As camuflagens – ao menos da forma como conhecemos hoje – se desenvolveram junto com o modernismo. E mesmo que a relação entre arte e guerra tenha sido por muito tempo ignorada por historiadores, hoje já podemos ver quão ligadas elas estão. Particularmente quando falamos em esconder as coisas.

Muitos de nós conhecemos o pintor britânico Norman Wilkinson pelo desenvolvimento dos “Dazzle Ships” durante a Primeira Guerra Mundia (Picasso afirma que os cubistas inventaram este tipo de pintura). Outros jovens artistas tiveram papel fundamental no desenvolvimento de tecnologias que ajudaram a vencer a Segunda Guerra Mundial também. Nos anos 40, ideias sobre a percepção visual do Cubismo e Surrealismo foram transportadas diretamente de salões para quartéis. Se a vanguarda não tivesse focado em chegar ao fundo da percepção humana do mundo ao seu redor, as forças aliadas não teriam conseguido se esconder nem detectar tão bem.

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Um navio “dazzle” em 1918

Nos anos 1920, cientistas e fotógrafos estavam interessados em manipular a visão humana. Na iminência de uma guerra no final dos anos 30, os militares tinham feito grandes avanços tanto em como aeronaves eram avistadas de baixo quanto de cima, graças a avanços na visão infravermelha e outras técnicas. Então, quando a guerra começou, a questão da camuflagem se tornou muito mais importante do que era. E felizmente para os exércitos, os desenvolvimentos radicais no mundo da arte tratavam do mesmo problema – só que com motivações diferentes.

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A exibição de camuflagem na Escola de Design de Chicago em 1943via

Artistas radicais como László Moholy-Nagy, que foi de Bauhaus para Chicago, logo foram aproveitados para revolução das camuflagens. Moholy-Nagy era o candidato perfeito: suas esculturas cinéticas e pinturas manipulavam o olho humano usando padrões, sombreamentos e partes em movimento – e os militares queriam fazer basicamente a mesma coisa. Como professor da Escola de Design de Chicago, ele começou a organizar estudantes para ajudarem a aplicar as mesmas ideias para camuflagem algumas semanas após Pearl Harbor.

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Lockheed Air Terminal, em Burbank, escondido por um pano em 1942

A contribuição de Moholy-Nagy variou de esconder de um alvo cilíndrico (como um silo ou um tanque de propano) usando tinta a como padrões podem enganar os olhos a distância. Em 1941, Moholy-Nagy foi apontado para a equipe pessoal do prefeito – ele foi encarregado de ajudar a esconder Chicago em caso de ataque. “Durante nevascas e tempestades, sob neblina ou luz do sol, ele tinha que voar para absorver as visões aéreas da cidade em diferentes condições climáticas”, escreveu um biógrafo. “Enquanto ele lutava contra o enjoo no avião, algo que nunca foi superado completamente, ele ponderava como poderia esconder a imensidão do Lago Michigan com uma linha costeira e ilhas flutuantes simuladas.

Estas camuflagens para cidades inteiras parecem maluquice agora, sabendo que este tipo de ataque jamais ocorreu, mas a ideia foi adotada em diversas outras cidades – Burbank, por exemplo, foi temporariamente escondida debaixo de uma fina camada de gaze em 1942. Logo, a escola de Moholy-Nagyse tornou uma “escola certificada para camuflagem pessoal”, e começou a atrair a atenção de pessoas por todo o país. Em 1943, ele foi o curador de uma exibição popular com suas descobertas. Ainda assim, sua contribuição para o exército dos EUA raramente é mencionada – provavelmente porque seu papel foi muito mais no mundo da arte e da arquitetura.

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László Moholy-Nagy e György Kepes, “Materiais para camuflagem,” Defesa Civil, setembro de 1942.

Outras nações Aliadas também usaram talento artístico para os mesmos fins. Na Inglaterra, o pintor surrealista e amigo próximo de Picasso, Roland Penrosa, trabalhou para estabelecer um padrão inglês para esconderijos – que era mais importante, tendo em conta a proximidade do Reino Unido e da Alemanha. Seu livro, Home Guard Manual of Camouflage, era um verdadeiro guia de técnicas de pinturas populares na época – do Cubismo ao Pontilhismo – aplicado para fins bélicos. Ele passou a fazer parte do Instituto de Artes Contemporâneas de Londres.

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Na Austrália, dois famosos artistas modernos seguiram um caminho parecido, detalhado em um excelente post da professora australiana Ann Elias. Ela descreve como o fotógrafo Max Dupain e o pintor Frank Hinder trabalharam para aplicar as últimas técnicas do modernismo em ilusões de guerra, variando de dupla exposição a sombreamento obliterante, um estilo que dificultava a distinção entre primeiro e segundo plano. “A dissolução abstrata da forma, a subversão surrealista da autoridade da visão, desorientação de perspectiva e fragmentação cubista. Tudo isso era tendência modernista”, observa Elias.

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Experimentos de Max Dupain com camuflagem ótica

Então por que não ouvimos falar sobre essas contribuições de artistas modernistas famosos para a guerra? É uma questão complicada, mas provavelmente é por causa da relação negativa de muitos artistas (e curadores) com militares nas décadas seguintes, e a relutância de historiadores de incorporarem trabalhos “aplicados” de artistas conhecidos na sua obra geral. Elias concorda. “É uma grande ironia da história da arte que o papel de artistas modernistas nos tempos de guerra tenha sido ignorado ou esquecido”, ela diz. “Talvez isso não tenha muito a ver com a forma como isso parece ambíguo – e desconfortável – entre a história da violência e a história da estética.”

Ainda assim, mesmo os Expressionistas Abstratos dos anos 60 tinham vínculos com militares. Em 1995, antigos agentes da CIA confirmaram antigos rumores de que a agência financiava artistas como Jackson Pollock e Mark Rothko em uma tentativa de criar uma guerra cultural com o Realismo Social soviético.

Artistas trabalham com o governo dos EUA atualmente? Definitivamente. Mas, hoje em dia, o exército não convoca ninguém – apenas envia uma solicitação.

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Composição Z VII de László Moholy-Nagy. Imagem de topo de experimentos fotográficos de Moholy-Nagy via