Usar a internet para diagnosticar uma preocupação com a saúde não é tão eficaz. Um estudo de cientistas na Austrália testou mais de duas dúzias de aplicativos que dizem fazer verificação de sintomas e descobriu que eles diagnosticaram corretamente a doença de uma pessoa hipotética somente um terço das vezes. Já os aplicativos criados para dizer a alguém se precisa de atendimento médico urgente ou de emergência, tiveram melhor desempenho.

Os pesquisadores utilizaram aplicativos gratuitos de verificação de sintomas que são populares na Austrália e ao redor do mundo. Entre eles estavam apps desenvolvidos pela Drugs.com, Mayo Clinic e WebMD.

Muitos desses aplicativos estão disponíveis na App Store do iOS e na Google Play do Android, enquanto outros estão disponíveis nos sites de vários centros médicos e hospitais. Alguns dos aplicativos também incluíram uma função de triagem, destinada a dizer ao usuário se seus sintomas mereciam atenção médica e quando deveriam procurar essa assistência.

Para testar os aplicativos, os autores os analisaram utilizando 48 modelos de possíveis pacientes – 30 deles já tinham sido usados em um estudo anterior com verificadores de sintomas, publicado em 2015.

Os cenários incluíam: situações poderiam ameaçar a vida de uma pessoa, como um apendicite ou infarto do miocárdio; necessidade de tratamentos urgentes, como pneumonia; condição de curta duração ou de fácil tratamento, como pé de atleta ou herpes labial.

Os pesquisadores também incluíram doenças mais frequentes na Austrália, como uma doença transmitida por carrapatos de Queensland.

Os cientistas fizeram mais de 1.000 testes individuais dos aplicativos para ver se eles escolhiam o diagnóstico certo e mais de 600 testes para ver se os apps indicavam o nível certo de cuidados de triagem. No total, 27 aplicativos de verificação de sintomas foram avaliados quanto à sua capacidade de diagnóstico.

Em média, os apps listaram o diagnóstico correto como a “primeira opção possível” em 36% das vezes. Analisando as três primeiras opções exibidas, os apps se saíram melhor, com 52% de precisão. A expansão para os 10 primeiros resultados proporcionou uma taxa de acerto apenas ligeiramente melhor, com 58%.

Nenhum aplicativo foi significativamente melhor que os demais, embora alguns tenham sido muito piores. A precisão média para o primeiro diagnóstico variou de 12% a 61% entre os apps.

As descobertas, publicadas segunda-feira no Medical Journal of Australia, estão alinhadas com pesquisas anteriores, sugerindo que esses aplicativos não são muito precisos. Isso inclui o estudo de 2015, que descobriu que os aplicativos sugeriam a doença correta no primeiro resultado em uma média de 34% das vezes. Parece que as coisas não mudaram muito desde então.

“Embora possa ser tentador usar essas ferramentas para descobrir o que pode estar causando seus sintomas, na maioria das vezes elas não são confiáveis e, na pior das hipóteses, podem ser perigosas”, disse Michella Hill, autora do estudo e pós-graduanda da Universidade Edith Cowan, em um comunicado divulgado pela universidade.

Há alguns pontos positivos no estudo. Os aplicativos que se basearam em algoritmos de inteligência artificial pareciam ir melhor, na média, do que os que não utilizavam esses sistemas, embora não apresentassem precisão mais do que 50%.

E aplicativos que incluíam conselhos de triagem tiveram melhor desempenho nessa função, variando de 44% a 54%. Essa precisão melhorou para condições que necessitavam de emergência (63%) ou cuidados urgentes (56%), mas foi precisa somente um terço das vezes para problemas menos urgentes.

Essas descobertas podem ser especialmente relevantes nesse momento, dado que a pandemia de COVID-19 deixou muitas pessoas em casa se perguntando se tinham ou não a doença. Ferramentas de checagem de sintomas desenvolvidas especificamente para o novo coronavírus foram lançadas, mas ainda não há dados disponíveis para medir o quão precisas são.

Embora os autores acreditem que esses aplicativos ofereçam alguns benefícios, eles alertam que é necessário ter ceticismo em relação aos resultados.

“A realidade é que esses sites e aplicativos devem ser vistos com muita cautela, pois eles não enxergam para o quadro inteiro – eles não conhecem o seu histórico médico ou outros sintomas”, disse Hill. “Para as pessoas que não conhecem a área da saúde, podem pensar que os conselhos que dados pelos apps são precisos ou que a sua condição não é grave, quando na verdade pode ser.”