Que os últimos anos dos Beatles não foram lá tão harmônicos, isso até os beatlemaníacos mais fervorosos costumam admitir. Entre o lançamento dos álbuns Abbey Road, Let it Be e o término da banda, houve um período marcado por desentendimentos e pequenos hiatos.

Imagens e relatos da época mostram o desgaste da convivência e a frustração dos músicos tentando produzir algo tão grandioso como os primeiros anos de carreira –e sugerem um divórcio iminente.

Mas Get Back, novo documentário dos Beatles já disponível no Disney+, se esforça em mostrar exatamente o oposto.

As imagens usadas no longa foram extraídas de um material bruto de mais de 56 horas, captado durante quase um mês em janeiro de 1969. A ideia era que as fitas virassem um documentário para promover a volta da banda após três anos longe dos palcos.

Mas o material, transformado num filme lançado em 1970, se tornou mais um poslúdio triste para o fim dos Beatles do que o anúncio de um retorno triunfal. 

Peter Jackson (diretor de Senhor dos Anéis) e beatlemaníaco de carteirinha, levou quatro anos para editar e restaurar as filmagens da época. O resultado foi uma série de quase 8 horas, divididas em três episódios. O primeiro deles foi lançado no Disney+ nesta quinta (25), e há mais dois saindo do forno nos próximos dias: o segundo estreia na sexta e o último, no sábado.

O Gizmodo Brasil foi convidado para a exibição de uma versão condensada do documentário, com 1h40 de duração. Esse “corte do diretor” mostra os garotos de Liverpool –que, a essa altura da carreira, nem eram mais tão garotos assim– em um clima leve nas gravações no estúdio e escrevendo novos hits durante uma fase ultra-produtiva.

Avisamos aqui que você, leitor, está adentrando uma zona de spoilers. Caso não queira saber o conteúdo de algumas partes do documentário, dê meia volta e só retorne a este texto quando tiver terminado a série.

1 – Músicas nascendo na hora

O documentário sabe entregar aquelas cenas de bastidores que os fãs adoram. Em algumas delas, é possível ver clássicos da fase final dos Beatles nascendo –e sendo aperfeiçoados pelos integrantes.

Naquela que parece ser uma das primeiras vezes em que Paul McCartney performa Let It Be, George sugere que o intérprete faça uma introdução no piano antes da frase “When I find myself in times of trouble, Mother Mary comes to me”. Paul, então, improvisa na hora uma solução para o instrumental.

Outra passagem mostra George patinando para finalizar os versos de Something. O guitarrista não sabia com o que complementar a frase “Something in the way she moves attracts me like…”. Em um momento de descontração, ele sugere que os Beatles cantem “like a pomegranate” (como uma romã, na tradução livre) enquanto não encontram um substituto melhor.

O processo de criação de outros hits da fase final da banda, como Don’t Let Me Down, também ganha destaque. Muitas músicas de suas carreiras solo também estão sendo criadas e aperfeiçoadas nas cenas, sempre com pitacos de outros integrantes.

2 – O show do terraço

A última apresentação pública de uma das maiores bandas de rock da história aconteceu de forma totalmente despretensiosa. No dia 30 de janeiro de 1969, os músicos subiram no terraço de um prédio no centro de Londres e simplesmente começaram a tocar músicas desconhecidas do público –que depois fariam parte do álbum Let It Be. Tudo com os instrumentos e microfones no último volume.

O retorno “triunfal” dos Beatles não passa despercebido, claro.

Uma dupla de policiais londrinos tenta chegar até o terraço para parar com a balbúrdia. Os homens da lei têm um argumento forte: o que o quarteto de Liverpool fazia à luz do dia poderia ser considerado perturbação da paz, e eles, apesar de não quererem, precisariam efetuar prisões se o volume não diminuísse. “Foram 30 reclamações em minutos”, diz um jovem policial, filmado pelas câmeras do documentário.

A produção também brilha ao dar destaque a entrevistas captadas com transeuntes, que se acumulam para ouvir a apresentação. Um homem de negócios diz que os Beatles não tinham direito de atrapalhar o expediente de quem trabalha ali. Uma senhora reclama de ser acordada de seu sono da tarde pela barulheira.

Outro, mais jovem, diz não querer ouvi-los, por simplesmente não gostar da banda. Mas todos os entrevistados, quando questionados sobre quem estava se apresentando, respondem de pronto: estão ouvindo os Beatles. “Quem sabe conseguimos passar na audição”, diz Lennon ao final do show, em seu característico tom bem-humorado.


3 – Clipes para as músicas de Let It Be e Abbey Road

Ainda que sejam músicos extremamente prolíficos e tenham feito centenas de shows em sua fase mais produtiva, o legado dos Beatles por vezes esbarra na barreira da tecnologia. Muitas dessas apresentações ao vivo sequer foram gravadas –ou, se foram, têm má qualidade e um áudio que compromete a experiência.

Get Back brilha ao conseguir mostrar alguns desses momentos com boa qualidade de reprodução. Diversos takes mostrados durante o documentário são espécies de “clipes” para as versões finais das músicas, assim como estão nos álbuns Abbey Road e Let It Be. Algumas delas (como I’ve Got a Feeling e One After 909) foram extraídas do “show do telhado”, outras surgiram após serem regravadas mais de 20 vezes em sequência no estúdio. Para os fãs, saber o processo de aperfeiçoamento até a versão final (e a escolha de qual delas será a definitiva) é um prato cheio.

4 – Beatles felizes

Em uma das cenas, Paul cantarola uma notícia de jornal sobre a agressão de George a um fotógrafo como se fosse uma música. Em outro trecho, a banda, seus assessores e convidados dançam felizes dentro do estúdio ao som de Blue Suede Shoes, com Elvis Presley. Sempre sorridente e brincalhão, John Lennon beija Yoko Ono no meio de uma gravação, após ter conseguido seu divórcio e estar “livre, finalmente”. A própria presença de Yoko, muitas vezes apontada como pivô do término, parece mais leve e bem recebida pelos outros Beatles. 

Em resumo, o que parece ser o maior acerto de Get Back é também o mais trivial: os momentos de descontração entre os ensaios e gravações, que trazem à tona o lado mais humano e extrovertido de músicos super talentosos. É assim, afinal, que os fãs gostam de lembrá-los.