Torres de poeira em expansão podem atingir alturas de 80 quilômetros durante tempestades de poeira em escala global em Marte, de acordo com uma nova pesquisa. Agindo como um elevador espacial, o fenômeno pode explicar como a água escapou do Planeta Vermelho durante seu passado antigo.

Na Terra, as tempestades tendem a ser eventos altamente localizados, mas as coisas são um pouco diferentes em Marte. Cerca de uma vez a cada década, Marte experimenta uma colossal tempestade de poeira que afeta o planeta em escala global. Conhecidas como eventos de poeira que circundam o planeta (PEDEs, na sigla em inglês), essas tempestades afetam o clima do planeta por meses a fio. Uma dessas tempestades ocorreu em 2018 e envolveu todo o planeta, lançando-o em uma névoa amarelada e pondo fim à missão da sonda Opportunity da NASA.

Dois novos artigos de pesquisa (aqui e aqui), liderados por Nicholas Heavens da Universidade Hampton e do Instituto de Ciências Espaciais, analisaram um estranho fenômeno meteorológico que ocorre durante essas tempestades em todo o planeta: enormes torres de poeira que sobem para a atmosfera superior, com algumas colunas atingindo alturas de cerca de 50 milhas (70 quilômetros). Os novos estudos, publicados no Journal of the Atmospheric Sciences e JGR Planets, estão fornecendo novos insights sobre essas enigmáticas torres de poeira e como elas possivelmente contribuíram para a perda de água em Marte.

Heavens e seus colegas estudaram um par de PEDEs, um de 2007 e outro do ano passado, para aprender mais sobre essas tempestades de poeira, observando os dados coletados pelo Mars Reconnaissance Orbiter (MRO) da NASA. Este satélite está equipado com um instrumento especialmente projetado, o Mars Climate Sounder com sensor de calor, que pode penetrar através de grossas camadas de poeira. Os cientistas também analisaram imagens das torres tiradas pelo Mars Context Imager (MARCI) da sonda.


Comparação lado a lado de Marte, mostrando o planeta em condições normais (à esquerda) e durante a tempestade de poeira em escala global de 2018 (à direita). Gif: NASA/JPL-Caltech/MSSS

Como mostra a pesquisa, as torres de poeira são mais densas e mais concentradas do que as nuvens usuais de poeira que existem na atmosfera marciana, e também atingem alturas muito maiores. Essas colunas gigantescas e agitadas podem ocorrer quando as condições são normais em Marte, porém mais delas se formam durante os PEDEs, de acordo com a nova pesquisa.

Essas torres começam na superfície como áreas de poeira que sobem rapidamente, algumas tão largas quanto o estado de Rhode Island. A luz do sol aquece essas nuvens de poeira, fazendo com que as plumas flutuem para o céu marciano, em um processo semelhante ao modo como o calor do vapor de água condensado alimenta tempestades na Terra. Em alturas de cerca de 70 quilômetros, as torres podem aumentar de tamanho atingindo a mesma largura de Nevada. Durante a fase de desintegração, “ela pode formar uma camada de poeira a 56 quilômetros acima da superfície que pode ser mais larga que toda a área continental dos Estados Unidos”, de acordo com um comunicado de imprensa da NASA .

Diferentemente da tempestade observada em 2007, na qual as torres de poeira duraram cerca de um dia ou dois, o PEDE de 2018 produziu torres que duraram quase quatro semanas.

Isso é significativo, porque o vapor de água preso na poeira também pega carona nesses fenômenos – alguns dos quais podem estar vazando para o espaço. Essas torres de poeira podem estar atuando como um sistema de transporte para outros materiais e gases, incluindo o vapor de H2O. Em 2007, os cientistas observaram que as moléculas de água estavam sendo levadas à atmosfera superior de Marte e em alturas em que a radiação solar faz com que essas moléculas se separem e flutuem no espaço. Isso é, muito possivelmente, uma pista de como Marte perdeu toda a sua água, que antes preenchia lagos e rios.

No futuro, os pesquisadores gostariam de aprender mais sobre as torres de poeira e como elas se formaram, e seu possível papel na remoção de água da atmosfera de Marte.