O New York Times publicou uma extensa reportagem sobre o Facebook que mostra detalhes de como a empresa lidou com os problemas dos últimos anos. Após entrevistar mais de 50 pessoas, incluindo ex-funcionários e atuais, o jornal norte-americano sustenta a tese de que a companhia foi negligente em tomar ações para evitar, por exemplo, a influência russa.

Acionistas querem tirar poder de comando de Zuckerberg após escândalos do Facebook
Facebook lança botão de contexto no Brasil para combater fake news, mas agora está meio tarde

De acordo com o NYT, os líderes da empresa demoravam para tomar ações, num segundo momento negavam a existência do problema e, num terceiro momento, tentavam desviar a atenção daquilo. O Facebook publicou um longo comunicado respondendo às “imprecisões” do jornal norte-americano.

A reportagem é imensa, e trata de tudo um pouco: a raiva de Zuckerberg com Tim Cook, da Apple; a demora para reconhecer os problemas e uma suposta operação para descreditar críticos.

Só usar telefones Android

Tim Cook, CEO da Apple, passou a criticar fortemente o Facebook depois de haver relatos que dados pessoais de usuários tinham sido obtido por terceiros. “Privacidade para nós é um direito humano, é um direito civil”, disse o chefão da empresa da maçã em uma entrevista para a MSNBC. “Nós não vamos espionar sua vida.”

Zuckerberg teria ficado furioso com as declarações e pediu para que toda a equipe de gerentes utilizasse apenas telefones Android, argumentando que o sistema tinha muito mais usuários que a Apple.

O que o Facebook diz: a decisão de pedir para os funcionários usarem o Android tem relação com o fato de ser a plataforma mais popular do mundo. Então, faz sentido que as pessoas a conheçam para desenvolver melhor os produtos da empresa.

Deixando os problemas para depois

A liderança da empresa, diz o New York Times, estava preocupada em crescer e ligava muito pouco para problemas de desinformação ou o uso da rede para espalhar ódio. O primeiro sinal de problema apareceu e 2015 quando o então candidato Donald Trump havia proposto o banimento da entrada de muçulmanos nos EUA.

A rede considerou tomar algum tipo de ação, mas preferiu não fazê-lo pelo fato de Trump ser uma pessoa pública. Sheryl Sandberg, chefe de operações do Facebook, tinha acabado de voltar ao trabalho após a morte de seu marido e delegou delegou a tarefa de lidar com assuntos relacionados à disseminação de ódio a outros funcionários.

Apenas recentemente, portanto depois de três anos, a empresa admitiu ter influenciado na disseminação de discursos de ódio. Os casos atuais mais notórios têm relação com conflitos no Sri Lanka ou o genocídio de muçulmanos rohingyas em Myanmar.

Sobre a disseminação de notícias falsas, em 2016, antes das eleições presidenciais nos EUA, foi comunicado internamente que havia sinais de atividade russa para influenciar o pleito. A rede pouco fez e Zuckerberg chegou a publicar no fim daquele ano que não acreditava que as notícias falsas tivessem tido alguma influência significativa no pleito. Posteriormente, forneceu detalhes de gastos feitos durante as eleições por agentes russos e começou a tratar as fake news mais a sério.

Em 2017, enquanto Zuckerberg fazia um tour para ouvir mais as pessoas nos EUA, a rede publicou um documento sobre notícias falsas. Segundo o jornal, havia certa preocupação interna em citar a Rússia, pois pareceria que o Facebook estaria contra o partido republicano, que havia ganhado as eleições com Trump no ano anterior — o Vale do Silício geralmente se identifica com os democratas, então citar a Rússia daria argumento para os republicamos dizerem que o Facebook tem lado.

O que o Facebook diz: sobre as notícias falsas no pleito de 2016, o Facebook informa que em novembro de 2016 detectou diversas ameaças de agentes russos, que usavam identidades falsas e que apagou essas contas.

Sobre o documento em que a Rússia não foi mencionada, o Facebook alega que preferiu citar um documento do Governo dos Estados Unidos em que era citada a influência. Aqui, o argumento foi meio que “botar na boca do governo” a afirmação de que o país comandado por Putin tinha metido o bedelho nas eleições. Lembre-se: o Facebook atua na Rússia também.

Campanha contra críticos

O Facebook teria contratado uma empresa de consultoria política, chamada Definers, para espalhar teorias conspiratórias sobre quem criticasse a rede social.

Ainda que a rede tenha pedido desculpas pelos escândalos — da interferência russa à questão da Cambridge Analytica —, a rede passou a se voltar para a crítica de adversários. Em um caso, a Definers começou a espalhar que um grupo de ativistas era financiado pelo mega investidor George Soros.

Soros, se você nunca ouviu falar dele, é um bilionário e filantropo de origem húngara. Ele costuma apoiar causas políticas progressistas por meio da sua fundação Open Society Foundations. Alguns republicanos acreditam que Soros está em uma grande cruzada para prejudicar os Estados Unidos. Recentemente, uma bomba foi deixada perto de sua casa nos EUA, mas foi interceptada pela polícia.

O que o Facebook diz: a companhia rompeu o contrato com a Definers nesta quarta-feira (14) e a rede diz que nunca pagou “para que a Definers escrevesse artigos em nome do Facebook — ou espalhar informações falsas”.

A Definers, informa a rede, tentou chamar a atenção para o financiamento de uma organização chamada “Freedom from Facebook”. A ideia era demonstrar que não era algo espontâneo, mas uma empreitada que tinha suporte de críticos conhecidos da empresa.

[NYT]