Um teste com mais de uma dúzia de cartuchos THC (tetraidrocanabinol, a substância psicoativa da maconha) para vaporizadores (ou vapes, se você preferir) feito pela rede NBC News nos EUA estava contaminado por pelo menos um aditivo tóxico, incluindo um produto ligado à misteriosa doença causada por cigarros eletrônicos, que acometeu centenas de pessoas.

O relato vem em meio a uma crescente crise de saúde que se acredita estar relacionada ao vaping. Na última quinta-feira (26), o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) revelou que já registrou 12 mortes por uma doença pulmonar incomum que parece estar ligada ao vaping, e 805 confirmaram casos prováveis da doença.

A NBC News destaca o caso de Fabian Castillo, de 19 anos, que ficou em coma por nove dias devido a graves danos sofridos no pulmão após vários meses de uso que ele acredita ser um cartucho de THC pirata. Ele está em recuperação há oito semanas, mas ainda há problemas em respirar fundo.

A rede de TV norte-americana utilizou a instalação de testes de cannabis CannaSafe para executar testes em 18 cartuchos de THC — o principal composto psicoativo da cannabis.

Três amostras compradas de locais legais testaram negativo para pesticidas, metais pesados e solventes.

Já outras 15 amostras foram compradas no mercado paralelo. Destas, 13 cartuchos continham vitamina E, 10 traços de pesticidas e todos eles continham o fungicida myclobutanil, que pode se transformar em cianeto de hidrogênio quando é queimado.

O vice-presidente de operações da CanaSafe, Antonio Frazier, compartilhou a observação óbvia de que isso é muito ruim. “Você certamente não quer fumar cianeto”, disse Frazier à CNBC. “Acho que ninguém compraria um cartucho com o rótulo de cianeto de hidrogênio”.

No início deste mês, o Departamento de Saúde do Estado de Nova York disse que sua própria investigação sobre doenças relacionadas ao vape descobriu que o acetato de vitamina E estava em quase todos os produtos vape com THC usados por pacientes doentes que eles testaram. Pouco se sabe sobre os efeitos exatos da vitamina E nos pulmões, mas Sven-Eric Jordt, pesquisador da Universidade Duke, que estuda os efeitos do vaping na saúde, disse ao Gizmodo que existem evidências suficientes para mostrar que a combinação de vitamina E em vaporizadores (vaping) pode ser extremamente perigosa.

“Se inalado em quantidades suficientes, certamente poderia causar problemas respiratórios, talvez até pneumonia lipídica, uma inflamação pulmonar associada à inalação de óleos”, disse Jordt ao Gizmodo. “É um antioxidante e pode queimar e desintegrar-se quando aquecido em um cigarro eletrônico, liberando substâncias tóxicas”.

À medida que a comunidade de saúde continua a descobrir o quão perigoso é o vaping, está se tornando cada vez mais aparente que o THC e os vapes de maconha são um risco à saúde pública. O CDC relata que, de todas as pessoas que relataram ter doenças pulmonares que parecem estar ligadas ao vaping, 77% dos casos relataram usar vapes contendo THC. E não sabemos quantos dos entrevistados simplesmente não querem admitir que fazem algo ilegal ou que seja um tabu (lembrando que em vários lugares nos EUA o uso recreacional da maconha é legalizado). Talvez essas descobertas encorajem as autoridades a se concentrarem na regulação da maconha legalizada em vez de deixar a segurança para os vendedores do mercado paralelo.

Importante lembrar que os cigarros eletrônicos não são regulados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no Brasil. Segundo a agência brasileira, eles não têm autorização para ser vendido aqui, pois “não têm a segurança comprovada para sua utilização”. Mesmo assim, é possível achar vapes e cartuchos no mercado paralelo. Por ora, não há relatos de doenças causadas por cigarros eletrônicos no Brasil.