A popular fabricante chinesa de smartphones Xiaomi está processando o Departamento de Defesa, o Tesouro dos EUA e os funcionários de alto escalão de ambas as agências, depois de ter sido considerada uma ameaça à segurança pelo governo dos EUA e excluída dos investimentos norte-americanos.

Em novembro passado, o então presidente Donald Trump aprovou a Ordem Executiva 13959, que basicamente buscava “desestabilizar” empresas com supostos vínculos com os militares chineses. Esta ordem determina que entidades e investidores dos EUA comecem a abandonar as empresas listadas pelo governo até 15 de março deste ano.

A Xiaomi, uma empresa global de eletrônicos com uma conhecida variedade de produtos, foi adicionada a esta lista em janeiro. Fundada há apenas 10 anos, a empresa teve uma escalada meteórica, crescendo rapidamente até se tornar um dos fabricantes de smartphones mais populares do mundo. Em 2018, a empresa foi listada na NASDAQ e, no ano passado, tornou-se o membro mais jovem das 500 empresas globais da Fortune.

O design dos telefones e tablets da empresa é notavelmente peculiar (basta dar uma olhada no protótipo de telefone dobrável e você vai entender o que queremos dizer). O CEO da Xiaomi, o bilionário Lei June, também tem uma espécie de fixação por Steve Jobs, o que explica o design e a abordagem no estilo Apple de sua empresa, bem como seu interesse pessoal em blusas de gola pretas e jeans.

Ainda assim, de acordo com o Departamento de Defesa, a Xiaomi tem algo a esconder. A sua designação como uma “empresa militar comunista chinesa” (CCMC) significa que, de acordo com a lei, a empresa é “propriedade ou controlada por, ou afiliada ao Exército de Libertação Popular ou a um ministério do governo da República Popular da China ou que seja de propriedade ou controlada por uma entidade afiliada à base industrial de defesa da República Popular da China”.

Naturalmente, a Xiaomi contestou esse rótulo. Em um processo aberto na sexta-feira (29), a gigante da tecnologia chamou sua recente designação de CCMC de “inconstitucional” e acusou os Estados Unidos de fornecer nenhuma evidência para apoiar suas alegações. Ela insiste em ser retirada da lista e afirma que o Pentágono “não forneceu nenhuma explicação para sua decisão de designar a Xiaomi como CCMC, muito menos identificar a base factual na qual a designação foi baseada”, nem deu à Xiaomi uma oportunidade para refutar as reivindicações.

A empresa nega categoricamente que tenha qualquer vínculo com os militares chineses, escrevendo no processo que a Xiaomi “não é propriedade ou controlada por, ou de outra forma afiliada ao governo ou força militar chinesa, ou propriedade ou controlada por qualquer entidade afiliada à base industrial de defesa chinesa. Nem o governo ou exército chinês, ou qualquer entidade afiliada à base industrial de defesa, possui a capacidade de exercer controle sobre a gestão ou os negócios da empresa”. A ação ainda afirma que a ordem causará “dano imediato e irreparável à Xiaomi”.

A Huawei, outro gigante da tecnologia com sede na China, também processou os EUA por restrições semelhantes.

De acordo com a ordem executiva de Trump, os EUA veem os supostos CCMCs como parte de uma estratégia da China para aumentar suas forças armadas por meio de empresas “civis” que de alguma forma “apoiam suas atividades militares e de inteligência”. Os EUA acusam essas empresas de explorar investidores norte-americanos para terem acesso ao capital, que pode então ser usado para “financiar o desenvolvimento e modernização de suas forças armadas”. A ordem diz:

Por meio da estratégia nacional de fusão militar-civil, a PRC [sigla em inglês de República Popular da China] aumenta o tamanho do complexo militar-industrial do país, obrigando as empresas civis chinesas a apoiar suas atividades militares e de inteligência. Essas empresas, embora permaneçam ostensivamente privadas e civis, apoiam diretamente os aparatos militares, de inteligência e de segurança da PRC e ajudam em seu desenvolvimento e modernização.

Algumas preocupações de segurança surgiram com a Xiaomi no passado, embora nada na escala das acusações atuais. Os problemas incluem a descoberta de uma vulnerabilidade flagrante no aplicativo de segurança pré-instalado da empresa, o Guard Provider, bem como preocupações com o aparente monitoramento da navegação “privada” da empresa.