O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição neurobiológica complicada causada por uma variedade de fatores de risco, incluindo os nossos genes e ambiente, que interagem de uma forma que ainda não entendemos muito bem. Os sintomas são variados – podem ser desde problemas para interação social, passando por dificuldade de falar em público ou até mesmo dificuldade de processar sensações.

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Essa complexidade se estende até na forma em que a doença é diagnosticada: crianças podem começar a mostrar sinais visíveis de autismo com 18 meses, mas não há um único teste clínico que pode diagnosticá-lo. Geralmente, leva anos para confirmar a suspeita, o que pode retardar o tratamento.

Uma nova pesquisa, publicada neste domingo (18) no periódico Molecular Autism, pode oferecer um dos primeiros passos necessários para o desenvolvimento de um teste sanguíneo preciso para atestar a condição. E durante a jornada, também poderá ajuda a entender melhor por que o autismo acontece.

Pesquisadores europeus analisaram o sangue e urina de 38 crianças italianas diagnosticadas com TEA e comparou com um grupo de controle de 31 crianças que não tinham autismo. As crianças com autismo tinham 7 anos e meio, na média. Entre elas, foram encontrados sinais de danos a determinadas proteínas encontradas no plasma do sangue que eram causadas por processos complexos que envolvem o oxigênio ou a glicose.

Então eles criaram quatro diferentes algoritmos de previsão que tentou atestar se uma criança tinha TEA ou não, baseando-se na presença desses biomarcadores. Entre outras coisas, o algoritmo mais bem sucedido procurou por altos níveis de uma molécula chamada ditirosina, que aparece quando proteínas são alteradas por radicais livres contendo oxigênio (um processo conhecido como oxidação) e produtos finais da glicação avançada (AGEs, na sigla em inglês), que são proteínas ou gorduras que foram alteradas com o contato coma glicose.

Esses algoritmos previram se uma criança tinha autismo com uma precisão de 90%. Para os não autistas, a precisão foi de 87%.

“Nosso teste espera melhorar a precisão dos diagnósticos de TEA dos 60-70% atuais obtido por especialistas em doenças neurológicas para aproximadamente 90% de precisão para ser potencialmente oferecido em hospitais bem equipados com ou sem grande expertise em doenças neurológicas”, disse ao Gizmodo a principal autora do estudo, Naila Rabbani, bióloga da Universidade de Warwick no Reino Unido.

Além de formar a base do teste de diagnóstico, os pesquisadores acreditam que suas descobertas sugerem que o desenvolvimento de AGEs e a oxidação possam ajudar a figurar entre os sintomas associados com o autismo. Crianças com TEA em seu estudo também tinham mais probabilidade de mostrarem sinais de que seus neurônios tinham menos aminoácidos disponíveis.

Isso parece reafirmar uma teoria popular de que alguns casos de autismo podem ser provocados por ter uma rara mutação genética, que faz com que as proteínas responsáveis pelo transporte de aminoácidos se tornem disfuncionais.

“Nossas descobertas são coerentes com a inflamação de baixo nível em TEA e também com o distúrbio na entrega de aminoácido aos neurônios – este último já foi sugerido em estudos associados a genes”, disse Rabbini. “Não estudamos nenhuma relação com vacinas e não podemos comentar sobre isso”, adicionou.

O time de Rabbini não é o primeiro que tenta encontrar biomarcadores para o autismo no sangue – pesquisas similares estão acontecendo em outros lugares, com resultados tão encorajadores quanto esse. Além de testar o método em grupos maiores, Rabbini e seus colegas planejam estudar o sangue de crianças ainda mais jovens, para ver se os biomarcadores também podem ser utilizados para prever o quão severo será o progresso do autismo.

“O teste está patenteado e estamos buscando parceiros comerciais para continuar o desenvolvimento, realizar a aprovação regulatória e disponibilizá-lo clinicamente”, disse Rabbini.

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) estimam que uma a cada 68 crianças americanas tenha autismo, embora uma pesquisa de 2015 tenha colocado a taxa em uma a cada 45. Com base nos dados do CDC, estima-se que o Brasil, com seus 200 milhões de habitantes, possua cerca de 2 milhões de autistas.

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