Uma nova pesquisa genética parece confirmar um medo que os cientistas tinham sobre o surto mortal de Ebola (EVD)  na Guiné em fevereiro deste ano: a origem do dos casos provavelmente foi ocasionada por restos adormecidos do vírus em um sobrevivente que havia contraído a doença pelo menos cinco anos antes. A descoberta, publicada na Nature, pode complicar os esforços para conter a patologia emergente.

No final de janeiro de 2021, uma enfermeira de 51 anos de um país da África Ocidental contraiu o Ebola. Como muitas vítimas, ela inicialmente apresentou sintomas vagos como dor de cabeça, náusea e fraqueza geral. Embora ela tenha sido hospitalizada, os médicos infelizmente a diagnosticaram com malária e salmonela, e ela foi enviada para casa depois de dois dias. Porém, adoeceu novamente e morreu três dias depois.

Após sua morte, o marido e outros membros da família que compareceram ao funeral também ficaram doentes e quatro pessoas morreram. Esses casos alertaram as autoridades nacionais de saúde. No início do ano, amostras de sangue confirmaram o surto de ebola, e profissionais de saúde correram para controlá-lo. Entre fevereiro e junho de 2021, quando o contágio foi formalmente declarado encerrado, foram registrados 16 casos confirmados, além de 12 mortes.

Normalmente, os surtos de ebola começam com a transmissão zoonótica de um animal infectado para uma pessoa, com certos morcegos considerados o hospedeiro primário do micróbio. Mas as primeiras análises das amostras de sangue coletadas das vítimas durante esse surto sugeriram que algo mais estava acontecendo. O germe encontrado nas coletas de sangue parecia muito semelhante a uma variante coletada de sobreviventes do surto de Ebola na África Ocidental de 2013-2016, a maior e mais mortal epidemia do vírus até o momento, com mais de 11 mil mortes. Os cientistas logo suspeitaram que o vírus havia, de alguma forma, ressurgido de um hospedeiro humano anos depois e estava ativo novamente.

O estudo sugere que o palpite está certo. Pesquisadores na Guiné, França e Alemanha conduziram o sequenciamento genético desta geração do vírus coletado de 12 vítimas do surto, usando-o para construir genomas completos ou quase completos do vírus. A partir daí, eles usaram essas informações para construir uma árvore genealógica das cepas e as compararam com o microorganismo que estava circulando  há cinco anos.

O vírus encontrado na Guiné este ano estava, de fato, relacionado com o vírus visto durante o surto anterior da África Ocidental, disseram os autores, indicando “que as novas infecções não foram o resultado de um novo evento de escape de um reservatório animal.” Além disso, eles não encontraram sinais de muita divergência genética entre aquela época e agora, sugerindo que não estava sendo transmitido fortemente entre humanos durante todo esse tempo. Em vez disso, o vírus de origem pode estar causando uma infecção persistente, mas lenta, com reprodução desacelerada em um sobrevivente, ou pode ter ficado completamente latente e, em seguida, reativado por algum motivo desconhecido, tornando o infectado um ponto de contágio novamente.

Cientistas sabem, desde o surto na África Ocidental, que o vírus pode sobreviver despercebido nas vítimas por algum tempo após terem se recuperado totalmente, especialmente em partes do corpo onde o sistema imunológico está menos ativo, como os olhos ou esperma. Mas o tempo mais longo conhecido entre alguém contrair o vírus e passá-lo para outra pessoa ou ficar doente novamente, antes disso, foi em torno de um ano e meio. Uma janela muito maior de transmissão do vírus significa que as comunidades podem ser mais vulneráveis ​​a surtos futuros do que se pensa atualmente. Também pode tornar a vida de sobreviventes, que já tendem a sofrer discriminação e preconceito de outras pessoas, ainda mais difícil, alertam os autores.

“A origem humana do surto de EVD de 2021 e a mudança associada em nossa percepção da emergência de Ebola exigem atenção cuidadosa aos sobreviventes da doença”, escreveram eles. “A preocupação de que os sobreviventes sejam estigmatizados como uma fonte de perigo deve ser uma questão de atenção escrupulosa.”

Nesse caso, é possível que o paciente tenha transmitido o vírus durante a relação sexual. Mas, dado que a primeira nova vítima foi uma enfermeira, o paciente também pode ter experimentado um ressurgimento dos sintomas que levaram a uma consulta de saúde e transmissão naquele ponto. A própria enfermeira pode ter tido um retorno de infecção latente, embora isso seja menos provável, uma vez que ela não tinha nenhum caso documentado anteriormente.

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De maneira geral, os autores dizem que essas descobertas devem alimentar pesquisas para encontrar uma maneira de manter os sobreviventes livres do vírus e proteger as comunidades depois que um surto diminui.

“Além da importância de medidas de saúde adequadas focadas nos sobreviventes, o ressurgimento tardio do vírus também destaca a necessidade urgente de novas pesquisas em agentes antivirais potentes que podem erradicar o reservatório de vírus ativo em pacientes com EVD, e em vacinas eficazes que fornecem proteção de longo prazo ”, escreveram.