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A história por trás dos ícones universais que surgiram muito antes dos emoticons

Antes dos ícones que você usa no WhatsApp, antes dos símbolos que você usava no MSN, antes mesmo do :), existia outra linguagem visual - conheça o isotype.

Antes dos ícones que você usa no WhatsApp, antes dos símbolos que você usava no MSN, antes mesmo do :), existia outra linguagem visual que ajudava a nos guiar mundo afora. Antes do emoji havia o isotype, uma influente linguagem pictórica inventada nos anos 1920. E ela continua a influenciar nossas vidas até hoje.

“Isotype” é a sigla em inglês para Sistema Internacional de Educação Tipográfica Pictórica, uma linguagem visual criada para compartilhar ideias atravessando barreiras de idioma e de alfabetização. Ela acabou tendo um impacto incrível em infográficos, espaços públicos e orientação espacial, de acordo com o livro Isotype: Design and Contexts, 1925-1971 – e há uma história bem bacana por trás desse design usado para nos comunicarmos sem (muitas) palavras.


Para ilustrar a influência do isotype: um “mapa” da população mundial feito por Otto Neurath, e um infográfico de 2008 do New York Times representando as mortes no Iraque

“O isotype continua sendo a principal influência na visualização de dados, mas muitos dos designers de hoje podem não perceber que havia um caráter humanitário e utópico nos fundamentos da criação dessa linguagem”, diz Steven Heller em um artigo sobre o isotype na The Atlantic.

No começo dos anos 1920, o filósofo vienense Otto Neurath e sua futura esposa Marie fundaram o Instituto Isotype, recrutando designers para criarem uma linguagem gráfica que pudesse ser universalmente compreendida. Eles trabalharam em mapas, gráficos e outras visualizações que interpretavam e explicavam ideias complexas sobre o cotidiano, indústria e ciência na Áustria. Eles também criaram os ícones, elementos gráficos simples que poderiam representar uma ideia maior. Os conceitos resultantes eram simples o bastante para até crianças entenderem.


Do livro “Isotype: Design and Contexts, 1925-1971”

Mas o objetivo não era ajudar pessoas a encontrarem banheiros em países estrangeiros (pelo menos não ainda). O idealismo de Neurath tinha raízes no socialismo, com a intenção de melhorar a assistência médica, as condições de trabalho e o dia a dia de seus companheiros austríacos.

Devido aos acontecimentos políticos na Áustria antes da Primeira Guerra Mundial, Neurath foi forçado a mudar o instituto de lugar, primeiro para a Holanda. Por causa da invasão nazista, ele teve que ser realocado novamente, dessa vez para a Inglaterra, onde existiu até 1971. Ainda que ele não pudesse ter previsto a necessidade de situar o instituto em três países diferentes, o simbolismo se encaixa muito bem: aquela que pretendia ser uma linguagem universal foi desenvolvida em três culturas diferentes.

O mais bacana do isotype é que ele se espalhou para outros países, à medida que designers tentavam contribuir para o projeto com suas próprias ideias. A União Soviética (onde o isotype se chama IZOSTAT/ИЗОСТАТ), os EUA e nações africanas tiveram vertentes próprias do isotype.

Nos anos 1970, nos EUA, o Departamento dos Transportes fez uma parceria com a AIGA, organização americana de designers gráficos, para criar ícones padronizados que podem ser usados em tudo, de aeroportos à sinalização de estradas.


Alguns dos “Symbol Signs” criados pela AIGA em parceria com o Departamento de Defesa dos EUA

Nem todos os designers são fãs do isotype. O guru dos infográficos, Edward Tufte – que pode ser visto como a geração seguinte da filosofia de Neurath – na verdade critica a linguagem, por achar que falta riqueza de dados nela. Mas o isotype não precisa ser particularmente sofisticado, já que sua intenção não é a mesma de Tufte – tornar belo o antes entediante campo da visualização de dados.


A elegante visualização de Tufte da linguagem de sinais nos aeroportos

O trabalho de Tufte explica ideias complexas de uma forma bela e simples, mas ele não é o descendente mais direto do isotype. Hoje, o Noun Project procura atualizar a linguagem iconográfica, realizando hackathons temáticos onde designers trabalham para criar ícones para novas ideias que precisam de uma representação visual melhor, como painéis solares e casamento igualitário.


Ícones criados como parte do Noun Project

Se você der uma olhada no site do Noun Project, vai encontrar ícones para quase tudo, desde carros elétricos até braços robóticos. Aqui, os designers estão visualizando novas ideias, que podem trazer mudanças sociais — eu diria que isso está diretamente ligado ao conceito original do isotype. Isso também prova o poder e a relevância do design gráfico simples.

Esse espírito permanece na criação atual de ícones. O Google, por exemplo, disponibilizou esta semana 750 ícones gratuitos em licença Creative Commons, refletindo o Material Design que vimos no Android, e eles são tão simples e universais quanto os que vimos acima:

Os emoticons e o emoji, à sua própria maneira, podem ser vistos como primos distantes do isotype. E eles estão se expandindo: este ano, foram criados 240 novos emoji padronizados pelo Unicode Consortium. Há quem tente se comunicar só usando esses símbolos, o que é ir longe demais; mas muitas vezes, uma imagem é realmente mais valiosa que mil palavras.

Imagem inicial: Ícones isotype por Gerd Arntz

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