Não é todo dia que você se transforma numa personagem de um caso médico curioso. Foi exatamente isso o que aconteceu com Dianne Travers-Gustafson, uma antropóloga médica e pesquisadora de saúde aposentada de Nebraska, nos EUA.

Em fevereiro de 2018, ela teve a infelicidade de ter os olhos infectados por um tipo particular de parasita que é espalhado por uma mosca. Ela provavelmente foi infectada quando fazia uma trilha em Carmel Valley, na Califórnia.

O incidente de “sorte” fez com que ela se tornasse a segunda hospedeira humana já registrada desse verme ocular. Geralmente, a infecção acontece no gado.

Como é uma baita cientista, Travers-Gustafson ajudar a escrever o relato que detalha seu caso peculiar, que foi publicado em outubro. O Gizmodo procurou a pesquisadora para conversar mais sobre sua experiência dolorosa e entender por que ela sentiu que era preciso divulgar o caso. A conversa reproduzida abaixo foi editada e condensada para maior clareza.

Gizmodo: Como foi a experiência de ter sido atacada por moscas que provavelmente te expuseram a esses vermes?

Travers-Gustafson: Bem, eu não acho que chamaria de ataque.

[Eu eu meu marido] fazemos trilhas com regularidade. Corremos trilhas pelo menos umas duas vezes por semana, e essa era uma trilha que já fizemos inúmeras vezes. É uma trilha muito íngreme, com pequenas curvas, então às vezes não dá para ver o que está pela frente até que você tenha feito a curva.

Em uma curva em particular, sabíamos que vivia uma cascavel. E eu estava observando o chão, tentando ficar fora do caminho dela. Então, quando eu passei a parte onde a cobra costuma estar, olhei para cima e me deparei com o que eu chamaria de uma nuvem de moscas.

Vivemos numa fazenda e já tivemos gado, por isso não é como se nunca tivéssemos tido contato com moscas. E eu tive bastante contato com elas ao longo do tempo na região de pecuária agrícola [do Nebraska]. Mas eu nunca tinha visto nada assim.

De qualquer forma, antes que eu percebesse, eu estava no meio dessa nuvem. E elas estavam em meus olhos e boca e tudo que eu tentava fazer era tirá-las, limpando meus olhos. Eu me lembro de pensar, “espero que não aconteça nada depois disso”. Esse pensamento me ocorreu porque o artigo sobre a primeira mulher no Oregon que havia sofrido com o parasita tinha acabado de ser publicado e eu tinha lido.

Depois eu esqueci disso, porque as chances eram baixas. E quando cheguei em casa, provavelmente horas depois, observei meus olhos cuidadosamente. E foi assim.

Gizmodo: A descoberta dos vermes nos olhos surgiu um mês depois. Quando você soube que algo estava acontecendo?

Travers-Gustafson: Meus olhos começaram a lacrimejar mais, o que na verdade servia de alimento para os nematóides – o que os deixavam felizes. Porém, eu uso lente de contato – diárias – e, às vezes, por causa do ar seco ou outros fatores, você pode lacrimejar mais. Por isso, acabei não ligando muito para os primeiros sintomas.

Depois, parecia que algum cílio estava preso no meu olho e eu lavava a região constantemente. Pensei que deveria ser um cílio encravado. Peguei uma lanterna e um espelho com ampliação para examinar o meu olho direito. E vi três pequenas coisas brilhantes e translúcidas que se mexiam pelo meu olho.

Gizmodo: Como você se sentiu vendo esses pequenos vermes no seu olho?

Travers-Gustafson: Minha área de pesquisa profissional sempre foi a saúde pública, onde trabalhei por muitos anos. O primeiro pensamento foi “Uau, fascinante. Isso é interessante. O que será que está acontecendo aqui?”.

Um segundo depois eu estava, tipo, “Eita, eu sou uma hospedeira”. Na saúde pública, usamos o triângulo epidemiológico de hospedeiros, ambiente e vetores, sendo as moscas o vetor neste caso. Então eu era uma hospedeira – uma hospedeira para algum tipo de nematóide. E então eu pensei imediatamente que queria tirá-los.

Tentei tirá-los e vou te contar, esses bichinhos ficam presos no seu olho. Quero dizer, eles vivem em suas lágrimas, mas se escondem quando sentem que algo está prestes a pegá-los.

Gizmodo: Você acabou tirando quatro vermes de ambos os olhos, tanto por conta própria quanto com a ajuda de um oftalmologista, sem nenhuma lesão física. Mas quando que você conseguiu se sentir segura novamente?

Travers-Gustafson: Bem, ainda estou muito sensível a quaisquer sensações nos meus olhos. No final das contas, ficou tudo bem, porque o ciclo reprodutivo deles é de cerca de três a quatro semanas. Então, quando passei desse período, sabia que estava tudo certo.

Gizmodo: Um outro aspecto incomum sobre esse caso é que, geralmente, os pacientes não são co-autores dos próprios relatos de casos. Obviamente, você já é uma cientista, mas o que a fez querer falar sobre sua experiência publicamente?

Travers-Gustafson: Bem, porque faço parte da área de saúde pública. E as pessoas precisam saber de qualquer coisa que esteja mudando na nossa área de saúde. Temos essas doenças emergentes, com todas essas mudanças na ecologia ao redor do mundo.

E em termos de zoonoses [doenças transmitidas dos animais para as pessoas], as coisas que sempre estiveram nos animais, estamos começando a ver a transferência para os seres humanos, e da mesma forma dos seres humanos para os animais. Realmente precisamos rastrear e rastrear essas coisas, e eu sou parte desse sistema.

Porém, as pessoas precisam entender isso a partir de uma perspectiva da experiência, não a partir de uma perspectiva sensacionalista. Portanto, se elas têm algo que parece uma irritação ocular da qual não podem se livrar, elas devem ir ao médico e dar uma olhada.

Agora, não é provável que seja um nemátodo, mas se for, precisamos saber disso. E as pessoas precisam resolver isso, porque pode danificar a córnea e comprometer a visão. Mas para que saibamos o que realmente está acontecendo, cientificamente, precisamos ter esses dados.

Acho que outra coisa importante é ter uma pessoa contando sua própria história ajuda a reduzir o sensacionalismo. Eu quero que todos saibam que, sim, essas coisas podem acontecer. E nós precisamos saber mais sobre elas. Mas que no final das contas, o risco não é alto.

A maioria das pessoas não vive numa fazenda ou num rancho. E mesmo eu, que tive exposição contínua, com o gado na minha fazenda, nunca tive um problema até o episódio da nuvem de moscas.

Gizmodo: Você volta para aquela região regularmente. Vai tomar algumas precauções no futuro? E o que você recomendaria que outros fizessem para evitar o que aconteceu com você?

Travers-Gustafson: Ah, eu tomei providências logo depois do ocorrido. Comprei uns óculos de sol atléticos e não vou correr sem eles. Quando as pessoas me perguntam sobre o que aconteceu, eu digo que os óculos são a melhor precaução. Mas ainda é preciso ter cuidado com as cascavéis. E se houver uma nuvem de moscas, certifique-se de não correr de encontro a ela.

Mais uma vez, é improvável que isso aconteça. Eu tenho 70 anos e sempre estou correndo. Foi a primeira vez que eu vi uma nuvem de moscas como essa. Por outro lado, talvez essas nuvens sejam algo que está começando a aparecer com mais frequência. Então, precisamos rastrear esse fenômeno, e o gado precisa ser mais bem observado e tratado também.