Cientistas do governo dos EUA demonstraram em laboratório, pela primeira vez, que porcos podem ficar gravemente doentes por causa de uma espécie do vírus Ebola, chamada Reston Ebolavirus (RESTV). O vírus é conhecido por ser o único da linhagem do Ebola a não infectar as pessoas até agora. Contudo, a descoberta sugere que ela ainda pode representar uma grave ameaça para o gado, e as chances de algum dia prejudicar os humanos também não estão descartadas.

O Reston foi popularizado no livro de não-ficção Zona Quente: Uma História Terrível e Real (The Hot Zone, no inglês), escrito por Richard Preston e publicado em 1994. Nele, o autor relata os eventos do primeiro surto conhecido pela espécie Reston, do gênero ebolavírus, em 1989, quando macacos sendo usados para pesquisas com animais em um laboratório em Reston, Virgínia, começaram a morrer em massa. Vários manipuladores de animais e trabalhadores de laboratório eventualmente testaram positivo para anticorpos contra o vírus, mas para o alívio de todos, nenhum desenvolveu sintomas da febre hemorrágica frequentemente fatal que acompanha outros vírus Ebola.

Na época, Reston era considerado uma cepa de outro vírus Ebola, mas agora é categorizado como uma espécie própria de Ebola, junta de outras cinco.

Ao longo dos anos, pesquisas e outros surtos mostraram de forma conclusiva que o Reston pode adoecer primatas, mas não humanos. Em 2008, surgiram evidências de que ele pode ter sido o culpado por surtos de doenças respiratórias em várias fazendas de suínos nas Filipinas. Acredita-se que pelo menos seis trabalhadores rurais tenham sido infectados pelos porcos, mas que essas infecções não levaram a nenhuma doença humana. Mesmo assim, o incidente foi alarmante para os epidemiologistas.

Desde 2008, houve apenas pesquisas limitadas sobre a conexão entre o vírus Reston e os porcos. Este novo estudo, publicado na última segunda-feira (21) no Proceedings of the National Academy of Sciences, é fruto do trabalho de cientistas do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos.

Os resultados sugerem que o ebolavírus Reston pode infectar e causar danos graves aos porcos. Eles transmitiram o vírus a leitões domésticos jovens com idades entre três e sete semanas, expondo-os pela boca e nariz. Os porcos desenvolveram doenças respiratórias graves, com a maioria deles tendo de ser sacrificada uma semana depois. Além disso, os porcos eliminaram prontamente o vírus em seu trato respiratório, indicando que eles poderiam transmitir o vírus a outras pessoas durante esse tempo.

“Concluímos que o RESTV deve ser considerado um patógeno do gado com transmissão zoonótica com impacto na saúde animal e talvez até na saúde humana”, escreveram os autores.

Neste momento, o risco de infecção humana é inteiramente teórico, mas não é impossível. Vírus como a gripe já passam regularmente entre os animais, como pássaros para porcos, e depois para pessoas. Às vezes, essa jornada pode resultar em uma nova cepa de gripe potente que é facilmente transmissível e causadora de doenças em humanos.

Outros vírus, incluindo o novo coronavírus causador da COVID-19, costumam se originar em animais antes de sofrerem uma mutação que pode infectar pessoas. Se os porcos se tornassem um hospedeiro comum do vírus Reston, é muito possível que as cepas possam um dia passar pela mesma mutação e começar a contaminar seres humanos.

Não há necessidade de entrar em pânico agora. Mas se a pandemia de COVID-19 deve nos ensinar alguma coisa, é que temos que identificar essas ameaças virais muito antes que se espalhem para as pessoas, se quisermos uma chance de detê-las. “O surgimento de RESTV em porcos é um alerta, pois a transmissão para humanos por meio do contato direto com porcos ou da cadeia alimentar é uma possibilidade”, concluíram os autores.