Há quase um ano, o desenvolvedor Marco Arment dizia que não se interessava pelo Android: seu app Instapaper lhe rendeu mais dinheiro no iOS depois que ele removeu a versão gratuita com anúncios; enquanto no Android vender apps pagos é difícil e propagandas podem render pouco. Então em dezembro, ele fez o desafio: criem um app pago e ótimo do Instapaper para Android, e este será o app oficial da plataforma. O desenvolvedor Ryan Bateman aceitou o desafio e criou o ótimo Papermill. Deu certo?

Não muito.

Sim, o Papermill (baixe-o aqui) é um ótimo app para ler seus favoritos do Instapaper no Android, e o recomendamos no Melhores Apps da Semana. O Papermill custa, no total, o mesmo que o Instapaper no iOS: enquanto o app para iPhone e iPad custa US$4,99, o Papermill custa US$3,99 mais US$1 pela assinatura do Instapaper. Mas eis a diferença: o app para iOS sustenta o desenvolvedor Arment – “agora ele leva uma vida boa – confortavelmente nos seis dígitos [por ano] – só das vendas do app”, diz a NPR. Enquanto isso, o app para Android só deve compensar os custos “em aproximadamente 5 anos”, diz Bateman.

Bateman diz que tem experiência de 3 anos em desenvolver para Android, e criou o novo app com ajuda do designer Matt Legaspi. Com a vontade de criar um app ótimo do Instapaper e inspirado pelas novas diretrizes de design do Android e pelo desafio de Arment, ele começou o trabalho no Papermill. Bateman diz que Arment desistiu do desafio para Android (uma pena), mas ele continuou a fazer o app mesmo assim.

Gratuito x pago

O app chegou ao Google Play três dias antes do Readability para Android (ao lado). Ambos têm a mesma função básica – guardar links e formatar textos para facilitar a leitura – só que o Readability é de graça. Enquanto este já ultrapassou a marca dos 10.000 downloads mas é mal-avaliado, o Papermill mal chegou aos 1.000 downloads, porém teve uma ótima recepção. Alguns dias depois de lançado, o Papermill virou assunto de grandes blogs de tecnologia, porém mesmo assim só conseguiu no máximo 107 instalações em um dia – este número já caiu.

Resultado: até 30 de março, o Papermill conseguiu vender 411 unidades, gerando US$1.140 de receita líquida (já descontando a parte do Google) – isso cobre com folga os custos de webhosting e outros serviços. Só que não cobre o custo do trabalho que Bateman teve: considerando uma remuneração para desenvolvedor freelancer de Android, ele iria recuperar os gastos em 5 anos. Agora fica mais fácil entender porque Arment diz: “não tenho tempo o suficiente para desenvolver e manter mais apps nativos”. Ryan não vai abandonar o Papermill, mas conclui:

Com isto em mente, é fácil concluir que o aplicativo, com seu preço atual e a necessidade de uma assinatura, nunca vai dar lucro… Se eu criasse uma versão “freemium” ou com propagandas, a rentabilidade do app com certeza iria aumentar, mas eu acredito que isto iria reduzir a qualidade da experiência que o app oferece, que é rara no Android.

Eu acho que isto…. é uma consequência de usuários do Android não estarem dispostos a pagar por um app cujo foco é qualidade, e cujo preço reflita isso. Em vez disso, estes usuários optam por uma experiência gratuita, porém menos refinada. Isto levou a um nivelamento por baixo, com desenvolvedores independentes criando apps que são realmente de graça e dependendo de propagandas para lucrar.

Isto tudo também pode jogar luz em por que apps para tablets Android são tão ruins comparados aos do iPad: são poucos os usuários, e muitos não estariam dispostos a pagar por algo melhor – mas isto é apenas teoria. Na prática, este é um aviso de que nem sempre podemos ter ótimos apps no Android: eles custam caro, mas há poucos dispostos a pagar o preço. [Papermill]