por sua vez, assiste aos diferentes ângulos registrados por várias câmeras e ajuda o assistente de vídeo principal na interpretação dos lances, além de fazer uma ponte de comunicação entre o VAR e o AVAR2. Este, por fim, é o assistente posicionado na estação de análise de lances de impedimento. Ele fica de olho em potenciais lances de impedimento, acelerando a checagem do VAR.

A disposição de telas por cada integrante da equipe de assistência em vídeo (Captura de tela: Fifa)

No caso do AVAR2, que revisa lances de impedimento, é importante apresentar uma outra tecnologia: a linha de impedimento virtual.

Um software de computador sobrepõe linhas virtuais de impedimento na imagem da transmissão. Para calcular a posição dessas linhas, vários fatores são levados em conta: distorção de lente, ângulo de visão e curvatura do campo, entre outros. Essas linhas são criadas com precisão graças à calibração de vários ângulos de câmera sincronizados. Por exemplo, múltiplas câmeras triangulam parte do corpo do jogador para determinar a posição de impedimento no caso de um atleta estar com o tronco inclinado em posição irregular. Se parte de seu corpo estiver escondida em uma ou outra câmera, outros ângulos dão conta de capturar o posicionamento correto desta parte do corpo.

De volta à comunicação entre árbitros, a Fifa usa um sistema completamente integrado entre todos os integrantes da arbitragem de um determinado jogo. Os equipamentos incluem unidades de rádio resistentes à água e headsets com cancelamento de ruído e de fácil alternância entre frequências, controle de volume e uma criptografia robusta, para evitar interferências.

Uma vez definida a necessidade de contato com o árbitro principal em campo, este é chamado e, com um movimento de aproximação da mão ao ponto no ouvido, indica que está conversando com o assistente de vídeo. A Fifa aponta em seu site dois tipos de situação da “entrada em jogo” do VAR: conselhos do VAR e revisão em campo. No primeiro caso, o árbitro contata os assistentes para esclarecer incidentes factuais, como posição de impedimento, bola que ultrapassou a linha lateral e a posição dos jogadores em momentos de falta: dentro ou fora da área. Já a revisão em campo, em que cabe interpretação, o árbitro principal revê faltas cometidas por atletas de ataque, interferência de impedimento, faltas que levaram a um pênalti e incidentes de cartão vermelho direto.

A decisão final é sempre do árbitro principal, que, como pudemos ver, com ela tomada, retorna ao campo, sinaliza uma TV com os dedos para anunciar sua escolha, e então ela é aplicada.

GIF: Divulgação/Fifa

Em meio a tudo isso, a Fifa mantém contato também com os detentores dos direitos de transmissão dos jogos. Um funcionário da instituição informa esses profissionais de transmissão, passando informações como a razão para a revisão e então o resultado da revisão, por meio de um tablet.

O operador do tablet tem acesso à comunicação entre os árbitros, às câmeras e fica também na cabine de vídeo. O sistema de informação do VAR então cria automaticamente templates gráficos para serem exibidos nas TVs dos telespectadores e também no telão do estádio.

Tecnologia da linha do gol

Imagem: Reprodução

Menos passível de discussão e mais antiga do que o VAR é a tecnologia da linha do gol. Sua estreia em Copas do Mundo foi na edição anterior, no Brasil, e seu funcionamento é simples: um sistema trabalha com câmeras que detectam a bola, usando um software para avaliar os registros de todas as câmeras. Os sistemas atuais, segundo o site da Fifa, contam com sete câmeras para cada gol, instaladas o mais alto possível dentro da estrutura do estádio.

Para complementar, um sistema opera campos magnéticos, com cabos posicionados debaixo do solo e em torno do gol. A bola conta então com receptores em seu interior, e uma interação entre esses receptores e os campos magnéticos criados pelos cabos informam ao software se a bola cruzou ou não a linha do gol. Caso isso tenha acontecido, o árbitro recebe, dentro de um segundo, um aviso em seu relógio de que a bola, de fato, cruzou a linha.

Imagem do topo: Divulgação/Fifa