Por Leandro Beguoci e Nadiajda Ferreira

Ontem a presidenta Dilma Rousseff anunciou os ministros que tomarão posse em 2015. Durante as eleições, o Gizmodo analisou as propostas dos principais candidatos à presidência nas áreas de ciência e tecnologia (veja todos os textos aqui). Nós nos comprometemos a ficar de olho para ver se o que foi prometido será cumprido (quando isso for bom, claro. Quando for ruim, é melhor que fique na gaveta) e se a presidenta realmente vai se preocupar com as questões da inovação tecnológica e da ciência no Brasil.

Os ministérios de Dilma foram entregues depois de uma intensa negociação entre os partidos aliados do PT e alguns dos resultados desse negociação foram estranhos, para dizer o mínimo. Uma dessas estranhezas foi o fato de a pasta da Ciência e da Tecnologia ter ficado nas mãos de Aldo Rebelo — sim, Aldo Rebelo, o nacionalistão que queria diminuir o uso de estrangeirismos e transformar o Dia das Bruxas (ou Halloween, comemorado no dia 31 de outubro) em Dia Nacional do Saci-Pererê.

Uma pequena biografia

Aldo Rebelo é alagoano e jornalista. Ainda jovem, na década de 1970 ele ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e foi secretário-geral e presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE). No final da década de 1980, ele foi eleito vereador de São Paulo e daí em diante foi deputado federal pelo estado de São Paulo diversas vezes. Em 2008 ele foi candidato a vice-prefeito na chapa de Marta Suplicy, mas eles perderam no segundo turno para Gilberto Kassab, então do Democratas e atualmente do PSD – partido que apoiou Dilma na disputa contra Aécio Neves (PSDB). E, veja como são as coisas, Kassab, adversário do PT, também virou ministro, responsável pela pasta de cidades.  Às vezes eu acho que as nomeações ministeriais se perderam em alguma fenda temporal de Interestelar.

A carreira política de Aldo Rebelo continuou em franco crescimento e ele já foi Presidente da Câmara dos Deputados, Ministro-Chefe da Secretaria de Coordenação Política e Relações Institucionais, Ministro dos Esportes e líder do PCdoB e do governo Lula. É considerado um dos melhores articuladores políticos do país. Aliás, o ministério de Dilma está cheio de políticos com grande habilidade política. O nó é saber como esse conhecimento vai ser usado a serviço do país.

Aldo Rebelo não é tão ruim quanto parece…

Nos meandros do mundo político, Aldo Rebelo é conhecido pela enorme facilidade em desatar nós políticos. Ele é chamado para trabalhar em cima de articulações consideradas muito difíceis e costuma ter sucesso.Vamos simplificar as coisas: nos últimos anos, ele foi uma espécie de Chuck Norris da política brasileira, sempre abraçando as missões mais espinhosas. Rebelo estava na presidência da Câmara quando estourou o escândalo do mensalão. Quando todos os homens fortes do PT tinham caído por conta das denúncias de corrupção, Aldo estava no cargo do Ministro das Relações Institucionais. E quando foi necessário lidar com a FIFA e com os milhões de brasileiros que achavam que o país não tinha a menor condição de sediar um evento do porte da Copa do Mundo, Rebelo estava segurando as pontas no ministério dos Esportes. Ah, e ele torce para o Palmeiras, o que mostra uma disposição absurda em encarar missões altamente complicadas nesta longa estrada da vida. De preferência, as que vêm com o modo emoção ligado.

Por isso, sua nomeação para o ministério de Ciência e Tecnologia dá muito peso político à pasta. Alguns nomes fortes já passaram por esse ministério no passado, como Eduardo Campos (que foi candidato à eleição presidencial de 2014, mas morreu num acidente de avião em agosto de 2014) e Aloízio Mercadante. A nomeação de Aldo Rebelo para a Ciência e a Tecnologia dá a esse ministério um peso que ele não teve nos últimos anos. O ponto é saber: Aldo foi lá para continuar no governo ou Dilma realmente tem planos mais ambiciosos para a inovação no país? Por enquanto, não dá para saber. Mas é bom deixar o alerta ligado.

…mas a escolha continua sendo estranha

O problema aqui é que Aldo Rebelo tem uma relação complicada com as questões da ciência, tecnologia e inovação, de modo que é impossível prever quais são os direcionamentos que ele tomará.

Em 1994, Aldo Rebelo queria proibir que órgãos públicos se valessem de qualquer inovação tecnológica que diminuísse o uso de mão de obra humana. Por motivos óbvios, o projeto foi para o arquivo. Em 1999, Rebelo propôs um projeto cujo objetivo era diminuir o uso de estrangeirismos no Brasil: sempre que alguém fosse usar um estrangeirismo em algum meio de comunicação de massa, a tradução da palavra para o português deveria ser apresentada. O projeto foi aprovado na Comissão da Constituição e Justiça e na Comissão de Cidadania, mas está parado e nunca foi para o plenário. Em 2000 ele queria proibir as catracas eletrônicas no transporte coletivo. O projeto foi para a gaveta de novo. Em 2001 ele queria tornar a dublagem dos filmes estrangeiros obrigatória em todos os canais abertos e fechados da televisão. Gaveta outra  vez. Ainda em 2001, ele queria que se colocasse 10% de raspa de mandioca na massa do pão francês, para fazer com que o pãozinho se tornasse mais nutritivo e ajudar a produção da mandioca, um produto nacional. Esse projeto aí Lula se deu ao trabalho de vetar pessoalmente. Rebelo sossegou por um ano e em 2003 veio com aquela história de transformar o Halloween em Dia Nacional do Saci-Pererê. Gaveta. Gaveta. Gaveta.

Assim, toda essa vibe nacionalista, muito mais do que comunista de Aldo Rebelo, pode ser um problema na gestão do Ministério da Ciência e da Tecnologia, mas nada impede que ele tenha colocado a mão na consciência nesse meio tempo. Além disso, ele deve estar muito bem assessorado para assumir um desafio como esse. Então torçamos para que o período de projetos malucos tenha ficado para trás e para que ele traga coisas realmente interessantes a partir de 2015.

Aliás, durante as eleições, o Giz fez uma agenda sobre aquilo que o país precisa em termos de ciência e tecnologia. Então se o senhor estiver lendo esse texto, ministro, deixamos aqui humildemente as nossas sugestões para um Brasil inovador. Colabora, vai?

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