Astrônomos do ESO (Observatório Europeu do Sul) junto com pesquisadores de outras instituições descobriram que aparentemente não estamos tão longe quanto se pensava de um buraco negro. Mas também não é tipo ali do lado, pelo menos em termos terráqueos. Para ser mais específico, os especialistas identificaram um buraco negro a 1.000 anos-luz de distância da Terra.

O que chama a atenção, segundo o comunicado do ESO, é que o buraco negro faz parte de um sistema triplo de estrelas que pode ser visto a olho nu da Terra. O estudo com detalhes da descoberta foi publicado no periódico Astronomy & Astrophysics nesta quarta-feira (6).

Ainda que 1.000 anos luz seja distante para caramba, quando consideramos a Via Láctea, é praticamente em nosso quintal, como definiu Dietrich Baade, astrônomo emérito do ESO ao Gizmodo US.

Este buraco negro próximo de nós foi descoberto após observarem duas estrelas usando o telescópio do observatório La Silla, no deserto do Atacama, no Chile. Mais especificamente, os pesquisadores estavam interessados em um sistema de duas estrelas chamado HR 6819, que fica na constelação Telescópio.

No entanto, durante as observações com o espectógrafo FEROS montado no telescópio de 2,2 metros MPG, eles repararam que uma das estrelas visíveis orbitava um objeto a cada 40 dias que eles não conseguiam ver, enquanto a segunda estrela está a uma grande distância desse par interno.

O tal objeto é, segundo os pesquisadores, um buraco-negro, só que ele é um dos poucos que não “interagem violentamente com o seu ambiente”, diferente de outros que espalham raios-X por aí. Baseado na órbita das estrelas, eles puderam calcular a massa deste “buraco negro silencioso” que é quatro vezes maior que a do Sol.

“Achamos que a maioria dos buracos negro da Via Láctea são buracos negros silenciosos, e que tenha quase um milhão deles. Nós achamos cerca de 100”, disse Marianne Heida, que é bolsista de pós-doutorado no ESO, ao Gizmodo US por e-mail. “Este [que achamos] é apenas a ponta do iceberg neste sentido”.

O fato é que esta descoberta do ESO fará com que os astrônomos observem melhor sistemas de estrelas de nossa galáxia em busca de outros possíveis buracos negro deste tipo.

Dúvidas sobre se é um buraco negro ou não

O Gizmodo US nota que o sistema HR 6819 começou a ser observado em 2004 e que, até então, era apenas um típico par de estrelas que era orbitado por uma terceira estrela. No entanto, ao tentar desembaraçar as luzes das estrelas, descobriram que não havia uma estrela interior.

Os cientistas, então, descobriram que uma estrela normal não conseguiria ficar escondida na luz de uma segunda e que com uma massa 4,2 vezes maior que o Sol, este objeto seria muito grande para ser uma estrela de nêutron (que geralmente tem cerca de 2 vezes a massa do Sol). Logo, a nova pesquisa concluiu que trata-se de um buraco negro.

Kareem El-Badry, que é estudante de doutorado do departamento de astronomia da UC Berkeley e não estava envolvido no estudo do ESO, disse que é impressionante o feito de eles terem achado um possível buraco negro em uma estrela que já foi bastante estudada. No entanto, disse ele, os autores precisaram usar suposições para calcular a massa da estrela visível, e se isso estiver errado, o objeto invisível pode não ser um buraco negro, mas apenas uma estrela de nêutron.

A astrônoma JJ Eldrige, da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, disse ao Gizmodo US por e-mail que ela não achou a análise o suficiente para dizer que se tratava de um buraco negro. Ela, inclusive citou o sistema LB-1 que foi notícia recentemente e semelhante ao HR 6819. No início acreditava-se que ele tinha um buraco negro com 70 vezes a massa do Sol. No entanto, estudos posteriores passaram a duvidar se havia uma massa tão grande presente nele. Particularmente, Eldrige acredita que este sistema também não conta com um buraco negro, enquanto os pesquisadores do ESO acham que sim.

Independente das dúvidas, a descoberta do ESO pode ser o primeiro buraco negro descoberto na Via Láctea, que deve contar ainda com milhões de outros que ainda não foram detectados. Os pesquisadores procurarão agora vários sistemas destes para saber quem são os próximos candidatos.

Como falamos no início, o sistema que contém um buraco negro pode ser visto a olho nu. Então, para nós, privilegiados, que moramos no hemisfério sul, basta procurar por HR 6819 na constelação telescópio (ou Telescopium, pois costuma-se usar o latim para descrever constelações) com algum app (como o SkyView). Talvez, você esteja olhando para um buraco negro.

[Gizmodo US e ESO]