Um dos maiores enigmas que atormentam a humanidade é a questão da vida extraterrestre. Muitas explicações têm sido apresentadas ao longo dos anos para explicar por que ainda não fizemos o primeiro contato com aliens. Algumas teorias são boas; outras, nem tanto. Aqui estão sete das mais fracas soluções para o problema vexatório conhecido como o Paradoxo de Fermi.

Para aqueles de vocês que são novatos na questão do Grande Silêncio, eu recomendo esta série de artigos que escrevi há alguns anos atrás: “The Fermi Paradox: Back With A Vengeance” partes um, dois, e três. Esta lista também é útil.



>>> O Paradoxo de Fermi: onde é que estão as outras Terras?

1) Aliens ainda não tiveram tempo suficiente para chegar à terra

Na verdade, eles tiveram. Esta é uma das desculpas mais comuns para o grande silêncio, mas é também uma das mais fracas. Como solução, ela revela um completo desconhecimento da afirmação central do paradoxo — que o tempo não é um fator.

O Paradoxo de Fermi tem três premissas bastante claras: 1) nossa galáxia está aqui ao há muito tempo — cerca de 13,2 bilhões de anos (ou 13.200 milhões de anos), 2) a vida inteligente foi capaz de surgir quando a galáxia ainda era muito jovem, e assim, 3) alienígenas tiveram tempo de sobra para visitar, colonizar e remodelar cada porção da Via Láctea. Ainda não me parece que qualquer civilização tenha feito isso.

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Tiago Campante/Peter Devine.

Como o tempo passa e como nosso conhecimento do cosmos fica mais claro, o paradoxo de Fermi, como um problema, só fica mais difícil. No início deste ano, os astrônomos chegaram à conclusão que planetas como a Terra começaram a aparecer há cerca de 11,2 bilhões anos atrás, meros 2 bilhões anos depois da formação da Via Láctea. Ao mesmo tempo, nós também descobrimos que a quantidade de planetas potencialmente habitáveis — tanto no passado quanto no presente — é excepcionalmente grande. Um cálculo recente prevê centenas de bilhões de planetas como a Terra na nossa galáxia.

2) As estrelas estão muito distantes

Como Douglas Adams disse uma vez: “O espaço é grande. Grande, mesmo. Não dá pra acreditar o quanto ele é desmesuradamente, inconcebivelmente, estonteantemente grande. Você pode achar que da sua casa até a farmácia é longe, mas isso não é nada em comparação com o espaço.”

Sim, o espaço é grande, sem dúvida. Mas é esta a razão pela qual não vimos sinais de vida extraterrestre? Para essa solução fazer sentido, seria necessário que todas as civilizações alienígenas achassem o espaço grande demais ou que viagens espaciais interestelares fossem tecnologicamente inviáveis. Nenhum dos dois é verdadeiramente provável. Dê uma olhada em nós. Nós já temos um viajante do espaço interestelar, a sonda Voyager, e não são poucas as ideias sobre como nós podemos viajar pelo espaço.

E de fato, a primeira geração de exploradores do espaço interestelar provavelmente virá na forma de sondas de auto-replicação von Neumann. Isso implicaria uma bolha de expansão exponencial das sondas que poderia, em teoria, colonizar a galáxia em menos de 10 milhões de anos. Cosmologicamente falando, isso não é muito tempo. Uma única civilização poderia ter colonizado a galáxia 1.120 vezes ao longo dos últimos 11,2 bilhões de anos — e isso falando de apenas uma civilização.

Uma alternativa (posta ou não em conjunto a hipótese anterior) seria “transmitir” fluxos de mentes inseridas na velocidade da luz de sistema estelar para sistema estelar. Como Charles Stross uma vez disse, naves espaciais são um mito.

Então, não, as estrelas não estão muito distantes — não quando se tem bilhões de anos para trabalhar e o poder de crescimento exponencial à sua disposição.

3) Aliens estão honrando a primeira diretriz

Em 1972, o astrônomo John Ball surgiu com a Hipótese do Zoológico, uma proposta de cenário em que extraterrestres avançados deliberadamente resistem a fazer contato com seres humanos e preferem nos observar de uma distância segura. Como Ball observa, “eles só nos deixaram de lado como parte de uma área selvagem ou em um jardim zoológico.” Razões para isso incluem o medo da contaminação biológica e/ou sociológica, ou seja, uma “primeira diretriz” ou simplesmente para nos estudar para fins científicos e/ou de entretenimento.

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Em Star Trek: The Next Generation, o Capitão Picard viola a Primeira Diretriz nove vezes

Há uma série de problemas com esta solução. Primeiro, ela é completamente não-testável e até mesmo um pouco conspiratória. Em segundo lugar, é antropocêntrica; o cenário de jardim zoológico assume que todos os alienígenas têm as mesmas motivações que nós em termos de ética, pesquisa científica e recreação. Também é arrogante. O que poderíamos oferecer a inteligências alienígenas quando estamos falando da nossa ciência? Uma civilização extraterrestre nesta fase de seu desenvolvimento muito provavelmente seria pós-biológica na natureza e teria posse de superinteligência artificial (na verdade, ela provavelmente seria uma superinteligência artificial). Para eles, seríamos tão interessantes quanto os micróbios.

Também vale a pena assinalar que a primeira diretriz é eticamente duvidosa. Seria passar para uma civilização espacial pós-singularidade a responsabilidade de intervir nos nossos assuntos para nos salvar de nós mesmos, eliminar o sofrimento e nos elevar à mais ampla comunidade galática.

Por último, esta teoria (e muitas das outras soluções nesta lista) viola a não-exclusividade. Enquanto alguns alienígenas poderiam nos colocar em um zoológico e/ou honrar a primeira diretriz, eles não poderiam falar com todas as civilizações alienígenas. Tudo que basta é apenas uma civilização para arruinar o show.

4) Deus criou o Universo só para nós

Este argumento religioso tenta resolver o paradoxo de Fermi sugerindo que os seres humanos foram deliberadamente criados por Deus para habitarem sozinhos o Universo. Esta ideia remonta a Aristóteles e Tomás de Aquino, que argumentaram que os seres humanos são exclusivos para o plano de Deus.

É uma ideia que ainda está por aí hoje, como foi testemunhado no discurso recente de Pat Robertson, no qual ele afirmou que a NASA deveria parar os suas iniciativas para explorar o cosmos, porque ele contém “só bolas gasosas e rochas estéreis”, acrescentando que “este planeta [Terra] é onde Deus criou uma experiência para que ela seja cumprida”.

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Mas, como foi observado por Carl Sagan, “o Universo é um lugar bem grande. Se é só a gente, parece ser um terrível desperdício de espaço.” Com efeito, se Deus criou o universo só para nós, por que fazer esta pegadinha? Por que haveria trilhões e trilhões de estrelas no cosmos, e não apenas uma? Além do mais, por que criar um Universo aparentemente biofílico, que parece ser cosmologicamente consistente em toda sua extensão? Simplificando, é um argumento não-testável que desafia a lógica e o bom senso.

É possível, é claro que estejamos sozinhos no Universo, mas se for o caso, existem explicações muito melhores que invocar Deus.

5) Os aliens estiveram aqui e foram embora

Algumas pessoas argumentam que extraterrestres visitaram nosso Sistema Solar no passado e se mudaram e/ou deixaram vestígios de sua existência, tais como o Rosto de Marte, ou as pirâmides e outros restos arqueológicos. É claro, já foi descoberto que o Rosto de Marte não é de origem extraterrestre temos boas explicações para a questão de como as pirâmides foram construídas. Explicações que tentam trazer alienígenas para a discussão são muitas vezes sensacionalistas, completamente sem fundamento, além de violarem a navalha de Occam.

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O quinto elemento (1997).

Outros afirmam que extraterrestres visitaram a Terra há muito tempo, mas então se mudaram sem deixar vestígios. Isso é improvável, por várias razões. Primeiro, uma onda de avançada da inteligência extraterrestre, provavelmente em forma de máquinas, iria praticamente reconstituir tudo desde o começo, convertendo a matéria de substâncias inertes em coisas mais úteis, como computronium. Alternativamente, eles poderiam ter — e provavelmente teriam — partido e integrado a vida em outra civilização. Além do mais, dada a idade da galáxia e sua aparente constituição biofílica, nosso sistema Solar poderia ter sido visitado várias vezes por uma infinidade de diferentes civilizações. Ainda de acordo com esta proposta de solução, nenhum deles ficou para trás ou deixou qualquer tipo de marca perceptível. Muito improvável.

6) Eles estão aqui agora!

Os ufólogos querem nos fazer crer que alienígenas estão aqui neste exato momento, atormentando a nós, seres humanos insignificantes, com seus discos voadores extremamente primitivos, formas físicas estranhamente antropocêntricas e uma onda de abduções. Em uma palavra, a resposta é: não.

fermi eu quero acreditar

O saudoso Carl Sagan disse que estas afirmações são quase inteiramente anedóticas:

Alguém diz que algo aconteceu com eles, e as pessoas podem dizer qualquer coisa. O fato de que alguém diz algo não quer dizer que é verdade. Não quer dizer que eles estejam mentindo, mas também não quer dizer que seja verdade.

Para ser levada a sério, você precisa de evidências físicas que possam ser examinadas sem pressa por cientistas céticos: uma raspagem da nave e a descoberta de que ela contém proporções de isótopos que não estão presentes na Terra, elementos químicos da assim chamada ilha de estabilidade, elementos muito pesados ​​que não existem na Terra. Ou materiais com propriedades absolutamente bizarras de muitos tipos — condutividade elétrica ou ductibilidade, por exemplo. Evidências como essas dariam instantaneamente credibilidade verdadeira a um relato.

Mas não há nenhuma lasca, nenhuma fotografia do interior, nenhuma página surrupiada do livro de registro do capitão. Tudo que temos são histórias. Há exemplos de terra remexida, mas eu posso remexer terra com uma pá. Há casos de pessoas que afirmam piscar luzes para OVNIs e os OVNIs responderem com mais luzes. Mas pilotos de aviões também podem piscar de volta, especialmente se eles acham que seria uma boa piada a se fazer com um entusiasta da ufologia. Então, nada disso constitui uma boa prova.

Na verdade, o surgimento de círculos em plantações e relatos do que são aparentemente produto de discos voadores não têm resistido ao teste do tempo, e são uma projeção das noções contemporâneas de deslumbramento tecnológico.

7) Ainda não procuramos por alienígenas o bastante

É verdade que só começamos a busca por inteligência extraterrestre a sério com o advento do Projeto Ozma de Frank Drake, na década de 1960, seguida do aumento subsequente de buscas mais formais com radiotelescópios, com o projeto SETI. Nós só estamos escaneando os céus há 55 anos, e há ainda muito território para cobrir.

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NRAO/AUI.

Há a possibilidade, é claro, que nenhum alienígena esteja transmitindo sinais. Nós mesmos estamos atualmente a debater os prós e os contras de um SETI ativo — a tentativa deliberada de chamar a atenção de um ET. É bem possível que todos os aliens sejam xenófobos e não usem rádio. Se for esse o caso, então o SETI está praticamente fadado ao fracasso.

Mas se os extraterrestres estão realmente interessados ​​em chamar a nossa atenção, eles não devem ter dificuldade em conseguir. Na opção mais lógica, eles poderiam salpicar a Via Láctea com sondas Bracewell — beacons de comunicação que seriam estacionados em cada sistema estelar e ficariam apenas esperando o primeiro sinal de vida inteligente a surgir (como um sinal de rádio). A sonda Bracewell, por sua vez, depois de se comunicar conosco, transmitiria um sinal de confirmação de volta para seu planeta de origem através de uma série de comunicações entre com outras estações, provavelmente outras sondas Bracewell. Como alternativa, os alienígenas poderiam transmitir uma onda de rádio excepcionalmente forte e dirigido ou um sinal ótico que não passaria despercebido até mesmo por uma civilização tecnológica aparentemente primitiva como a nossa.

Dito isto, isso só se aplica a civilizações muito mais avançada do que a nossa. O SETI deve continuar a procurar civilizações que são semelhantes à nossa em termos de desenvolvimento tecnológico. Já o Paradoxo de Fermi, este pode ser durar para sempre.