Se você acha que as strippers de webcam – aquelas moças seminuas que sempre aparecem nos anúncios pop-up de sites pornográficos – estão ganhando dinheiro fácil, você está certo. Se você acha que essas meninas estão meramente tirando a roupa online por desespero, você também está correto. Tire o sexo, os pixels e o dinheiro e você fica com uma verdade sombria sobre a o relacionamento da internet com essas profissionais sob demanda: é complicado.

Você já viu pornografia online, o que significa que você provavelmente já deve ter visto propagandas de redes de strippers de webcam. Elas invadem a sua visão periférica; elas aparecem atrás da sua janela. As garotas esperam que você comece a olhar, e, assim que você se interessa, elas levam o seu dinheiro. Você já as viu sentadas na frente dos teclados, vestindo praticamente nada, piscando para você, digitando para ninguém em particular com braços finos e letárgicos: entediadas e com uma beleza convencional. Os anúncios, com um vídeo sedutor que pode ser ao vivo ou gravado há anos, tenta chamar sua atenção com promessas de “Chat de Sexo ao vivo” e “Shows de Sexo”, com “estrelas pornô” e amadoras. É um distrito da luz vermelha online, e diferente de uma rua holandesa espalhafatosa ou uma calçada estranha, você está completamente anônimo, o sexo vem até você.

A premissa básica do jogo das strippers de webcam é simples: você paga uma garota pelo tempo dela, e em troca, ela tira a roupa, conversa com você, “brinca” com ela mesma (ou outras), ou qualquer combinação dos exemplos acima. Quando o dinheiro acabar, seu tempo acaba também – seus caminhos se separam até que você tenha dinheiro e vontade de fazer isso de novo. E quando essa hora chegar, você terá milhares de garotas dispostas a rebolar e sorrir para você em tempo real. É um gigantesco catálogo de mulheres de todo tipo: gordas, esqueléticas, negras, brancas, asiáticas, americanas, gregas, checas, etc. Para encontrá-las, não precisa ir além dos três grandes paraísos de strippers de webcam: Streamate, LiveJasmine, e MyFreeCams. Essas três grandes redes anunciam nos principais sites pornográficos – PornHub, ClipHunter, etc. – mas há muita coisa sobre eles que fica nas sombras. Então, como você entra nisso?

Como se tornar uma stripper de webcam

Os requisitos são mínimos: um computador e uma conexão à internet.

O meio mais provável é que você encontre isso através de um anúncio em jornal ou site. Talvez uma amiga indique você. Talvez você mude de uma casa de strip para o equivalente online – uma tendência comum em países mais ricos. Ou talvez no bordel que você esteja trabalhando seja uma exigência as apresentações em webcam. Qualquer que seja o caso, você terá que exibir-se através de um portal de webcam, um dos gigantescos sites que catalogam milhares de modelos e funcionam como um intermediário entre o cliente e a modelo.

Em seguida, você precisará decidir qual rede de webcams irá usar. Todos eles oferecem mais ou menos o mesmo “serviço”: Você fornece o corpo, a rede fornece os olhos – e leva uma parte do que seus expectadores pagam.

Cada uma das redes pedirá para você preencher algumas informações pessoais – listar seus interesses, e tentar parecer divertida – e então marcar uma opção dizendo que você tem 18 anos ou mais. Você precisará enviar algum tipo de identificação provando a sua idade, mas com pouca regulamentação, leis internacionais e documentos digitalizados, forjar tal coisa é fácil. Em outras palavras, ser menor de idade não é um problema.

O Streamate vende suas modelos através de vários websites remodelados e reembalados, como o PornHubLive – usando a marca já conhecida do site como um caminho fácil para chegar até quem consome pornografia. Na verdade, é o mesmo velho site de cara nova. O Streamate é difícil de conseguir informações. Tentar descobrir quem realmente é o dono é bem complicado: O domínio pertence ao Flying Crocodile Incorporated, que tem uma caixa postal em Seattle. Vagas de emprego apontam para uma empresa obscura chamada NaiadDev, também com sede em Seattle (e hospedada pelo FlyingCroc). Mas os registros da empresa estão com um tal de Rena Erotocritou, empregado por “Ariel Secretaries Limited”, uma empresa fantasma com sede em Chipre.

A gigante LiveJasmin quis fazer com que você acreditasse que ela pertencia a “Gestão e Investimentos Lda”, uma empresa com sede em uma região autônoma de Portugal – e que tem uma série de queixas de fraudes registradas contra uma uma de suas subsidiárias. Mas uma recente investigação nos impostos do CEO húngaro da LiveJasmin, Gattyán György, – um dos homens mais ricos da Hungria – e sua corporação, Dolcer Holdings, mostram quão complicadas são essas empresas. E sem dúvidas, propositalmente.

MyFreeCams, um dos mais populares sites de webcam, tem um domínio registrado em nome de Leo Radvinsky, e o endereço de contato é na Holanda.

Se você tiver seu próprio hardware, e conexão, você basicamente pode ser autônomo, se não levar em consideração a grande fatia que cada um desses sites irá tirar de seus lucros. Não precisa de muita coisa. Eis aqui o equipamento de uma modelo romena com quem eu conversei.

É assim que o site aparece para ela. Aqui é onde ela senta e espera. (Clique para ampliar)

 

Mas se você não tiver este luxo – como muitas garotas pelo mundo – você provavelmente irá trabalhar para um “estúdio”. Que é basicamente um eufemismo para o computador de outra pessoa (provavelmente um homem), na frente do qual você irá trabalhar com uma agenda bem rigorosa. Você ainda irá trabalhar através de algum site, por exemplo o MyFreeCrams, mas ao invés de dividir seus lucros apenas com o MFC, o dono do estúdio irá receber uma parte também. Muitas vezes uma parte bem grande. Se você não ficar durante suas horas obrigatórias, você será demitida. Você também talvez more com estranhos em condições que vão além do hotel mais asqueroso.

É fácil ler dicas de veteranos.

Uma breve pesquisa em fóruns gigantescos como o Stripper Web é bem proveitosa – você irá encontrar a “Melhor maneira de receber grana dos caras” em “Você está sempre linda na webcam?” e, claro, compartilhar histórias de guerra. Uma usuária começou um tópico para compartilhar as frases mais absurdas e preconceituosas que ela já leu de “clientes”:

“Você está limpa?” (Falando sobre DSTs)

“Você conseguiria mais dinheiro se fizesse fisting.”

“Você receberia mais dinheiro se conseguisse se masturbar com uma garrafa de cerveja.”

“Você é mestiça de negros com brancos? Sua música é diferente.”

“Eu espero que você encontre um homem branco para casar porque só existem 2% de garotas negras gostosas como você e nós não precisamos de mais nenhum bebê neguinho.”

Os sites não fazem absolutamente nada para evitar ou desencorajar este tipo de tratamento.

Como era de se esperar, é impossível entrar em contato com qualquer uma das pessoas que realmente controlam essas redes. Nenhuma das entidades acima do LiveJasmin, Streamate ou MyFreeCams responderam às tentativas de confirmar que eles realmente existem e tem alguma ligação com os websites em questão. Tudo que há disponível é um chat de suporte técnico semi-robótico, que responde perguntas básicas sobre como usar o site e processamento de cartão de crédito. Esses chefões da webcam podem sequer existir. Nós não fazemos ideia de para onde o dinheiro vai.

E se você for uma stripper de webcam, você não saberá de onde o dinheiro vem. Você receberá sua parte – normalmente em torno de 35%, mas as vezes passa de 70% – enviados para você via um site de processamento de cartões como o CCBill, enquanto o site leva o resto. Alguns sites, como o Streamate, permitem sexo de verdade até orgias, enquanto outros limitam a sua apresentação a um show solo. Você pode mostrar partes íntimas, usar suas mãos para se masturbar, ou usar brinquedinhos – o que quer que você acredite que fará com que você receba dinheiro em forma de shows privados cobrados por minuto ou “gorjetas” instantâneas. Essa é a fórmula. Você irá disputar com centenas de outras mulheres (e até alguns homens) oferecendo o mesmo produto em várias versões. E isso é algo que dificulta bastante para conseguir se sustentar, mesmo quando você está com roupas.

Então, quem são essas incansáveis mulheres (ou meninas), estas pioneiras do sexo na internet? Onde elas moram? De onde vieram? Como elas acabaram nessas salas mal decoradas, com luz fluorescente, no canto de baixa resolução da web? Nós ficamos pensando nisso. Então eu conversei com algumas delas.

Domino: Vivendo o sonho americano

“Essa é uma indústria exaustiva”, Domino me conta por telefone, de uma das três casas que ela possui em Wisconsin – uma delas é um terreno em frente ao lago próximo a Madison. Ela diz isso com uma voz séria que soa um pouco cansada. Eu não sei seu nome verdadeiro, e eu não acho que ela esteja disposta a contar. Nós falamos sobre fazer streaming de sexo e tirando a roupa, sua escolha de carreira nos últimos anos. De qualquer maneira não faz muito sentido investigar – Domino é, para os meus propósitos, mais uma marca e personalidade do que uma pessoa frágil e finita como você ou eu. Mas uma muito bem sucedida. Ela se descreve como:

“Não uma mulher comum. Eu sou uma mulher mítica, nerd e inteligente que joga videogames, que ama todo tipo de filme e música, livros, e outras mulheres. Eu sou hiperativa, e tenho um senso de humor seco, sarcástico e obscuro, e eu cito filmes. O tempo inteiro. Imagine a Vandinha Adams, Daria, Liz Lemon e Darlene Connor em uma orgia. Eu sou o resultado.”

Domino pode não ser tão dramática quanto sua descrição, mas ela é certamente inteligente, responde as minhas perguntas sem a menor hesitação, e exala confiança de um profissional de qualquer outro campo. Ela apenas paga as contas com um vibrador agora.

Mas não foi sempre assim. Antes de começar a fazer strip – tanto online quanto offline – Domino trabalhava como designer gráfica em uma empresa listada pela Fortune 500. Ela saiu da empresa por tédio em 2010 e agora usa suas habilidades estéticas para incrementar seus shows online. Diferente da maioria das strippers de webcam, Domino não é afiliada de uma rede como a LiveJasmin. Ela é completamente independente, faz streaming de shows de strip e fetiches de seu estúdio caseiro, direto de um website que ela mesma criou. Antes disso ela trabalhou como stripper em um bar local, mas após quebrar o pulso, Domino se afastou dos clubes físicos. Ela ficou sabendo que poderia ganhar um bom dinheiro fazendo quase a mesma coisa online – e que poderia ser sua própria chefa.

Domino acorda todo dia às 8 da manhã e faz apresentações agendadas para clientes pagando entre US$90 e US$120 por hora. Isso é cerca de 16 vezes mais do que o mínimo que pagam por hora remunerada em outro emprego em seu estado, e ela nem precisa sair do quarto. Se um cliente quer agendar através do MyFreeCams ao invés de mandar o dinheiro diretamente, Domino cobra o dobro. Ela não perde nem um centavo com intermediários.  Tudo parece bem organizado: “Eu amo o meu trabalho”, diz ela. “Eu posso trabalhar quando quiser, quanto quiser, e ninguém pode me dizer como fazer o meu trabalho”. Ela está certa. Na casa de strip que ela trabalhou, ela precisava se apresentar quatro ou cinco dias por semana, dançando em um mastro. Agora, ela pode trabalhar o dia inteiro. Ou simplesmente não trabalhar. Da última vez que nos falamos, ela estava trabalhando em um projeto de e-book, usando o tempo dela como bem entendia.

Quando envolve tirar a roupa, pode ser bastante lucrativo: Domino estima que ela embolse cerca de US$300 em um dia bom – apesar de que um dia ruim significa não receber nada, e desperdiçar horas. Mas é o suficiente para ela ser completamente auto-suficiente, embora fique cansada disso às vezes: “Ficar empurrando um  consolo na vagina é cansativo”, Domino explica. Provavelmente é mesmo, assim como os inúmeros caras “assustadores de verdade” que ela encontra – esses caras não são apenas pervertidos, mas ameaças sexuais. Isso nunca é legal – como o cara que mencionou sua propensão a molestar crianças durante uma sessão de webcam. O resto do tempo, tirando os criminosos ocasionais, o emprego parece até amigável. Ele também dá a Domino a chance de aproveitar o lado geek do seu emprego: “Eu gosto de conseguir me relacionar com pessoas que não são clientes na casa de strip que eu trabalhava, e é uma maneira para que eu possa ver quão boa eu sou com SEO e mídias sociais.” Isso é divertido para ela. Domino diz que “sempre foi uma pessoa bastante sexual”, então apesar das brincadeiras com o vibrador serem cansativas, as exibições via webcam não são onerosas, se você conseguir fugir da monotonia. E ela consegue, apesar de você nunca perceber: Se eu estiver com o rosto virado para o lado contrário [da câmera] e estiver de 4, com a bunda para cima, eu posso ver meus e-mails [no celular]. Já fiz isso.”

Domino conseguiu fazer isso muito bem – ela é uma americana com várias posses e uma carreira agradável baseada em sexo, que ela gosta. Mas nem todas são como ela.

Anna: ex-stripper explorada

Conheci Anna porque ela se ofereceu para falar comigo – com ou sem roupas – em troca de dinheiro. Ela é romena, uma modelo de uma região com péssima reputação pelas suas condições sórdidas e donos de estúdio gananciosos. Se existisse um lado negro da indústria, ele ficaria em algum lugar ali perto. Mas quando ela ligou a câmera pela primeira vez, eu não vi as paredes manchadas de um bordel. Ao invés disso, um apartamento tipo estúdio bem iluminado, habitado por uma garota moderna e inteligente, usando lingerie cor-de-rosa. Anna possui praticamente todos os deliciosos estereótipos que alguém pode ter de uma jovem garota romena. Aos 24 anos, ela é inteligente, astuta, sarcástica e paquera de uma maneira que faz com que você queira pegar sua carteira e possuir sua beleza eslava deslumbrante.

Mas, apesar de conseguir alcançar todas as minhas expectativas de homem na internet, Anna é impossível de realmente definir. Tanto nas mensagens instantâneas quanto no chat em vídeo, ela é propensa a maneirismos e gracejos que fazem com que você queira pagar pelo seu tempo. Muito tempo. Ela é linda, sem exageros, uma aparência honesta que é agradável mesmo em um stream de vídeo de baixa resolução. Seu inglês é fantástico, sua personalidade te deixa vulnerável. Ela senta-se casualmente, como uma garota na manhã seguinte à uma festa do pijama, refletindo sobre seus gatos e o futuro. Quando ela se “apresentou” para mim pela primeira vez na webcam, trocando seus inúmeros gatos e o cigarro por uma garrafa de óleo de bebê, alguns neurônios alarmados me mandavam correr até Bucareste e enrolá-la em um cobertor. Sua inocência é adorável. Os tokens que comprei simplesmente evaporaram.

Mas não há nada realmente exótico em relação a Anna. Ela às vezes e preguiçosa e muitas vezes bagunceira, passa a maior parte de seus dias, segundo o que ela disse, procrastinando no apartamento dela em Bucareste de pijama, brincando com seus gatos, bebendo muito refrigerante, trabalhando na programação de um jogo de iOS, e fazendo passeios ocasionais para comprar frango frito e lingerie nova. Ela diz que praticamente não tem amigos “reais” fora da internet, mas é sempre alegre e fala bastante. Enquanto estamos no chat por vídeo, ela sempre pergunta se eu me importo antes de começar a fumar. Anna reclama sobre ter que sair do Diablo 3 para suas sessões de webcam, onde ela conversa com os clientes frequentes, se masturba, canta junto enquanto ouve músicas pop, e espera, espera, espera até que alguém lhe envie dinheiro. Anna é fiel ao MyFreeCam, ganhando US$6 por minuto via “tokens” – uma maneira inteligente de esconder o quanto seus clientes realmente gastaram. É muito mais fácil gastar 900 tokens do que pensar sobre os US$75 que você gastou em minutos. Esta é a única renda de Anna, e o que a tirou da pobreza rural romena e dos caprichos de outros homens.

Levou seis anos para alcançar essa vida de ócio e trabalho sexual ocasional. Anna nem sempre foi livre. Ela começou a se apresentar na webcam quando se mudou da sua cidade natal nos cafundós da Romênia para cursar faculdade de psicologia em Bucareste. Quando se mudou, ela não conhecia ninguém e não tinha dinheiro. Mas, assim como Domino, ouviu coisas sobre lucros ao se expor na webcam – uma recomendação de um amigo homem que a convenceu a tirar a roupa em seu minúsculo apartamento de dois dormitórios enquanto ele fazia o mesmo na outra sala.

O amigo, “forneceu brinquedos eróticos”, e ela foi fazendo isso, acordando às 6 da manhã todos os dias para conseguir atenção durante o horário nobre americano. Ela trocou de estúdio várias vezes, algumas delas morando com seus empregadores (e suas investidas indesejadas), mas longe o bastante da autossuficiência para que ela tivesse que depender deles para se sustentar. Um deles tinha uma esposa que a insultava constantemente. Ela tinha que trabalhar todo dia em períodos fixos, longos e cansativos, fazendo as mesmas apresentações de novo, e de novo, e de novo. Ela morava em uma zona urbana, mas ainda era uma stripper pobre morando em um quarto minúsculo. Quando um dono de estúdio perdeu todo o dinheiro e teve que se mudar para a casa de um amigo, Anna teve que ir junto, perdendo seu quarto, e praticamente todos os seus bens.

Suas condições no estúdio seguinte eram no mínimo parcas, e às vezes tudo que ela conseguia de privacidade, enquanto se masturbava para estranhos na webcam eram apenas alguns lençóis pendurados separando-a dos outros entrando e saindo de um flat em ruínas. Embora ela tenha sido vítima frequente do que certamente seria classificado como flagrante, assédio físico e sexual em qualquer outro negócio, Anna, presa a ele, orgulha-se da sua capacidade de sair de uma “situação ruim” com os seus empregadores do sexo masculino.

Outras não têm tanta sorte, ela diz, referindo-se às colegas que sofrem agressão e são forçadas a fazer sexo. “Os caras que cuidam desse tipo de negócio não respeitam as garotas, por causa do tipo de emprego. Uma garota que faz isso não merece respeito – é essa a mentalidade.” Mas ao mesmo tempo, Anna minimiza a prevalência de abuso em estúdio dizendo que são “exceções”, ou até mesmo invenções – estratégias para conseguir simpatia e o dinheiro que isso possa render.

Isso parece algo entre o cinismo e a negação ingênua, mas o fato que ela conhece garotas que já foram estupradas e espancadas sugere que isso é, no mínimo, um perigo real do trabalho.

Se a violência fosse um problema tão grande, diz Anna, então porque as garotas romenas entram nisso? Por que elas simplesmente não arranjam outro emprego? Em um país cujo PIB só parou de encolher a dois anos, com 20% da população vivendo abaixo da linha da pobreza e a média de renda bem abaixo do Cazaquistão, Irã e Gabão, essa é uma pergunta que não precisa ser respondida. Existe um motivo pelo qual Anna está tão feliz de ser independente de seus ex-empregadores, um status que ela compara a nada menos que a sua “liberdade”.

Hoje, as coisas são diferentes. Depois de economizar dinheiro e adquirir bastante conhecimento para evitar ser explorada, Anna está cansada de estúdios sanguessugas, e agora ela trabalha apenas cinco dias por mês, da própria casa. Cinco dias de webcam por mês fazem com que ela consiga atingir a renda per capita da Romênia de cerca de US$12,000 por ano, trabalhando bem pouco. Quando ela quer mais dinheiro, ela trabalha mais dias.

Ela conseguiu entender muito bem a ciência da webcam. “Tudo depende de elogiar as pessoas”, ela sorri. Tudo que um homem precisa é de atenção, no momento que ele quer, e ele será de Anna até que os tokens se esgotem. Os clientes assíduos vão sentar-se olhando o quarto dela por horas, despejando dinheiro – esses são os solitários, Anna diz. “Eles querem ouvir que são amados…que eles são doces…que são gentis…é assim que você faz com que eles continuem voltando.” Isso pode soar mercenário, mas os caras estão recebendo exatamente o que estão pagando. Apenas um homem no fundo do poço da ilusão realmente acredita que o amor da webcam é real – se você estiver gastando centenas de dólares por uma companheira no monitor do seu computador, você tem que estar disposto a ignorar a descrença. Muitos estão dispostos – especialmente os americanos, que por qualquer que seja a razão (Anna atribui a uma falta de vergonha cultural), são mais “generosos” que Europeus, e mais propensos a acreditar no teatro – e pagar pelo privilégio de bater uma punheta para algo interativo. Americanos precisam alimentar seus egos com mais voracidade do que o resto do mundo, ao que parece.

Mas ainda há figurões europeus atualmente, homens que Anna reluta em chamar de “viciados”, mas “passam mais tempo…você precisa entreter essas pessoas que irão ficar por horas e horas em sua sala, mesmo que eles tenham terminado de fazer o que vieram fazer – eles querem conhecer você”. De qualquer maneira, as apresentações na webcam mantém Anna confortável em suas calças de moletom e pagam o estoque de Fanta.

Mila: A estrela

Mila Milan é o mais próximo que a Webcam está de produzir uma celebridade: uma mulher ostentando sua fortuna e que é dona de um resort privado na Tailândia (abaixo), um Porsche, uma empresa de design industrial, nove gatos, oito cachorros, que está prestes a fechar negócio sobre um livro, um filho pequeno, e o que ela diz ter sido “uma das maiores gorjetas na história do strip de webcam – 260.000 tokens, o que correspondeu a US$13.000 para mim.”

Ela começou no negócio de pornografia na Alemanha aos 17 e começou a fazer strip na webcam alguns anos depois em Bangkok. Há dois anos ela era a modelo com melhor classificação no MyFreeCams – o que significava que o seu link estava no topo do layout do site – o que rendia cerca de US$37,000 por mês. Atualmente, as garotas com melhor qualificação chegam a ganhar o insano valor de US$75.000 por mês. A competição é acirrada. A batalha para a classificação no MFC é cruel, já que gorjetas geram mais gorjetas: se você está sendo bem paga, você sobe na classificação, gerando uma bola de neve de mais dinheiro e atenção.

Às vezes, é difícil de acreditar que Mila gosta do trabalho. Eu parei para assistir uma de suas apresentações mais recentes, e ela se sentou, quase imóvel, com a parte de cima da roupa desabotoada, literalmente tremendo. Ela parecia estar resmungando para si mesma, cerrando os olhos e ignorando os clientes. Mila disse às centenas de homens babando em sua sala de chat que eles precisavam depositar milhares de tokens antes que ela tirasse completamente a blusa. O dinheiro fluiu rápido. Ela disse que as últimas três semanas haviam sido “as menos lucrativas em 3 anos…muito ruim.” Ainda assim, ela é uma mulher rica em uma indústria de miséria.

Essa quantidade de dinheiro e fama por nudez é uma rara exceção para uma stripper de webcam. As outras milhares de pessoas lutam para conseguir qualquer trocado em condições que parecem humilhantes, e até perigosas. Depois de oito anos de observação, Mila diz, sem rodeios, que strip de webcam é um negócio criminoso em escala internacional.

“Com os agentes federais fechando e aumentando o controle em sites de poker e casinos, alguns destes elementos [criminosos] encontraram um novo negócio: A indústria de strip na webcam. Deixe-me esclarecer que isso não é um problema aqui na MFC, onde eu trabalho. Isso é um problema na indústria inteira que precisa ser resolvido se a indústria quiser sobreviver.”

O Lado Negro

O principal é lavagem de dinheiro:

“Sites de webcam são ideais para lavagem de dinheiro. Os estúdios estão sendo usados para ter garotas online aceitando um laranja que usa seu dinheiro “sujo” para comprar tempo particular. O estúdio recebe pela sessão privada, e a garota recebe uma parte (bem pequena) e o dinheiro sai limpo,” Mila diz. Como resultado, “muitos estúdios Russos e Romenos pertencem à Mafia”, uma alegação que ela estende para o resto dos países em desenvolvimento. Tudo fica mais claro quando você lembra o quão complicadas são as estruturas financeiras dessas redes – é mais fácil lavar dinheiro através de uma empresa que confunde os fiscais colocando a sede simultaneamente na Hungria e em Portugal.

Os países do Leste Europeu que tantas garotas chamam de lar são frequentemente mencionados em relatos de tráfico sexual, tanto como fonte, como canal de trabalho sexual ilícito – o MyFreeCams chegou a banir todas as modelos das Filipinas, onde as condições de trabalho supostamente são mais brutais.

A lógica não é mencionada, mas é fácil de supor.  Cuidar da exploração online, onde as garotas estão seguindo um “contrato” para ficar em um quarto durante doze horas por dia, com poucos recursos legais, faz sentido criminalmente. Infelizmente, nenhuma única ONG das que contatei que lida com tráfico sexual, abusos, prostituição, direitos humanos ou qualquer outra coisa que caberia nesse caso, tinha dados ou comentários sobre a indústria de strip na webcam.

 (NakedSexAssasinDUO1on1, Filipinas)

Em relação à qualidade de vida, Domino está no topo – feliz, saudável, não chega a ficar totalmente despreocupada, mas vive relativamente bem e do jeito que bem entende. Uma trabalhadora sexual burguesa. Mas passeie por qualquer rede grande como a MyFreeCams ou Streamate, e você verá como a outra metade vive. Muito mal.

Cada um dos streams revela alguém que tem condições extremamente opostas às de Domino, longe da metrópole do sexo virtual. Eles quase seguem um modelo: maquiagem exagerada, iluminação dura, quartos sombrios, techno genérico rolando e provavelmente algum pedaço de tecido barato servindo como pano de fundo. Pura chita do Leste Europeu. Eles quase sempre são empregados por “estúdios” de webcam – lugares que variam absurdamente de legitimidade, desde empresas de grande porte até o quarto dos fundos de algum cara. É um negócio simples e próspero. Os estúdios estão presentes em todos os países pobres, onde um computador decente e uma conexão de banda larga são mais difíceis de conseguir. Os proprietários fornecem o lugar, e, em troca, recebem uma boa parte dos lucros da garota – às vezes mais.

O visual é inegavelmente parecido com o de um bordel ou algo parecido, e o ambiente é certamente sombrio. E com certeza do terceiro mundo – há uma minoria valorizada de modelos brancas e americanas, mas o resto do catálogo abrange as partes mais economicamente prejudicadas do globo: Rússia, Colombia, África Ocidental, Tailândia, República Checa, Ucrânia, Romênia. Por motivos que nunca ficaram muito claros, a Romênia era um dos principais países em shows de sexo pago em todas as grandes redes de webcam.

Independente do país, praticamente todas essas mulheres tem um olhar vago, uma mistura inquietante de tédio e desespero. Você não verá em nenhuma a ansiedade de Domino, o Zelo empreendedor em seus olhos – algumas vezes elas parecem que esqueceram que estão na câmera. Apesar de silenciosas, elas realmente não parecem querer estar lá. Mas algumas delas falam, online, anonimamente, onde é seguro. Em um fórum, SassyLisa compartilha a sua história de Bucareste:

Trabalhar em um estúdio como modelo de webcam é como manter um animal selvagem em uma jaula…Você tem que trabalhar inúmeras horas, você não tem um contrato legal de trabalho…assédio sexual (sim…é uma droga! Quando seu chefe te chama no meio da noite pedindo por uma rapidinha, caso contrário você vai sofrer as consequências!)

Enquanto passava por esses streams que obviamente pertenciam a estúdios, eu tentei entrar em contato com as mulheres que estavam claramente tristes para falar sobre o seu trabalho

(Desconhecidos, Leste Europeu)

Muitas se recusaram a discutir quem eram, para quem trabalhavam, como chegaram lá, ou qualquer coisa do tipo. Algumas, com uma expressão assustada, disseram que não podiam falar sobre o estúdio. Algumas simplesmente ficaram sentadas olhando para o outro lado sem expressão, com respostas em texto pré-definidas digitadas por outra pessoa – que não aparecia na câmera – aparecendo esporadicamente. Dê uma olhada no Cam World, e você verá mulheres em estado catatônico com um parceiro homem – ou “namorado” – pelo qual elas claramente não têm afeição, mas com os quais se espera que elas façam sexo (e tudo mais) sob demanda. Seus rostos são patéticos e cansados. Elas se sentam em quartos improvisados a maior parte do dia, no mesmo lugar que sabe-se lá quantas outras como elas, servindo como uma espécie de armadilha para atrair os burros da internet – de vez em quando alguém aparece na sala.

 (Lilsonia, Romania)

Muitas vezes elas vão tentar evitar isso. Caso contrário, elas irão seguir o padrão habitual de exigências lobotomizadas: “peitos”, “mostra a buceta”, “eu queru ti fudê”, as quais a modelo desesperada tem que cumprir se ela espera ganhar um dólar ou dois. Para elas, a perspectiva de uma gorjeta de US$13.000 é inconcebível – é improvável que elas consigam qualquer coisa perto desse valor ao longo de um ano inteiro. Mas se elas conseguirem, será por atender os caprichos sórdidos de clientes que ficam zombando – aqueles que, como Anna lamenta, exigem que você enfie uma garrafa na bunda e depois te chamam de vagabunda. Então, se você for apenas uma mulher no mar de strippers de webcam do Leste Europeu, ao invés de fazer strip, talvez você fique nua o dia inteiro como modo de chamar atenção – uma opção que é permitida no MyFreeCams, mas não no Streamate, onde você seria expulsa. Ali, você fica apenas em um estado de semi-nudez. Ou desdenha das regras.

Mas então você nota que todo mundo está pelado também. O que resta a fazer além de humilhar-se e despir-se?

 (ForePLAYadik, Filipinas)

Esta pode ser a verdade mais dolorosa para a stripper de webcam que está na batalha: que o fundo do poço não é um destino, mas sim algo que se espera. A maioria das garotas nessa luta irá sentar, nua e despercebida, esperando por uma chance de degradar-se, enquanto as mulheres americanas exigem muitos dólares até mesmo para falar com você.

“Essa é a ironia”, explica Anna. Fazer algo que você não faria para atrair e agradar clientes, a disposição de fazer qualquer coisa, não importa quão desconfortável ou degradante, não te leva a lugar nenhum – porque todos do terceiro mundo que estão competindo com você estão fazendo a mesma coisa. O preço de todo mundo cai. As mulheres americanas que são exponencialmente menos permissivas podem conseguir se sustentar apenas tirando a roupa. “Garotas que fazem menos, recebem mais. Pessoas que estão dispostas a fazer qualquer coisa, elas praticamente não são pagas”, Anna diz. Os corpos desesperados do terceiro mundo estão presos em um estado de ruina mútua, competindo uns com os outros ao ponto de seu lucro praticamente sumir – as mulheres que povoam nossos anúncios pop-up não estão lá para nos entreter ou se divertir. Elas estão lá porque precisam estar lá. E porque isso rende dinheiro também.

E nesta suja rotina diária, algumas vezes lucrativa , outras não, pode ser a melhor coisa que elas podem conseguir. Quando eu falei pela última vez com Anna, eu perguntei se ela se imaginava fazendo isso em cinco anos – e se não, o que a levaria a largar tudo. Ela se recusou a responder se não recebesse mais dinheiro. Para a maioria das strippers de webcam, essa pode ser a melhor resposta que existe.