A saga bizarra em torno do suposto ataque à equipe diplomática dos Estados Unidos em Cuba com um “dispositivo sonoro secreto” está cada vez mais estranha. Agora, o primeiro estudo médico entre as pessoas afetadas revela que elas de fato sofreram sintomas similares aos efeitos de lesões cerebrais traumáticas, mas os médicos simplesmente não conseguem explicar como isso aconteceu.

De acordo com a CNN, um relatório publicado nesta quarta-feira (14) no periódico médico JAMA sobre “manifestação neurológica” na equipe que relatou “fenômenos auditivos e sensoriais direcionais” enquanto servia na embaixada dos Estados Unidos em Cuba deixou médicos “se perguntando se o padrão de sintomas pode acontecer de uma maneira inédita, sem traumatismo craniano”.

Em um relatório que acompanha o estudo principal, o coautor do artigo Dr. Randell Swanson escreve: “Se pegassem qualquer um desses pacientes e o colocassem em uma clínica de tratamento de lesões cerebrais, sem conhecer seus antecedentes, seria possível pensar que ele sofreu alguma lesão cerebral traumática por ter se envolvido em um acidente de carro ou uma explosão militar. É como uma concussão sem uma concussão”.

Dez homens e 11 mulheres foram incluídos no relatório, que descreve que os indivíduos afetados sofreram diversos fenômenos preocupantes em Cuba:

Os indivíduos afetados descreveram os sons como direcionados, intensamente altos e com uma tonalidade pura e contínua. Dentre os pacientes, sons agudos foram relatado por 16 deles (76%), embora dois (10%) tenham observado um som grave. As palavras usadas para descrever o som incluem “zumbido”, “moagem de metal” e “gritos estridentes”.

Os sons eram geralmente associados com algo parecido com pressão (nove pacientes, ou 43%) ou vibratórios (três pacientes, ou 14%) que estimulavam os sentidos, sensação que também foi sentida por por dois dos três pacientes que não ouviram nenhum som. Os estímulos sensoriais foram comparados ao ar “desconcertante” dentro de um carro em movimento com as janelas parcialmente abertas.

De acordo com o relatório, as pessoas diziam sentir as sensações vindas de uma direção específica, embora fosse praticamente impossível neste momento determinar a dose e a duração da exposição “por causa das limitações de lembranças dos pacientes” e narrativas conflitantes.

Todas as pessoas, com exceção de uma, “relataram surgimento imediato de sintomas neurológicos” quando expostas ao estímulo misterioso, com sintomas persistentes (por mais de três meses) notados entre a maior parte dos pacientes. Entre os sintomas, estavam disfunção cognitiva, auditiva, visual e de equilíbrio, além de comprometimento do sono e dores de cabeça (às vezes tão severas que exigiam tratamentos). Alguns funcionários precisaram começar a usar aparelhos auditivos, embora não esteja claro se isso pode ser o resultado do envelhecimento comum.

Outro autor do estudo, o Dr. Douglas Smith, disse à CNN que eles não acreditavam que os sons misteriosos fossem realmente responsáveis pelos sintomas, mas que “o som audível era uma consequência da exposição”. No relatório que acompanha o estudo, Smith menciona que o dano cerebral pode, de fato, ter sido causado por “ultrassom, infrassom e micro-ondas” – porém, como o Gizmodo noticiou anteriormente e os autores notaram, seria praticamente impossível infligir esse tipo de dano utilizando secretamente métodos ultrassônicos ou infrassônicos.

Além disso, exames de imagem por ressonância magnética não exibiram resultados relevantes imediatos. No segundo relatório, especialistas foram evasivos à ideia de que a equipe foi exposta a substâncias químicas ou patógenos, citando falta de evidências. Eles também foram evasivos em relação a hipóteses generalizadas de que a equipe teria sido vítima de doenças psicogênicas de massa – um termo para um fenômeno mal entendido, às vezes chamado de “histeria em massa ou histeria epidêmica” –, uma vez que alguns indivíduos não tinham ideia de que outras pessoas também apresentavam sintomas.

Em outras palavras, os médicos não fazem ideia do que está acontecendo, embora todos os participantes tenham relatado melhorias nos sintomas desde que deixaram Cuba. Outros testes neurológicos ainda devem acontecer.

Como apontou a CNN, o governo cubano nega veementemente qualquer envolvimento nesses ataques, mas alguns membros do Comitê de Relações Exteriores do Senado, incluindo os senadores Marco Rubio e Bob Menendez, questionam a credibilidade das afirmações.

Rubio, por exemplo, disse à CNN que a ideia de que qualquer pessoa pudesse conduzir um ataque do tipo em Havana sem atrair a atenção da segurança cubana e agências de inteligência seria algo “fora do âmbito do razoável” – parece que Rubio é muito mais rápido em identificar possíveis autores, se compararmos com os médicos que ainda nem conseguiram identificar o que realmente pode ter acontecido. Com todo esse cenário, as recentes melhorias nas relações entre os EUA e Cuba rapidamente desapareceram.

[CNN]

Imagem do topo: AP