Já sabemos que quase nenhuma das mulheres no banco de dados do Ashley Madison usava o site. A questão é, foi uma fraude deliberada? Ou apenas um caso de um site de encontros que deu errado?

Na semana passada publicamos resultados de análises do banco de dados de membros do Ashley Madison, que contava com 37 milhões de perfis de pessoas buscando casos extraconjugais secretos. O que descobri foi que, no máximo, cerca de 12 mil desses perfis pareciam pertencer a mulheres que eram ativas no site. As outras 5,5 milhões de mulheres cadastradas aparentemente abandonaram o serviço logo após a criação da conta.

Como isso aconteceu? Para saber mais, chequei os dados dos emails corporativos do Ashley Madison liberados pelo grupo hacker Impact Team na semana passada.

“Anjos” de Ashley

São muitos os motivos que nos levam a acusar o Ashley Madison e a matriz Avid Life Media de fraude, incluindo o fato de que eles forçavam homens a pagar para deletar perfis, mantendo os dados do usuário guardados da mesma forma. Mas eu diria que a fraude do Ashley Madison vai muito além do golpe para apagar perfis. O maior dos golpes era a propaganda falsa. Em comerciais e no site em si, a empresa prometia a homens que eles encontrariam mulheres reais que buscavam casos extraconjugais.

Homens podem até pagar uma taxa premium para um “caso garantido”. Para enviar um email para mulheres, eles precisam pagar a mais, e mais um pouco se também quiserem enviar um “presente” na forma de uma imagem ou gif bobo. Usar o site como um homem é mais ou menos como jogar Farmville, exceto que em vez de torrar seu dinheiro com atualizações para as suas vaquinhas virtuais, você gasta ele enviando mensagens para mulheres falsas. Ao menos Farmville é sincero e deixa claro que seu dinheiro é usado em algo fantasioso.

Ainda assim, o modelo de negócios funcionou. De acordo com a CNN, a Avid Life Media teve US$ 115,5 milhões em receita em 2014.

É verdade que o Ashley Madison nunca prometeu aos homens que eles encontrariam mulheres com facilidade, mas eles prometeram que mulheres reais visitavam o site e estariam ativas no serviço. Se um homem pagasse pelas mensagens, ele encontraria alguém. Mas em vez de falar com mulheres reais, os homens estavam apenas recebendo emails automáticos do sistema que diziam coisas como “Sexicindi indicou que está interessada em alguém como você. Você deveria enviar uma mensagem personalizada para se conectar a ela.”

Site de encontros Ashley Madison

É claro que essa “mensagem personalizada” custa dinheiro. Ao apertar o botão “responder”, o homem era levado a essa página:

Site de encontros Ashley Madison

Então um homem precisa pagar para enviar uma mensagem para um perfil morto. E o ciclo inicia novamente, com outra mensagem enviada por um robô a partir de um perfil inativo.

Nos dados dos emails internos do Ashley Madison, encontrei evidências de que a empresa estava pagando pessoas para a criação de perfis falsos. Algumas vezes eles contratavam empresas que criavam perfis como os descritos por Caitlin Dewey em um artigo no Washington Post. Mas a maior parte deles parece ter surgido de pessoas de dentro do Ashley Madison. A empresa tinha até um apelido para esses perfis falsos – “anjos”.

Ashley Madison criava seus anjos em todas as partes do mundo, e os dados contêm diversos emails com pedidos gerenciais do Avid Life Media para a criação de mais. Abaixo você pode conferir um email enviado no dia 4 de julho de 2013, pela diretora de operações internas, Nora Abtan, para o CEO Noel Biderman e outros gerentes, com o assunto “sumário do status de anjos”:

Depois do último almoço, queria confirmar alguns pontos para garantir que estamos no caminho certo.

Por favor confirmem as informações abaixo:

*Índia (11 de junho)*: 500 anjos completados (298 fotos)

*Japão (24 de junho)*: contratamos um novo recurso que vai focar nisso. Keith confirmou que os anjos estarão prontos para 24 de junho.

*Holanda (15 de julho)*: Keith enviou os arquivos para translation.com e confirmou que os anjos estarão prontos com sorte até 15 de julho, mas a tempo do início do media tour no dia 22 de julho

*Portugal (15 de julho)*: Keith precisa de ajuda da equipe de Carlos. Carlos confirmou que ele pode ajudar Keith com recursos. Keith pode completar os anjos com sorte até 15 de julho, mas a tempo do início do media tour no dia 22 de julho usando recursos do Carlos.

*Hong Kong (1 de agosto)*: Keith, por favor, elabora um plano e compartilhe conosco.

Em outro email do dia 27 de outubro de 2012, com o assunto “criador de perfis”, Biderman se pergunta se eles devem contratar mais empresas para a elaboração de mais perfis:

Me pergunto quais países eles cobrem?

* SalesProfiles.com

* Evercurrent.com

* Saledatingprofiles.com

* Saledatingprofiles.net

* Buyprofiles.com

* and Profilenetwork.com

Uma longa troca de emails entre Sandra Simpson e um funcionário chamado Eduardo Borges, datada de 30 de julho de 2012, sugere que o controle de qualidade dos perfis anjos é bastante rigoroso. Borges pergunta se é OK reaproveitar fotos em estados diferentes, e Simpson diz que não – ela lembra que muitos membros viajam e podem notar as duplicatas. E então Simpson fala um pouco mais sobre como criar um perfil anjo realista (a ênfase é minha):

Precisa ter algum conteúdo pessoal escrito nos detalhes junto com as opções pré-selecionadas. Não precisa ser muita coisa, mas tem que ser algo pessoal.

[Nos perfis enviados] vocês colocaram etnia igual para todos em “Prefiro não dizer”, mas isso precisa ser selecionado já que múltiplos perfis muito parecidos é um problema.”

Em vários outros emails é possível para ler funcionários compartilhando perfis usando números de identificação no banco de dados e pedindo para eles serem revisados. Aparentemente a empresa sofreu um pouco para criar perfis no Japão, como sugere um email de 3 de junho de 2013 de Simon Pawlowski:

A coisa está feia no Japão. A garota que deveria fazer os anjos (uma pessoa que Dave “conhecia” e recomendou a Carlos), não responde aos emails de Carlos para dizer se pode ou não trabalhar. Eu disse a Carlos para usar as pessoas que ele entrevistou mesmo.

Em 27 de junho de 2013, em um email com assunto “como anjos são feitos”, Noel Biderman repreendeu alguns de seus funcionários por não criarem um processo automatizado decente para a criação de anjos:

Eu vou falar qual é a falha – eu simplesmente ouvi por horas empregados reclamando e então desenvolvendo um sistema não gerenciável ao redor do que eles chamam de bloqueio de “criatividade” quando tudo o que era preciso ser feito era contratar um grupo de pessoas com conhecimento no idioma para construir manualmente um número x de perfis em um período de y meses e então ter alguém para adicionar imagens relevantes e confiáveis.

O que foi criado até agora foi um pesadelo complicado e burocrático de um processo que não só leva mais tempo, como também custa mais dinheiro, envolve mais “gestão” e, por fim, produz um produto muito pior.

Há cerca de um ano e meio eu falei com dois de vocês para tentar automatizar o sistema e eu não queria um representante de responsabilidade social cometendo erros que nos levassem a problemas de transparência cujo impacto eles não conseguem entender.

Nossa capacidade de automatizar falhou mas esse pesadelo precisa acabar agora. Temos que aprender o melhor jeito de criar uma equipe para um projeto e então diminuir essa equipe…

Parece que por mais que eles tentassem, eles não conseguiam criar um processo que fosse mais automatizado e eficiente do que simplesmente contratar pessoas para gerar perfis falsos manualmente. Tem um lado engraçado e sombrio por trás de Biderman ironizando os “problemas criativos” dos criadores de perfis. Mas gerar milhares de páginas falsas que precisam ao menos parecer verdadeiras deve ser um trabalho bem difícil.

Esses emails deixam claro que a empresa produziu uma campanha deliberada, elaborada e durante muitos anos para a criação de perfis falsos para audiências ao redor do mundo inteiro. E isso é algo que muitos dos principais funcionários da empresa sabiam que acontecia. Na semana passada, Dell Cameron, do Daily Dot, disse que a antiga porta-voz do Ashley Madison Louise Van der Velde ameaçou expor “dados falsos” do site, escrevendo em um email ao conselho geral da empresa dizendo que não “tem mulheres de verdade.”

Em uma ironia possivelmente deliberada, o logo do Ashley Madison lembra o pôster do remake do filme “Mulheres Perfeitas”, que conta a história de uma comunidade fechada em que os homens substituíram as esposas por robôs.

E, de alguma forma, o Ashley Madison continuou crescendo e atraindo mais e mais homens para esse mundo imaginário. Dois auditores de software que checaram os dados vazados do site me disseram que eles conseguem entender qual é o maior desafio técnico que eles enfrentam. O banco de dados original parece ter sido jogado em um maior e mais novo, e, em algum momento, os administradores esticaram o banco de dados o máximo possível, adicionando mais perfis para acompanhar a demanda.

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“Uma marca centrada na mulher”

Um monte de perguntas ainda precisam ser respondidas, e uma das mais importantes delas é saber se o site foi concebido para enganar homens, ou ele se transformou nisso na época em que esses emails foram enviados, entre 2012 e 2013. Biderman, que criou um site em 2001, disse em uma entrevista à Bloomberg News que o Ashley Madison era focado em atrair mulheres, não homens:

Ashley Madison é o que Biderman chama de “marca centrada na mulher”. Tudo no site, desde as cores femininas ao nome, é para atrair os cromossomos XX. Foi um dilema particular, nesse caso, tentar atrair uma demografia bem específica – mulheres casadas – que normalmente não gostam das coisas que aqui são oferecidas. “Eu estava confiante de que homens se interessariam por um serviço para realizar essas coisas de maneira anônima. Eles aparentemente já faziam isso,” disse Biderman. “Eu tinha menos confiança de que as mulheres se comportariam desse jeito.”

De acordo com uma pesquisa citada por ele, é mais provável que mulheres tenham casos em dois lugares: no escritório com algum “marido do trabalho”, ou dentro do círculo social dela, com “um parceiro de amiga, ou de uma irmã”, ou alguém próximo a elas. “Para elas saírem em busca de casos anônimos, eu teria que criar um paradigma,” Biderman explica. “E para fazer isso eu acredito que as mulheres precisam ao menos sentir… não quero dizer que há uma mulher por trás, mas que elas são o ponto focal.”

É possível que Biderman tenha construído um site na esperança de atrair mulheres, mas falhou miseravelmente, e então tentou esconder isso criando todos esses perfis falsos?

ASite de encontros Ashley Madisono apenas olhar para os anúncios do Ashley Madison, não é fácil dizer exatamente se ele tentou atrair mulheres. Todos os anúncios são voltados para homens, e mostram esposas como seres repulsivos e assustadores. Que mulher (especialmente casada) se sentiria atraída por um site que a retrata dessa forma?

Além disso, é bem complicado criar uma conta no Ashley Madison se você é uma mulher. Quando pesquisei para esse artigo, abri diversas contas falsas no Ashley Madison – uma masculina, duas femininas (uma hétero, outra bi); Postei imagens e informações falsas nas três. Mas, em segundos, minha imagem e descrição falsa foi removida da conta feminina hétero, e quando eu tentei reinserir o que tinha escrito antes, apareceu a mensagem “aprovação pendente”. Enquanto isso, minha imagem falsa masculina permanecia – ela até atraiu dois robôs de mulheres que “indicaram estar interessadas em alguém parecido com você.” Minha conta feminina, apesar de não ter imagem nem nenhuma informação, foi inundada por emails e pedidos de conversa de homens que pareciam ser bem reais, incluindo um que enviou uma foto do próprio pênis e de uma cueca manchada.

No perfil que eu criei como mulher em busca de outras mulheres, percebi que o site é tão focado em casais heterossexuais que os desenvolvedores nem se preocuparam em criar uma caixa de diálogo para mulheres interessadas em mulheres. Em vez disso, quando me pediu para preencher meus detalhes pessoais, o site queria que eu “deixasse homens do Ashley Madison saberem” no que eu estava interessada.

Mas depois do meu perfil estar criado, eu encontrei uma lista de mulheres da minha cidade natal falsa. E eu precisava pagar para enviar mensagens a elas, assim como qualquer outro homem com conta no site.

O site parece realmente voltado para homens heterossexuais. Mesmo se eu quisesse criar uma conta que refletisse quem eu realmente sou como uma mulher, informações seriam eliminadas do meu perfil. Ou me pediriam para modificar e guiar meu perfil para homens, mesmo que eu quisesse me encontrar com mulheres. E isso significa que eu seria contactada por homens que não faziam ideia de como eu me pareço, ou dos meus interesses sexuais.

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Compare isso a, digamos, o Tinder, um app muito usado por mulheres que buscam sexo casual. Quando uma mulher cria um perfil, suas informações pessoais não ficam escondidas com “aprovação pendente”. Uma mulher no Tinder nunca será forçada a interagir com um homem que ela não identificou como atraente ao deslizar sua foto para a direita. No Ashley Madison, eu não tinha nada além de homens que não escolhi, que não sabiam nada de mim além do meu apelido (que era PseudoNym666) e da minha localização falsa (Nova York). Não surpreende que poucas mulheres reais usem o Ashley Madison.

Então ou Biderman é um marqueteiro terrível que se engana ao pensar que mulheres usarão o Ashley Madison apesar de todas as evidências contrárias; ou ele é um golpista brilhante que sabe exatamente o que faz com seu marketing e design do site.

Dito isso, é fundamental lembrar que minha pesquisa não sugere que nenhuma mulher usou o Ashley Madison. Jeremy Smith escreveu uma reportagem para a San Francisco Magazine sobre mulheres que usam o site, e eu recebi diversos emails de mulheres que usaram (e gostaram) do Ashley Madison desde que publiquei outro post sobre isso. Mas essas evidências se encaixam com o que eu encontrei no banco de dados de membros. Provavelmente milhares de mulheres reais eram ativas no Ashley Madison, mas elas estavam perdidas em um mar de perfis falsos.

Minhas pesquisas de maneira alguma sugerem que mulheres não estão interessadas em sexo casual. E nem provam nada sobre casos extra-conjugais de mulheres. Tudo o que prova é que o Ashley Madison era um site feito por homens, para homens. E atingia muito bem seu público-alvo.

Em vez de olhar para o Ashley Madison como um site de encontros, acho que é mais seguro chamar de anti-comunidade – um site social popular em que é impossível ser social, já que os homens não falam com outros homens, as mulheres são em sua maioria contas falsas, e a única interação disponível é através de pagamentos em cartão de crédito. Essa é uma das representações mais puras de distopia que já vi. Ou, como um dos seus mais famosos usuários disse, Ashley Madison é algo que veio direto do inferno.

Arte por Tara Jacoby