À medida que países no Oriente Médio, na África e em outros lugares têm dificuldades para encontrar água doce suficiente para atender à demanda, cada vez mais eles estão se voltando para o oceano. Usinas de dessalinização, localizadas em 177 países, podem ajudar a transformar água salgada em água doce. Infelizmente, essas usinas também produzem muitos resíduos — mais resíduos do que água para as pessoas beberem, na verdade.

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Um estudo publicado na segunda-feira (14) pelo Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde (INWEH), da Universidade das Nações Unidas, na revista científica Science of the Total Environment, descobriu que as usinas de dessalinização produzem por ano no mundo inteiro salmoura — um derivado salgado, carregado de produtos químicos — suficiente para cobrir toda a Flórida em quase um metro de altura. É muita salmoura.

“A alta salinidade e os níveis reduzidos de oxigênio dissolvido podem ter impactos profundos nos organismos bentônicos.”

De fato, o estudo concluiu que, para cada litro de água doce que uma usina produz, 1,5 litro de salmoura é produzido em média. Para todas as 15.906 usinas ao redor do mundo, isso significa 142 bilhões de litros desse lixo salgado todos os dias. A produção de salmoura em apenas quatro países do Oriente Médio — Arábia Saudita, Kuwait, Qatar e Emirados Árabes Unidos — responde por mais da metade disso.

Os autores do estudo, vindos de Canadá, Holanda e Coreia do Sul, não estão dizendo que as usinas de dessalinização são ruins. Eles estão levantando o alerta de que esse nível de resíduo requer um plano. Essa água salgada não tratada não pode simplesmente ficar em lagoas — ou, nos piores cenários, ir para oceanos ou esgotos. O descarte depende da geografia, mas, normalmente, os resíduos vão para oceanos ou esgotos, se não forem injetados em poços ou mantidos em lagoas de evaporação. As altas concentrações de sal, assim como de produtos químicos como cobre e cloro, podem intoxicar a vida marinha.

“Os fluxos de salmoura esgotam o oxigênio dissolvido nas águas receptoras”, disse o autor principal Edward Jones, que trabalhou no instituto e agora está na Universidade de Wageningen, na Holanda, em um comunicado de imprensa. “A alta salinidade e os níveis reduzidos de oxigênio dissolvido podem ter impactos profundos nos organismos bentônicos, o que pode se traduzir em efeitos ecológicos observáveis em toda a cadeia alimentar.”

Em vez de despejar sem cuidado esse derivado, os autores sugerem a reciclagem para gerar novo valor econômico. Algumas espécies de cultivos toleram a água salgada, então por que não usá-la para irrigá-los? Ou que tal gerar eletricidade com energia hidrelétrica? Ou por que não recuperar os minerais (sal, cloro, cálcio) para reutilizá-los em outros lugares? No mínimo, devemos tratar a salmoura para que a descarga no oceano seja segura.

Países que dependem muito da dessalinização precisam ser líderes nesse campo se não quiserem erodir ainda mais seus recursos. E esse problema precisa ser resolvido antes que a nossa dependência na dessalinização cresça.

A tecnologia está ficando mais acessível financeiramente, como deveria, então países de menor renda que precisam de água talvez sejam capazes de embarcar nessa onda em breve. Embora a salmoura seja um problema agora, não precisa ser sempre um problema.