O novo app YouTube Music, lançado por enquanto apenas nos EUA, é um fracasso. O YouTube é há algum tempo uma das maiores forças da música digital mesmo sem atuar diretamente na área, e esse é o app que foi lançado para reforçar a sua presença nessa indústria. Ele não muda nada.

Anunciado no mês passado, o YouTube Music faz parte da estratégia de convencer usuários a assinarem o novo serviço pago YouTube Red, que é basicamente uma opção premium de acesso aos serviços de mídia que o Google oferece há anos. O app YouTube Music, assim como o YouTube Gaming, é uma tentativa de oferecer uma experiência simplificada para um dos recursos principais do YouTube. Como ele se sai?

O app mais preguiçoso que o YouTube poderia criar

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O YouTube Music não é um serviço completo de música. Uma das suas principais áreas é dedicada exclusivamente a coletar todos os vídeos musicais que você curtiu. As outras duas áreas são uma central chama “O que está bombando” – uma lista global de coisas novas no YouTube – assim como uma página inicial com recomendações e links de coisas que você ouviu recentemente.

O recurso mais bacana do YouTube Music é um chamado “mixtape offline”, que pode guardar até 100 músicas no seu dispositivo. A mixtape sincroniza seus likes, além de várias outras coisas. Nem sempre ela acerta seu gosto musical: eu não tenho e nunca terei interesse em Ellie Goulding, mas graças ao YouTube Music eu tenho algumas músicas dela guardadas no meu smartphone.

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Outras facetas do app não são exclusivas do YouTube Music, e elas não mostram nenhuma tecnologia ou algoritmo interessantes. Por exemplo, o YouTube vai gerar uma playlist com base em qualquer artista que você buscar, ou, se preferir, pode reproduzir músicas de um artista em particular. É possível fazer isso – com qualidade melhor – no Google Play Música, Spotify e outros apps de música. E cada um dos vídeos oferece uma lista de outras faixas relacionadas, da mesma forma que acontece com qualquer outro app musical.

O YouTube Music mantém o recurso mais legal que a plataforma principal tem: acesso a versões ao vivo de músicas, covers, versões de karaokê, etc. Venho ouvindo uma banda chamada Slothrust e adorei ver todas aquelas versões ao vivo na aba Explorar. Legal. Mas não chega a ser algo que convença alguém a usar esse e não outro serviço.

Não é como se o Google não tivesse a tecnologia necessária para fazer algo melhor. O Google Play Música é um serviço robusto com playlists sofisticadas, e, no geral, recursos de descoberta muito melhores. No YouTube Music, eu sequer consigo adicionar músicas a uma playlist. Isso não é minimalismo, é uma escolha burra que torna o app menos funcional.

Depois de baixar o YouTube Music, você provavelmente vai ter a mesma reação que eu e se perguntar porque o Google se preocupou em criar um app que não faz absolutamente nada de novo. Eles podiam ao menos colocar alguns atalhos para você abrir o Play Música – foi o que eu acabei fazendo.

O YouTube é importante para música, mas horrível para conhecer novos artistas

Se há um argumento a favor do YouTube Music é que ele não mexe no status quo. Como plataforma musical, o YouTube é imenso. Hoje ele é um dos principais meios de distribuição viral de música. Quais outras plataformas podem reproduzir mais de 1 bilhão de vezes canções de Psy, Justin Bieber e Taylor Swift? Se você só quer enviar uma música para um amigo, a melhor forma de garantir que ele ouça essa canção é enviando um link do YouTube. É fácil, rápido e gratuito.

Há evidências de que o YouTube é a plataforma de streaming mais volumosa e influente do mundo. Uma apresentação recente da Activate Tech (via The Verge) diz que 53% dos adultos dos EUA disseram ter ouvido música pelo YouTube em 2014. Em 2012, uma pesquisa da Nielsen indicou que 64% dos adolescentes ouviam música pelo YouTube – mais do que em qualquer outra plataforma, incluindo o rádio.

Olhando para diversas pesquisas lançadas nos últimos anos, todas elas mostram a lenta ascensão das plataformas de streaming e do YouTube em geral. Mas o YouTube tem um ponto fraco: descoberta. O estudo de 2012 da Nielsen disse que 7% dos entrevistados listaram o YouTube como uma ferramenta de descoberta de música. O rádio permanecia sendo o vetor principal para infectar as massas com suas batidas. A versão de 2015 do mesmo estudo relata que sites de streaming só servem como forma de descoberta de novos artistas para 27% dos entrevistados.

Em outras palavras, há uma grande diferença entre o YouTube como serviço para ouvir música e o YouTube como método de descoberta de novos artistas.

O app recém-lançado pelo YouTube não faz nada para mudar isso, e também não faz basicamente nada que o outro app do YouTube já não faça. O YouTube Red não precisa dele para dar certo – ele é um bom negócio por si só, apesar de receber críticas por parte de criadores de conteúdo. E eu realmente duvido que, de alguma forma, o YouTube Music consiga alterar a forma como alguma pessoa se relaciona com o YouTube para ouvir música.

Ao menos ele pode servir para encorajar pessoas a usarem apps de música que eles ainda não conhecem – e que são indiscutivelmente superiores. O YouTube Music foi lançado apenas nos EUA por enquanto – ele não está disponível no Brasil.