É bem provável que você está familiarizado com o trabalho de Kenji Ekuan. Talvez você não o conheça pelo nome, mas o designer, que morreu esta semana aos 85 anos, era a mente por trás de alguns dos designs mais icônicos do século 20: a garrafa de molho de soja e o trem bala — e ele disse que teve a inspiração para criá-las depois que a bomba atômica destruiu sua casa em Hiroshima.

No Brasil, o molho de soja — ou shoyu — é mais conhecido pela garrafa de vidro da Sakura, mas ela não passa de uma cópia baseada na garrafa do molho Kikkoman, que foi desenhada por Ekuan.

Se você já usou essa garrafinha de shoyu ou já viu alguma moto Yamaha dos anos 1960, você conhece os designs de Ekuan. A garrafa de vidro com tampa vermelha para molho de soja, que Ekuan desenhou em 1961 foi o epítome do mundo futurista do Japão dos anos 60, um país que começava a emergir de uma era guerra brutal e adentrava um boom econômico e cultural. Ekuan também desenhou o trem bala, que foi um dos primeiros trens de alta velocidade do mundo.

Ele era a voz por trás de uma das tecnologias mais fortes do século 20 — a resposta do Japão a Raymond Loewy — cujo trabalho articulava velocidade e futurismos da era moderna, mas sem nunca ignorar que ainda seria usado por humanos.

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Imagens: A motocicleta Yamaha YA-1, via Yamaha Community.fr; Trem bala Komachi por ykanazawa1999/CC.

Ekuan diz que a raiz do seu trabalho era focada nos humanos por causa da bomba atômica que explodiu em Hiroshima em 1945. Ele era apenas um adolescente quando a explosão atingiu a cidade, matando sua irmã e seu pai. Em uma entrevista datada em 2010, ele descreve como o horror e a desolação daquele momento o inspiraram a se tornar um designer:

Eu decidi ser um designer quando eu estava em Hiroshima, logo após a guerra. Depois da bomba, tudo virou nada. Então lá estou eu, em pé no meio da cidade queimada, olhando para minha casa. Eu estava muito abalado. E decidi conectar as coisas materiais, porque, por um bom tempo, humanos se conectavam a coisas materiais. E eu pensei que precisávamos de algo que trouxesse de volta as coisas materiais aos humanos. Eu precisava fazer algo bom para as pessoas, e para mim. Então decidi me tornar um designer.

Ele se tornou um designer industrial, conectou-se a um grupo de estudantes que pensava como ele que formaram a companhia em que ele trabalhou por décadas. Esta linha de raciocínio — que objetos devem prover conforto, de prazer e felicidade — foi carregada por sua carreira inteira, na qual ele desenhou de motocicletas a máquinas de costura, passando por trens e garrafinhas de shoyu.

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Imagem por Juicy Rai sob licença Creative Commons

Foi na mesma entrevista de 2010 que Ekuan descreveu o epitáfio perfeito sobre a vida humana e a vida dos objetos, conforme mostrou a Quartz: “Assim como o homem nasce, fica velho, doente e morre”, disse “até em uma fábrica as coisas nascem, têm anos de muita utilidade, até finalmente morrerem. É tudo igual”.

Imagem do topo de Kiersten Chou sob licença Creative Commons