A casa conectada é algo como um zeitgeist emergente, oferecendo aos consumidores de hoje um mundo doméstico dos sonhos em que todos os objetos da sua casa poderão ser controlados remotamente, sincronizados e ativados de acordo com padrões pré-definidos, de sistemas de aquecimento a iluminação personalizada, de cafeteiras a alarmes.

Durante a Pepcom, na segunda-feira, os vários hubs e subsistemas que permitirão tornar esta visão realidade estavam em demonstração em diversas mesas espalhadas ao redor do espaço de convenções; quem não ficava sem palavras ao ver diversos atores andando vestidos de personagens de O Mágico de Oz, ou então simplesmente encantado com vídeos de pessoas colocando tomates em sacolas plásticas nas enormes telas em HD das novas televisões – sim, tinha um vídeo assim, e eu parei para ver -; deve ter dado de cara com roteadores, termostatos, sistemas de alarme, sensores de movimentos, fechaduras e mais de empresas como HoneywellSchlageNexia, e Revolv.

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Essas – e outras empresas que não participaram da Pepcom, como a Iris – são orquestradoras de uma nova visão do lar moderno. A casa talvez seja vista agora menos como um espaço aconchegante definido pela personalidade das pessoas que vivem lá dentro do que uma constelação imersiva de objetos técnicos comunicando entre si sobre seus status e necessidades em tempo real. Nós vamos viver junto com sistemas familiares de coisas inteligentes, essas empresas dizem, e nossas casas vão ser habitadas por redes pré-programadas e responsivas para nossas necessidades mais impulsivas.

De fato, a noção de que esses dispositivos são, de certa forma, o futuro das famílias, está presente até mesmo em alguns dos equipamentos; veja, por exemplo, o sistema Mother de sensores de comunicação mostrado aqui na CES. “Ela sabe tudo sem precisar perguntar”, nos explica a empresa, ignorando as possíveis implicações sinistras disso. De fato, a Mother oferece “o sentido da vida”, nós lemos, operando “como cabeça de uma família de pequenos sensores conectados que vão se misturar à sua vida diária para torná-la serena, saudável e aprazível.”

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Como uma versão pobre de Tony Stark – que, apesar da sua armadura, passa a maior parte do dia sozinho em um quarto sem janelas conversando com máquinas – nós parecemos destinados a substituir nossos entes queridos por alternativas interativas, e uma casa automatizada e conectada é uma ideia de como isso pode ser no futuro.

A Honeywell, por exemplo, mostrou seu termostato ativado por voz. Para operá-lo, você simplesmente inicia qualquer comando térmico que quer fazer na sua casa com as palavras mágicas “Olá, termostato”, e voilá, a máquina é sua, aumentando ou diminuindo a temperatura conforme a sua necessidade. O sistema consegue aprender a sua voz também, e consegue responder a qualquer mudança na sua entonação ou sotaque. Porém, ou eu não fiz minha pergunta com muita clareza, ou os representantes da empresa não temem que o sistema tenha alguma possibilidade de não compreender ou interpretar os comandos do usuário. Em vez disso, eles estavam – compreensivelmente – mais entusiasmados com a precisão da temperatura mostrada, com o fato do termostato ser preciso a menos de um grau dos sistemas térmicos de verdade. Quando perguntei se algo como um programa de TV – onde um personagem diz ‘Olá, termostato” – poderia ligar acidentalmente o dispositivo, um representante riu e disse que, bem, sim, isso pode afetar o sistema.

Quando criança, lembro de ouvir histórias sobre o The Clapper que diziam que ele era ativado em casas, ligando ou desligando a luz, quando duas palmas rítmicas ocorriam, por qualquer razão, em um programa de TV ou até em uma música. E não é difícil imaginar, caso o termostato da Honeywell se torne popular, que pessoas digam “Olá, termostato” na TV apenas para incomodar aqueles telespectadores que contam com um aparelho em casa. A ideia de pessoas hackearem sua casa automatizada ativando aparelhos por comandos de voz feitos fora de casa, por exemplo, fazendo com que ela esquente ou esfrie, não é nada absurda.

Logo depois, passamos pela mesa da Nexia Schlage para aprender um pouco mais sobre sistemas coordenados de objetos, algo que o Gizmodo já comentou antes. Existem algumas possibilidades interessantes por aqui, que são compartilhadas com o sistema Revolv (o qual eu quase não mexi direito, então apenas vou mencioná-lo para reconhecer a sua presença na exposição).

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Existem duas características interessantes no sistema Nexia/Schlage. O primeiro é simplesmente repensar a fechadura da porta: em vez de uma chave física, você entra com um código numérico como um PIN em um teclado digital. O que isso permite, no entanto, são múltiplos PINs para pessoas diferentes – pais, filhos, e ate empregados – com o resultado de que você consegue saber quem entra e sai da sua casa, assim como quando entrou ou saiu. O que isso pode fazer com adolescentes que chegam mais tarde do que deviam em casa é trágico, tenho que dizer, mas claro que não estou aqui para dizer como você deve cuidar dos seus filhos. Tudo o que sei é que minha vida inteira seria diferente – para o bem ou para o mal – se eu não pudesse sair de casa sem ser percebido quando era adolescente.

Adicionalmente, isso significa que você pode programar janelas permissíveis para o funcionamento de certos códigos – como, por exemplo, o código 1-2-3-4 só funciona a partir das 9 da manhã de uma terça-feira, e esse código é o que você entrega para a empregada doméstica. Isso faz com que sistemas seguros de portas conhecidos do mundo dos negócios seja usado em casa, com o resultado possível de fortificar e rastrear invasivamente o uso do espaço doméstico pelos membros da sua família.

No entanto, o que mais me cativou na discussão com o pessoal da Nexia/Schlage foi como você pode usar seu sistema geral Nexia para programar iluminação interna específica para diferentes usuários do espaço. Como salvar as configurações do assento do carro, você pode salvar e ativar certos padrões de luzes na casa (ele usou o exemplo da sua filha de três anos de idade precisando de luzes específicas durante a noite).

Esta é uma tecnologia existente, é claro, e não é exatamente novidade, mas as implicações arquitetônicas por aqui são sensacionais. Você pode, por exemplo, iluminar certos objetos – obras de arte, por exemplo – que de outra maneira seria impossível sem aquele regime específico de luzes ligado. Você quer olhar para a sua coleção de vasos premiados ou algumas pequenas pinturas, mas não quer que mais ninguém as veja? É possível programar pontos cegos e zonas de invisibilidade na sua casa usando essas configurações personalizadas.

Levando isso a um extremo, você poderia assim definir um código de segurança para diferentes padrões de iluminação e efetivamente usar a luz para redefinir o interior de um edifício de maneiras quase infinitas, permitindo que pessoas vejam certos objetos ou, com a ajuda de vidros internos e espelhos de uma via, esconder cômodos inteiros da vista de alguém até que alguém com o código correto chegue para ativar aquele sistema de iluminação específico.

Como uma série estranha de iniciações – uma sociedade secreta de obcecados por eletricidade – você pode até criar um código de iluminação definitivo para o interior de um edifício, assim mostrando o interior da forma com o arquiteto ou proprietário imaginar, escondendo salas e objetos até que você ganhe acesso iluminativo necessário. Ou seu avô morra e você herde apenas um código de iluminação, e todo mundo ridicularize isso… até você voltar à casa dele à noite, digitar o código, e descobrir a existência de pequenos quartos escondidos, agora iluminados por dentro e que revelam a sua verdadeira herança.

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De qualquer forma, a ideia de você poder personalizar a sua casa tão profundamente que um prédio pode ter, por exemplo, diferentes interiores disponíveis para diferentes pessoas em momentos diferentes, é facilmente uma das promessas mais interessantes da casa automatizada.

Abusar criativamente destes sistemas de rede para explorar o maior número de implicações possíveis no design doméstico em uma era de objetos conectados será, ao mesmo tempo, como ativar certos estilos de vida, ao mesmo tempo que também será uma versão mais leve de design arquitetônico, dando a arquitetos e proprietários um nível profundo de controle sobre a experiência de um espaço, seja de como ele é iluminado ou a sua temperatura, sons de fundo e umidade.