Desejar que uma pessoa fique doente ou morra é um ato desprezível que torna o mundo pior. Essa lição de decência comum deveria ser óbvia para todos, especialmente para uma rede social com centenas de milhões de usuários. O Twitter, por sua vez, respondeu recentemente com rapidez à notícia do diagnóstico de COVID-19 do presidente norte-americano Donald Trump e disse que os usuários não podem desejar a morte do presidente na plataforma.

Bom, isso é uma coisa boa, certo? Sim, claro, porque ninguém deve receber desejos de morte. Pena que o Twitter decidiu apenas agora que isso é algo ruim. Em outras palavras, a plataforma esperou até que houvesse um incidente envolvendo o presidente dos Estados Unidos, um homem branco que é uma das pessoas mais poderosas do planeta.



Na última sexta-feira (2), mesmo dia em que Trump anunciou na rede social que ele e a primeira-dama Melania Trump tinham testado positivo para COVID-19, o Twitter disse ao Motherboard que seus usuários não têm permissão para “desejar abertamente” a morte do presidente na plataforma. Fazer isso resultaria na remoção dos tuítes, disse o Twitter, referindo-se a uma regra de “comportamento abusivo” que o Motherboard informa existir desde abril.

Além disso, o Twitter disse que as pessoas que violarem a regra podem ter suas contas colocadas no modo “somente leitura”.

O Twitter posteriormente divulgou um comunicado sobre o assunto, citando a publicação do Motherboard, em sua conta oficial de comunicações para esclarecer que essa política aparentemente se aplica a todos.

“Tuítes que desejam ou torcem pela morte, lesões corporais graves ou doenças fatais contra *qualquer pessoa* não são permitidos e precisarão ser removidos”, escreveu o Twitter, com ênfase deles. “Isso não significa suspensão automática.”

A declaração pode parecer estranha, no mínimo, para qualquer pessoa que tenha acessado o Twitter nos últimos anos, especialmente mulheres, pessoas de minorias étnicas, indivíduos LGBTQ+ e tantos outros, que são assediados e recebem ameaças de morte constantemente. Muitas dessas pessoas não veem o Twitter tomar medidas contra os seus assediadores, e é exatamente o que torna a declaração da empresa tão revoltante, triste e hipócrita.

Porque parece que o assédio só importa quando o presidente dos Estados Unidos é a vítima. Isso não está certo e não é justo.

Abaixo estão apenas algumas das repostas à declaração do Twitter, de pessoas compartilhando sua experiência com assédio, bem como ameaças e desejos de morte.

Tradução: Todas as ameaças de morte que eu recebi de apoiadores do Trump, incluindo “Você nunca vai nos impedir de matá-la, nós acabamos de descobrir seu endereço” e coisas piores, ainda estão nas minhas DMs caso o Twitter queira checa-las novamente. É uma ótima política, mas assim como várias outras regras, ela se aplica apenas ao presidente.

Tradução: Eu posso atestar, pessoalmente, que isso não se aplica a pessoas negras, principalmente mulheres negras, o grupo de pessoas mais assediado nesse site.

Tradução: Vocês “não encontraram nenhuma violação das regras do Twitter” quando uma pessoa me disse que gostaria de mandar minha família para Auschwitz. Esses tuítes permaneceram.

Algumas das críticas mais importantes à declaração do Twitter vieram de quatro congressistas progressistas democratas conhecidas coloquialmente como “The Squad”, que inclui Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York; Rashida Tlaib, de Michigan; Ilhan Omar, de Minnesota; e Ayanna Pressley, de Massachusetts. As quatro mulheres falaram sobre as ameaças que recebem nas redes sociais e criticaram o Twitter por não fazer o suficiente para lidar com esse comportamento, de acordo com a CNN.

“Então… você quer nos dizer que poderia ter feito isso o tempo todo?”, Ocasio-Cortez tuitou.

Omar, por sua vez, ficou até sem palavras, e respondeu com um meme de um personagem do show Parks and Recreation parecendo incrédulo. Pressley também ficou indignada e disse ao Twitter para enviar uma DM. Tlaib disse o que muitos estamos pensando: “Sério, isso é muito errado.”

O Gizmodo entrou em contato com o Twitter para comentar a reação que seu comunicado havia gerado. O Twitter direcionou o Gizmodo à sua declaração oficial sobre o assunto, que o @TwitterSafety divulgou no sábado. A empresa também disse ao Gizmodo que os usuários que vivenciarem qualquer forma de abuso ou assédio devem denunciar imediatamente.

“Nós estamos ouvindo as vozes que acham que estamos aplicando algumas políticas de maneira inconsistente. Concordamos que devemos fazer melhor e estamos trabalhando juntos internamente para isso”, disse o Twitter. “Continuaremos respondendo às preocupações sobre nossa política por meio de ações, não de palavras vazias.”

O Twitter acrescentou no comunicado que tomou medidas importantes em relação aos tuítes que violavam suas políticas de abuso sem que as pessoas precisassem denunciá-los, e afirmou que mais de 50% dos abusos são detectados por sistemas automatizados. A empresa destacou o fato de que estava dando às pessoas “mais controle sobre sua experiência”, incluindo a decisão de quem pode responder aos tuítes.

“O uso do Twitter para instigar medo, silenciar vozes ou minar a segurança individual é inaceitável”, disse a empresa.

Embora o Twitter diga que esse comportamento é inaceitável, isso não é algo novo. Embora eu use o Twitter com frequência, eu o passo pelo feed com cuidado. Cautelosamente. Muitas vezes, evito ler respostas a tuítes com os quais interajo porque, honestamente, não quero ver respostas agressivas ou odiosas. Estremeço só de pensar no que os outros, incluindo meus queridos colegas e amigos, têm de lidar.

É hora de a decência comum virar regra, não a exceção, e não apenas no Twitter, mas em todas as plataformas de rede social. Porque embora as pessoas que cometem tais abusos sejam desprezíveis, aqueles que permitem e agem como se nada estivesse errado também não estão livres da culpa. Na verdade, eles podem ser até piores.