Alguns bilionários como Elon Musk querem colonizar Marte. Para pessoas mais simplórias como eu, manter a Terra habitável parece ser um uso melhor do nosso tempo e recursos.

No entanto, se as emissões de carbono continuarem subindo, até mesmo essa proposta pode se tornar difícil. De acordo com um novo estudo, o calor extremo que hoje é encontrado somente em partes do Saara pode se espalhar para quase 20% da Terra (e quase um terço da humanidade) se as emissões de carbono não forem reduzidas.



O estudo, publicado nesta segunda-feira (4) nos Proceedings of the National Academy of Sciences, é um argumento bastante convincente para reduzir as emissões de carbono e não fritar o mundo.

Os autores do novo artigo utilizam uma série de dados históricos que remontam a 6.000 anos atrás para desvendar as condições que fazem o ser humano funcionar.

As pessoas conseguem sobreviver com todos os níveis de precipitação – humanos vivem em todos os lugares da Terra, exceto nos mais secos. A civilização também se adaptou a todos os tipos de fertilidade do solo. O maior fator limitante em termos de habitabilidade humana é o calor da região.

Os resultados do estudo mostram que as pessoas são capazes de viver em uma faixa estreita de temperatura, onde a temperatura média anual vai de 11 a 15 graus Celsius. É nessa faixa que muitas plantações básicas crescem melhor e o gado pode ser altamente produtivo, e é por isso que os autores o definem como o “nicho do clima humano”.

Isso não quer dizer que não existam outros fatores para a prosperidade humana, mas a temperatura é um dos elementos-chave ligados ao bem-estar.

Infelizmente, haverá um choque no caminho se as mudanças climáticas continuarem descontroladas. Já estamos vendo o que o aumento do calor está fazendo com as pessoas ao redor do mundo, causando mortes e até mesmo perda de produtividade.

Ainda assim, os humanos dão um jeito de sobreviver mesmo em lugares quentes, como Phoenix, Nova Délhi e Dubai. Mas, no futuro, as mudanças climáticas podem nos abalar.

O estudo utilizou o RCP8.5, um cenário onde as emissões de carbono aumentam em um nível extremo, para modelar como seria o final do século dentro desse nicho climático humano. Os resultados mostram que ele se contrairia substancialmente.

O Saara é um dos únicos lugares na Terra onde a temperatura média anual gira acima de 29 graus Celsius e onde basicamente termina o nicho climático humano.

Os locais tão quentes como esse cobrem apenas 0,8% da área do mundo. Mas em 2070, esse tipo de calor se tornaria comum em quase 20% da área da Terra.

Essa área é o lar de até 3 bilhões de pessoas que, se não migrarem, estarão vivendo em condições que os humanos nunca foram capazes de tolerar durante um ano.

Mapa mostra nicho de calor até 2070Mapa: Xu, et al., 2020

Além disso, esse pico de temperatura ao longo dos próximos 50 anos seria mais dramático do que qualquer coisa vivida em pelo menos 6.000 anos.

Os resultados são realmente chocantes quando vistos no mapa. Quase todo o Brasil se tornará essencialmente inabitável, assim como enormes pedaços do Oriente Médio e da Índia, mostrando que as áreas mais pobres serão as mais atingidas.

Mas os impactos não estão limitados aos países em desenvolvimento; o sul dos EUA, partes da Austrália e a Europa mediterrânea também verão temperaturas além do nicho.

Em contrapartida, a América do Norte e a Europa terão ganhos de habitabilidade. Quando os cientistas descobriram, no ano passado, que todos nós iríamos querer nos mudar para a Sibéria até o final do século, eles não estavam brincando.

Isso é o que é mais alarmante nos resultados. Eles mostram que, na ausência de uma contenção das emissões, quase certamente haverá migrações em massa. Nem tudo vai acontecer em 2070, repentinamente. Ao contrário, algumas áreas passarão primeiro pelo limiar do nicho climático, o que poderá desencadear ondas de migração.

Os resultados mostram que, antes de tudo, é preciso começar a cortar as emissões agora. Mas igualmente importante é a necessidade de nos prepararmos para a migração induzida pelo clima no futuro.