Um ou dois satélites de poeira fantasmagóricos podem estar orbitando a Terra, de acordo com uma nova pesquisa construída em cima de uma ideia que já tem 60 anos.

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Objetos massivos se atraem pela força da gravidade. Mas, quando você tem múltiplos objetos enormes com as massas certas, seu campo gravitacional mútuo pode trazer algumas anomalias — como pontos gravitacionais que podem manter as coisas estáveis. Cientistas descobriram objetos orbitando nesses “pontos de Lagrange”, criados pela gravidade combinada do Sol e de Marte, do Sol e de Netuno, e do Sol e de Júpiter. Os pesquisadores agora estão relatando evidências de nuvens de poeira, chamadas de nuvens de poeira de Kordylewski, nos pontos de Lagrange criados pela Terra e a Lua.

O matemático suíço Leonhard Euler previu os três primeiros pontos de Lagrange nesses tipos de sistemas em 1767, e o matemático-astrônomo italiano Joseph-Louis Lagrange previu dois outros pontos em 1772. Hoje, os cientistas sabem tudo sobre esses pontos — o telescópio James Webb, da NASA, que será lançado, orbitará o Sol e a Terra em um ponto de Lagrange estável chamado L2.

A Terra e a Lua têm a proporção de tal forma que certa quantidade de massa poderia orbitar estavelmente o sistema em L4 e L5, os dois pontos de Lagrange que, de fato, foram descobertos pelo próprio Lagrange. O cientista polonês Kazimierz Kordylewski observou evidências de nuvens de poeira próximas a L5 em 1961. Desde então, não tem havido muita pesquisa sobre essas nuvens de poeira. Mas, nos últimos dois meses, equipes de cientistas fizeram uma investigação para ver se essas nuvens poderiam existir, apesar da gravidade adicional do Sol ou de seus ventos solares potencialmente detonarem essa nuvem.

A equipe da Universidade Eötvös Loránd começou construindo uma simulação matemática, baseada nas equações de um sistema contendo Sol, Terra, Lua e uma quarta nuvem de poeira. Eles descobriram que uma nuvem de poeira em constante mudança era totalmente possível em L5, de acordo com o primeiro de dois artigos no Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. Isso confirmou outra análise de uma equipe de cientistas russos publicada um mês antes.

Mas eles veriam realmente uma nuvem de Kordylewski? A equipe começou usando o observatório privado do autor do estudo, Judit Slíz-Balogh, em Badacsonytördemic, na Hungria, com lentes especiais capazes de medir a polarização da luz — basicamente, a orientação de seu campo elétrico correspondente enquanto viaja pelo espaço. Eles esperavam ver a assinatura da nuvem de poeira de Kordylewski na polarização da luz vinda de L5.

Eles a encontraram, mas com muito esforço. “Depois de vários meses de perseverança (porque é difícil encontrar boas noites sem lua e sem nuvens na Hungria), conseguimos capturar (a nuvem de poeira de Kordylewski) em torno do ponto L5 Lagrange em duas noites consecutivas”, escreveram no segundo artigo publicado na Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.

Embora a equipe tenha a modelagem e a observação para a respaldarem, vale a pena tratar a conclusão com cautela. De acordo com o artigo, as observações podem ser um fenômeno transitório, e qualquer poeira que eles viram pode facilmente se dissipar com empurrões gravitacionais de outros planetas ou com vento solar. Muitos outros telescópios, assim como uma sonda japonesa, não encontraram evidências da poeira — embora outras observações o tenham feito. Talvez seja outra coisa, embora os pesquisadores tenham tido o cuidado de descartar quaisquer outras fontes potenciais dessa luz polarizada. Os cientistas argumentam que seu método de observação de polarização ofereceu uma maneira melhor de encontrar a nuvem de poeira.

Mas e aí, a nuvem está mesmo lá? A evidência mais nova aponta que sim — e, se ela realmente está lá, isso significa que temos pelo menos uma (se não duas) lua, com uma outra nuvem de poeira possível em L4.

[MNRAS, MNRAS]

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Imagem do topo: G. Horvath (Royal Astronomical Society)