O canal do YouTube “Você Sabia?” recebeu R$ 65 mil do governo federal para falar sobre a reforma do ensino médio, aponta o jornal Folha de S. Paulo. O vídeo, de outubro de 2016, intitulado “tudo o que você precisa saber sobre o novo ensino médio“, elogia as mudanças propostas pelo Governo e mal sinaliza que se trata de uma peça publicitária.

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Na última linha do campo de descrição do YouTube, há a indicação “#publi”, e no começo do vídeo é exibida uma pequena linha no lado esquerdo inferior com a indicação “contém promoção paga” – essa nota aparece rapidamente no início e não faz parte da montagem do vídeo em si, mas uma espécie de anotação feita por meio da plataforma. O conteúdo não indica que se trata de publicidade, pelo contrário, os apresentadores tratam como se o tema tivesse surgido da própria iniciativa do canal.

“Tem muita gente falando sobre isso nas redes sociais, em jornais, em sites, mas, ao mesmo tempo que está rolando muito assunto sobre isso, tem muita gente que está desinformada”, comenta um deles. Em seguida, sua dupla completa: “Porque assim, um fala uma coisa, outro vai lá e fala outra, aí o outro vai lá e dá a opinião dele, e quando vai ver você não está entendendo nada. E aí a gente está fazendo esse vídeo para explicar pra vocês, né?” Já no final do vídeo, eles completam: “A gente achou o tema bastante interessante, uma galera discutindo nas redes sociais, e então falamos: deixa com nós que a gente explica direitinho”.

O canal “Pyong Lee” também publicou um vídeo, no dia 5 de janeiro, que recebeu verba do governo. Durante o vídeo também não fica explícito que se trata de um conteúdo patrocinado, mas a indicação “#publi” esta na primeira linha da descrição. Segundo a Folha de S. Paulo, o valor pago por esse vídeo ainda não foi confirmado pelo MEC.

A reforma no ensino médio foi sancionada nesta quinta-feira (16) pelo presidente Michel Temer. O governo acelerou a tramitação no Congresso Nacional por meio de uma medida provisória.

Outros dois canais receberam a proposta para produzirem conteúdos positivos sobre a reforma do ensino médio, mas recusaram. Todos eles foram encomendados pela Digital Stars, produtora que representa grandes youtubers no Brasil. O MEC afirma que a agência foi escolhida por licitação e que a estratégia faz parte do plano de comunicação institucional.

Casos similares já aconteceram nos Estados Unidos, um dos mais notáveis foi envolvendo o YouTuber PewDiePie e a Warner. A Federal Trade Comission (FTC) determinou que a companhia pagou a produtores para falarem bem do jogo “Shadow of Mordor”, em 2014, fazendo “publicidade velada”, sem avisos claros de que se tratava de um conteúdo pago. Como punição, a Warner foi proibida de fazer publicidade com YouTubers. O FTC já exigiu também, em 2016, que a família Kardashian apagasse ou editasse mais de 100 publicações no Instagram, para deixar claro que se tratavam de conteúdos pagos.

Por enquanto, a única consequência para a dupla foi a perda de pouco mais de mil seguidores desde a reportagem da Folha. Como mostra a ferramenta SocialBlade, eles vinham ganhando entre 3,5 e 7 mil inscritos diariamente. Hoje, registram números negativos.

No Brasil, quem costuma fazer essas fiscalizações é o CONAR, agência reguladora de publicidade. Em seu Código de Autorregulamentação Publicitária, a agência diz que todos os conteúdos patrocinados devem ser sinalizados. Em denúncias de publicidade velada, o CONAR realiza uma investigação e avalia se houve falta de ética e se o conteúdo publicado fere o Código Brasileiro de Publicidade, e, depois disso, um conselho realiza um julgamento. No entanto, esse conselho possui pouco poder.

Geralmente é solicitada uma correção do conteúdo para que seja feita a indicação, como aconteceu no caso com a blogueira fitness Gabriela Pugliesi em 2016. Outra punição é a recomendação de retirada do post. Em último caso, a entidade pode publicar um anúncio condenando e prática e expondo os nomes dos envolvidos. Para medidas mais severas, é preciso que o Procon, ou outro órgão de defesa do consumidor, decida avaliar o caso. O CONAR diz que veículos de comunicação, filiados ou não ao órgão, não costumam desrespeitar suas decisões. A agência avalia também ações envolvendo o governo, como aconteceu na campanha ‘gente boa também mata’.

[Folha de S. Paulo]