Tomem isso, americanos! Aposto que por lá não há favelas com wi-fi gratuito. Desde ontem, os 10 mil habitantes do Morro Dona Marta (ou Santa Marta), comunidade no bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro, têm o sinal de internet forte e gratuito, vex-free. Rolou festa para a inauguração do serviço, com presença do governador e tudo – aparentemente o primeiro de vários. No caso da Dona Marta, serão 16 antenas retransmitindo o sinal para todo mundo que tiver notebooks com wi-fi, iPhones e etc, na favela. O governo do Rio destaca que é a primeira favela do continente a ter internet gratuita – o que é uma coisa para dar orgulho, com restrições. O projeto custou R$ 490 mil e foram utilizados alguns equipamentos que sobraram dos jogos Panamericanos. Eu fiz algumas perguntas para o pessoal da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, que respondeu.

  

Giz: Qual é a velocidade da banda?
A Banda é gerada pela REDERIO, a capacidade do sistema é de até 40 M para distribuir em todas as antenas, sendo o sinal dinâmico. Ele transfere o sinal (fortalece) onde há maior demanda. 

G: Quem é o provedor de fato? Há alguma parceria com Virtua, Speedy ou é uma tecnologia e cabos proprietários do governo? 
O Provedor é a REDERIO, que presta o serviço através da FAPERJ, Fundação Carlos Chagas Filho de Apoio à Pesquisa do Rio de Janeiro.

G: Quais são os limitadores de tráfego? Imagino se meia-dúzia de usuários mais pesados começarem a baixar fortemente, a velocidade cai para todo mundo, certo?
No momento, não há limitadores que serão implantados posteriormente, a partir de controle pelo Estado.

G: Há filtros de navegação? A reportagem dO Globo diz que há alguns domínios que não podem ser acessados para evitar crimes, como pedofilia. Existe isso ou é uma internet comum, como a da minha casa?
Poderão ser criados filtros a partir do gerenciamento em fase de implantação. Atualmente a rede está liberada, mas com condição de monitoramento podendo, se necessário, se intervir para inibir algum usuário.

 

Pelas pesquisas do Estado do RJ, há 1.600 computadores na "comunidade". Outro levantamento deles indica que 34% das pessoas que têm computador em casa não acessam a internet com ele. Como Nanderson RIbeiro, ouvido por uma reportagem do Estadão sobre o Dona Marta:

“Aqui é uma comunidade de elite, muita gente tem computador. O pessoal compra parcelado. Eu mesmo e vários aqui só lemos jornal pela internet”, conta Nanderson Ribeiro, de 24 anos, monitor do posto de internet gratuita de um centro estadual no pé do morro. Na expectativa da rede sem fio, Vandessa Ellen, de 17 anos, mantém o perfil num site de relacionamentos atualizado no posto. “Tenho computador em casa, mas, como não tem cabo, tenho de vir aqui. Não sei ainda como vai funcionar, mas vou dar um jeito para captar o sinal.”

 

Bom pra eles.

UPDATE: Como eu acho que isso deve gerar um bocado de saudável discussão aí nos comentários, queria só dar uma contribuição opinativa, já que a coisa é muito inflamada para os dois lados. Tende-se a tachar as pessoas: quem é a favor logo é "humanista trouxa" e quem é contra vira "nazi". Não é por aí. Concordo que, se houver um projeto de internet gratuita, ele tem de começar justamente por quem tem menos dinheiro para pagar internet – como alguém já falou aí embaixo, acesso à informação e educação é condição para mudar a história. Então, a princípio, a idéia me parece certa.

Por outro lado (por isso escrevi "algo para se orgulhar, com reservas"), algo tem de ser feito para mudar as favelas do Rio. Imagino que a internet gratuita deveria vir acompanhada de algum grande projeto de infra-estrutura e regularização. Algo como bolsa-escola, onde a mãe ganha dinheiro, mas precisa matricular os filhos na escola. Quer internet de graça? Regularize tua situação e pague IPTU. Seria uma boa alavanca para começar o processo. Por mais que alguns extremistas queiram, não dá para colocar as favelas abaixo. É preciso achar uma maneira de dar cidadania a cidadãos que costumam ser vistos como de segunda classe. Eles devem ter direito à internet gratuita, se essa é uma política de governo, mas devem ter o dever de pagar impostos.

E continuem a discussão porque, concordando ou não, ela está bem alto nível, em contraste com o que eu vi ali no site de O Globo. Medo.