A Apple parece finalmente ter se cansado das cadeias de fornecimento antiéticas que criam a possibilidade da empresa ficar sem matéria-prima para a produção de seus aparelhos.

De acordo com uma reportagem da Bloomberg, a Apple “está em contato para comprar fornecimento de longo termo de cobalto diretamente dos mineradores pela primeira vez”. Caso isso seja verdade, a companhia passaria a trabalhar diretamente dos trabalhadores, que estão primordialmente localizados na República Democrática do Congo e já foram alvo de consideráveis violações dos direitos humanos, inclusive por uso de trabalho infantil.

As maneiras doidas para “garimpar” metais preciosos de aparelhos velhos no futuro

Inclusive, a Apple (juntamente com a Samsung e Sony) sofreu críticas em 2016 depois de uma reportagem da Amnesty Internacional sugerir que a companhia estava usando fornecedores que compravam cobalto de áreas com exploração infantil desenfreada.

De acordo com a denúncia, aproximadamente 40 mil crianças trabalhavam nas minas de cobalto do Congo. O país fornece mais de 50% do cobalto do mundo. O metal se tornou altamente precioso nos últimos anos por ser um importante componente na produção de baterias de íon de lítio que energizam celulares, laptops, vaporizadores e os futuros carros elétricos.

“Sem cobalto, não tem bateria para carros. Não é uma hipérbole dizer que com as tecnologias de hoje o cobalto seja necessário para salvar o planeta da mudança climática”, disse David S. Abraham, membro sênior do Institute for the Analysis of Global Security (Instituto para a Análise da Segurança Global, em tradução livre) e superintendente do Technology, Rare and Electronics Materials Center, ao Gizmodo.

O metal é tão precioso e raro que muitos fabricantes de baterias vêm lutando para garantir o seu próprio fornecimento. Mas receber um estoque de cobalto da República do Congo impõe alguns desafios humanitários muito específicos as companhias. E é por isso que alguns competidores da Apple, como a Samsung SDI, uma subsidiária da Samsung que foca quase que exclusivamente na produção de baterias, tem buscado métodos alternativos para garantir cadeias de fornecimento de cobalto. No caso da Samsung SDI, a empresa anunciou na semana passada que compraria ações de uma companhia que recicla tecnologia antiga.

Abraham aponta que o plano da Apple pode ser algo bom para as minas forem envolvidas no negócio. Além de manter o fornecimento de um metal cada vez mais precioso, a Apple trabalhando com as minas pode, potencialmente, permitir que a companhia decida como o metal raro é recolhido.

“Eles querem garantir que reduziram o impacto ambiental da mineração e aumentar a produção dentro do possível dos problemas de direitos humanos”, disse Abraham ao Gizmodo. “Eles querem fazer seus iPhones e o que quer que estejam produzindo em seus laboratórios e querem garantir que não acabarão na capa da Economist com uma matéria os acusando de ter abastecido uma guerra no Congo”.

A cadeia de fornecimento para companhias como a Apple a Samsung vem há alguns anos sofrendo muitas críticas. Estas companhias – e a maioria dos fabricantes de eletrônicos – fazem uso de cadeias que, apesar de aparentemente éticas, frequentemente não são.

Existe o óbvio exemplo da relação da Apple com a Foxconn, que já estampou manchetes por fazer uso de mão-de-obra infantil e de abrigar funcionários em condições grotescas. Mas também existem questões não tão visíveis, mas tão problemáticas quanto, como a exploração infantil nas minas de cobalto, mineração de lítio que torna empresas ricas enquanto os locais seguem na miséria e populações de cidades na China cuja pele ficou prata e cinza devido à produção de grafite. Cobalto, lítio e grafite são todas substâncias vitais para as baterias de íon de lítio que atualmente abastecem soluções para as mudanças climáticas.

Abraham diz que essa tendência das companhias irem diretamente na fonte dos componentes que necessitam provavelmente continuará. “As companhias temem que o mercado não fornecerá o que elas precisam”, disse ele ao Gizmodo. O que significa que possivelmente começaremos a ver mais e mais minas da Apple e usinas de processamento da Samsung no futuro. É um problema se você receia que empresas se tornem grandes e vastas demais, mas se estas companhias podem de fato reduzir o numero de violações dos direitos humanos ocorrendo nas minas, então o futuro pode não ser tão ruim assim.

[Bloomberg]

Imagem de topo: Homem trabalhando em uma mina de Shinkolobwe, na República do Congo, em 2004. (Créditos: AP Photo/Schalk van Zuydam)