Depois de tentar — e fracassar — lançar um serviço de streaming de música competitivo durante anos, o Google liberou o YouTube Music no mês passado. Você pode ter imaginado que a mais recente tentativa do Google de concorrer com plataformas como o Apple Music e o Spotify viria com novas ideias. Mas não. Uma rápida navegação pelo app revela que, no momento, ele é simplesmente um clone sem brilho do Spotify.

Embora não seja tratado assim, o YouTube já é a plataforma de streaming de música mais popular do mundo, com mais de um bilhão de usuários, muitos dos quais usam o serviço como sua maneira principal de consumir música online. Com o YouTube Music, a empresa está desesperadamente tentando convencê-lo a pagar por esse mesmo acesso. Lyor Cohen, chefe de música global do YouTube, disse no início deste ano, no festival SXSW, que o caminho para fazer com que você concorde em assinar um serviço seria te “frustrar e seduzir” com propagandas agressivas e uma funcionalidade gratuita limitada. Sua conversa com a imprensa não trouxe nenhuma visão de novos recursos animadores que fariam você querer assinar mais um app de streaming de músicas.

Ao abrir o novo app YouTube Music, a tela inicial traz novos lançamentos, seu próprio histórico de navegação por músicas, clipes recomendados e recomendações contextualizadas baseadas em fatores como local ou momento do dia. Pegar a estética do Spotify poderia ser perdoável se o YouTube Music construísse em cima do conjunto de recursos de seu concorrente. Porém, em vez disso, o YouTube basicamente não traz nenhuma nova ideia à mesa. Mesmo as playlists curadas do YouTube imitam o Spotify: RapCaviar, no YouTube, vira Rap Star Status, Clout Culture se torna Clout Rising, e a Viral 50 se transforma em Blogged 50.

À esquerda, o app móvel de Spotify. À direita, o do YouTube Music. Capturas de tela: Gizmodo

A infindável biblioteca de clipes do YouTube Music é legal, mas isso não é nada novo para usuários móveis de YouTube. Não existem novas maneiras de experimentar a música e nenhuma nova possibilidade de músicas e vídeos poderem interagir. Elias Roman, um gerente de produtos do YouTube Music, disse em entrevista ao Gizmodo que o YouTube está testando um recurso que permitiria uma transição suave entre músicas e vídeos. Esse recurso pode soar sedutor, mas Roman não ofereceu um cronograma para quando ele pode chegar. Isso é o tipo de ideia que poderia ajudar a justificar uma nova taxa de assinatura de música — uma justificativa que falta ao YouTube Music atualmente. Por ora, o serviço é simplesmente um YouTube mais o Spotify, o que, em 2018, não é o bastante.

Em março, o YouTube contratou Tuma Basa, o homem por trás da playlist mais popular do Spotify, a RapCaviar. O contratado apontou que a empresa estava pronta para investir mais em playlists e conteúdo; entretanto, um porta-voz do YouTube disse que Basa, no momento, não está trabalhando diretamente no novo serviço. Embora o YouTube tenha feito vídeos originais com artistas como Demi Lovato, não existe nenhum equivalente à estação de rádio Apple Music Beats 1 ou qualquer outro conteúdo oficial feito por curadores e músicos conhecidos atualmente no YouTube Music. A falta de um toque original e de curadoria — como playlists curadas por ou entrevistas com artistas — dificulta justificar uma assinatura do YouTube Music. Mas existe um ponto brilhante que poderia ter nos conquistado: a oferta de materiais criados por usuários que já está por aí há mais de uma década.

Como um nerd de música que constantemente usa o YouTube para ouvi-las, essa gama de diversidade é exatamente por que eu frequentemente vou para o YouTube em vez do Apple Music, do Spotify ou qualquer outra plataforma de música. A parte mais atraente do YouTube Music é como o serviço combina milhões de canções oficialmente licenciadas com remixes, covers e muitas outras formas de conteúdo criadas por usuários. O YouTube está repleto de discos já fora das prateleiras e de mixes de DJ que são o exato tipo de música que não se pode encontrar na maioria das plataformas. O fato de que eu posso colocar uma música de nicho assim em uma playlist junto com o último single do Bruno Mars é parte do que deve ser empolgante sobre o YouTube Music.

Infelizmente, o YouTube Music ainda não oferece qualquer nova maneira de os usuários colecionarem e curarem o conteúdo que fica nos servidores. As ferramentas de busca e navegação são bem limitadas (nada de década, gênero ou opções de estilo de música), e não existem novas maneiras originais de se criar de playlists. O Google Play, cujos usuários serão levados ao YouTube Music, atualmente permite que as pessoas publiquem músicas na nuvem e as coloquem nas playlists com outras músicas. Roman contou ao Gizmodo que o YouTube Music também terá esse mesmo recurso no futuro. Isso é uma boa notícia para usuários que, como eu, ainda acumulam seus MP3s e os querem lado a lado com seus vídeos favoritos.

Diferentemente do Spotify, que empurra playlists para você, ou do Pandora, que cria estações de rádio personalizadas, o YouTube Music até agora não tem uma experiência de audição claramente otimizada. O app é simples demais para alguém acostumado à experiência passiva de outros apps de streaming de música. E ele tem pouquíssimos recursos que aproveitam ao máximo a vasta biblioteca do YouTube. “Definitivamente, haverá um controle de biblioteca mais avançado”, disse Roman sobre as futuras opções de gerenciamento de coleções — “por exemplo, para organizar sua biblioteca por diferentes critérios, como alfabeticamente ou quando a música foi adicionada”.

Entretanto, as atuais opções de categorização de música são limitadas a salvar álbuns e playlists ou curtir faixas — nenhuma das quais é uma maneira eficiente de categorizar suas músicas favoritas. Usuários frequentes do YouTube talvez não tenham problema em descobrir o que fazer, mas o serviço não será muito acolhedor para muitos dos mais de um bilhão de usuários que estariam interessados em uma nova experiência de streaming de música.

Site desktop do YouTube Music. Captura de tela: YouTube (Google)

O YouTube tomou outras decisões ruins. No novo app, para você ouvir no dispositivo móvel em segundo plano, precisa pagar a assinatura de US$ 10 por mês. Isso, efetivamente, torna a versão livre do serviço inutilizável, a não ser que você não se importe de não poder usar qualquer recurso do seu celular enquanto ouve música. No desktop, o YouTube não tem nenhum problema quanto a isso, porque você pode simplesmente mudar de abas e não fica bloqueado em uma só tela para o consumo de músicas. Em comparação, o serviço gratuito do Spotify permite ouvir em segundo plano. A incapacidade de se fazer multitarefas enquanto se ouve música enfraquece o propósito do app móvel grátis.

Alguns recursos a caminho sugerem que o YouTube entende, sim, seus usuários. Um dos maiores canais de EDM no YouTube é o Trap Nation, mas, se você o procurasse no YouTube Music hoje, não saberia disso. Não existe página de criadores ou qualquer coisa para distinguir pessoas que se esforçam na curadoria de seus canais para promover ou apoiá-los. Roman mencionou que páginas de curadores e específicas de canais chegarão ao YouTube Music, mas, novamente, não ofereceu nenhum prazo preciso. É simplesmente frustrante que tais opções não estejam já incluídas no serviço.

Em geral, o YouTube Music parece uma tentativa sem muito esforço de te convencer a pagar por música em uma plataforma em que, na última década, você conseguiu tudo de graça em troca de assistir a anúncios. Considerando o quão inútil é a versão gratuita do app, parece que a única maneira que o YouTube quer que seus usuários consumam seu serviço de música é com uma assinatura paga. E isso é difícil de vender, porque o YouTube Music não oferece nada que você não consiga em outros lugares.

Imagem do topo: YouTube